Ano 10 – vol. 08 – n. 49/2022
Eu não gosto de assistir entrevistas em períodos eleitorais. Normalmente fujo, seja pelo contunmaz cinismo do político brasileiro, seja pela veia estúpida de muitos dos jornalistas do Brasil. Eu sei, eu sei, tenho amigos jornalistas, mas dentre eles os imbecis talvez sejam apenas conhecidos, não amigos. Ainda assim, dos mesmos, nunca assiti a uma cena de dimensão tão deprimimente quanto à que assisti (certamente com milhares de espectadores) ontem pelo noticiário que tem o nome de Jornal Nacional. Hoje apenas um panfleto da mídia. Explico.
O que deveria ser uma entrevista com um dos candidatos a presidente, no caso o atual Presidente da Repúblcia, não passou de uma espécie de tribunal de exceção de deixar qualquer torturador do DOI-CODI no chinelo. Faltou apenas ligar os fios na “cadeira do dragão”.
Do ambiente que envolve a acomodação, a iluminação, o tratamento, a descortesia e a arrtogância, tudo, simplemente tudo, me lembrou os interrogatórios narrados na literatura dos anos de chumbo. O que é mais grave? Bom, tudo feito por uma concessionária de um canal de televisão.
O que poderia ser uma grande oportunidade para escutar projetos e propostas para o país virou um festival de acusações com interrupções grosseiras quando se viam acuados. O “tio” Bonner mereceu a invertida: “Você está me forçando a ser ditador”. Quando tentou dizer que não já era tarde, o caldo tinha sido derramado. Mas houve pior. Ao falar da intereferência do entrevistado, a quem ele não chamava de presidente, na Polícia Federal, deu a informação de que a Associação da PF havia emitido uma nota de insatisfação, no que recebeu como resposta o óbvio, de que o entrevistado não ineterferia, tanto que o próprio “tio” apresentou a informação.
A jornalista, por sua vez, cerrava os dentes com uma espécie de contenção de ódio que poderia muito bem lembrar a peçonha. Como sou educado não compararei. Mas não posso negar que, a despeito de demosntrar um nervosismo sem disfarces, conseguiu reescrever o que disse ao vivo: “Fique em casam, se puder”. Foi imediatamente desmentida. Logo as redes sociais reproduziram, às escâncaras, todas as campanhas lideradas pela emissora.
Como se não bastasse o entrevistado levou escritos em uma das mãos palavras que queria ver veiculadas e parece que teve sucesso, pois uma das apoiadoras do principal adversário do entrevistado, a moça que tem uma tatuagem no “bororró cinzento”, se encarregou de divulgar o assunto, talvez lembrando de sua época de escola. Resultado? Bom, apagou a publicação, mas aí já era tarde. Mas dela não se pode esperar muito.
O resultado do debate – não posso chamar aquilo de entrevista – na prática foi que se viu um jornalista arrogante e mal educado, com poucos princípios éticos, cumprir ordem de patrões que, queiram ou não, estão demonstrando que sentem falta do aconchego do dinheiro público financiando empreeendimentos particulares. Também se viu uma jornalista exalando ódio, presa a frases prolatadas pela mídia, algumas gestadas na prórpia emissora, completamente desorientada diante de uma pessoa que demonstrou a calma que os debatedores não conseguiram aplacar. Só não vi a acusação de misogenia, homofobia e genocídio.
O Brasil perdeu muito. A emissora perdeu tudo, pois o que poderia ter de credibilidade foi lançado na esgotosfera. Descumpriu seu papel, ultrajou o povo brasileiro, deu a chance clara de que, de forma indiscutível, o dedo em riste não é o melhor companheiro de ninguém. Penso que o entrevistado foi transformado em vítima naquele instante, demonstrando mais habilidade do que os interrogadores do DOI-CODI, ou melhor, da Globo.
Se o caro leitor acha exagerada a comparação com as inquirições do DOI-CODI talvez prefira dar razão ao título deste escrito. É que o que me veio à memória foi a síntese do filme (chato, aliás), que transcrevo:
“Lloyd Christmas (Jim Carrey) e Harry Dunne (Jeff Daniels) são dois homens extremamente estúpidos. Quando Lloyd leva até o aeroporto Mary Swanson (Lauren Holly), uma bela mulher que vai para Aspen, Colorado, acredita que Mary perdeu uma mala. Na verdade ela “esqueceu” no saguão, pois dentro dela está uma grande soma para pagar o resgate do marido, mas antes que os seqüestradores peguem a valise Lloyd a recupera e tenta lhe entregar. Como o vôo já partiu e ele se sente atraído por Mary, convence Harry para irem até Aspen para devolver o dinheiro. Na viagem se envolvem em várias confusões, além de serem perseguidos pelos seqüestradores.”(Consulta feita no site https://www.adorocinema.com/filmes/filme-12685/, em 23.08.2022.
Debi e Lóide é o filme, mas bem poderia ser o que se assistiu ontem.
Foi triste. Foi patético. Foi grosseiro. Foi tudo, menos jornalismo.
Plim, plim! Fim.