Ano 10 – vol. 08 – n. 51/2022
O Brasil não vive o seu melhor momento. E não está assim por atravessar uma pandemia, por presenciar uma guerra ou mesmo por uma inflação que já mergulha muitos estados europeus em recessão. Ao contrário. Aqui vivemos o fenômeno inverso. É a deflação que (eu, pelo menos) assisto pela primeira vez em minha vida.
Passei minha adolescência e até determinado momento sob um regime de governo militar. Era uma época em que tínhamos com reiterada prática o culto aos símbolos nacionais. Andávamos com segurança pelas ruas. Havia respeito ao controle de tráfego, pois o batalhão de trânsito da PMMA era não só respeitado, mas temido pelos infratores.
Talvez o apressado logo diga: Como defender a ditadura? Pois é! Não a defendo, ao contrário desses que gostam de apontar o dedo e acusar os outros do que são capazes. São os mesmos que defendem Fidel, usam camisa de Che, se calam diante da ditadura de Chaves herdada por Maduro (para dizer o mínimo) e são indiferentes à perseguição contra cristãos no continente americano. Reporto-me, sim, a um tempo em que o mundo era diferente. Sem internet, onde as notícias chegavam às vezes tardiamente.
Cheguei à universidade. Lá passamos alguns desconfortos porque nas turmas infiltrados estavam agentes da polícia federal, as ASIS (os braços do SNI nos campi), gente do DOPS, enfim, gente da repressão. Com alguns conseguimos até sentar para cervejas. De outros preferíamos manter distância. Mas uma coisa era comum. Queríamos votar para presidente.
Os protestos, os movimentos, as greves etc., enfim, chegamos à Assembleia Nacional Constituinte. Ufa! A redenção!
É claro que hoje amadurecido e em processo de envelhecimento consegui não apodrecer as ideias. Mas há os que persistem em uma teimosia burra que preferem arriscar retroceder em nome de projetos pessoais, como há os que, integrantes de uma aristocracia nefasta que historicamente sempre atrasou o Brasil, não estão preocupados com o que possa ocorrer. Sempre haverá uma aeronave posta à disposição. Guarulhos e Tom Jobim terão as portas abertas.
Mas há limite para tudo na vida e é preciso que as autoridades comecem a se preocupar com isso. Temo pelos meus filhos e netos. Realmente temo.
Não há mais nenhuma dúvida de que por causa de um homem que tem uma postura diferente do que houve até aqui na história dos governos do Brasil (ninguém é obrigado a concordar) todos paguem. Não é razoável que a aristocracia que não aceita a vontade popular siga a cometer delitos que se multiplicam a ponto de haver completa insegurança entre as pessoas.
Ninguém consegue mais conversar no Brasil sem que olhe à sua volta. As redes sociais passaram a ser arapucas e a inversão de valores foi posta às escâncaras. Criminoso é vítima da sociedade capitalista. Empresário ou cidadão que emita opinião depreciativa sobre autoridades passaram a se equiparar a terroristas.
Minha geração viveu o sonho de que a solução de tudo estaria em uma Constituição. Minha geração apostou forte na crença de que as liberdades jamais seriam alvejadas porque a censura havia acabado. Hoje me deparo com mais uma decisão absurda do poder judiciário. Mais uma de tantas.
Hoje eu acordei e vi que meu sonho virou um pesadelo e ele se chama INSEGURANÇA JURÍDICA.
Primeiro foi o ativismo, depois o criativismo. Passamos à juristocracia e, agora, beiramos a subversão constitucional.
Não desejo desacreditar no Poder Judiciário porque é uma instituição que integra as decisões políticas fundamentais declaradas pela Assembleia Nacional Constituinte – art. 2º da CRFB. E você não precisa ser jurista para compreender que o que ali está escrito obedece a uma dinâmica de instituição, organização e funcionamento dos Poderes. Legislativo, Executivo e Judiciário.
Os homens que assinaram uma carta autoproclamada de “democrática” são os mesmos que, hoje, estão em grupos de redes sociais possivelmente vibrando por decisões judiciais teratologicas. Nem os considero juristas e muito menos democráticos. Ou você tem compromisso com o Direito e com a democracia de forma científica e impessoal ou você está do lado do opressor.
Acordei e constatei. Vivemos um pesadelo. Minha geração acreditou que bastava votar para presidente. Quanta ingenuidade!