CONVERSA DE PAI E FILHO

Ano 10 – vol. 10 – n. 70/2022

Meu pai, sei que estás aí no plano celestial. Firmemente creio. Ainda bem, pai. Não que eu não quisesse que tivesses fisicamente aqui, mas não te faria bem. Muito do que me alertastes hoje ocorre. Por isso resolvi escrever.

Sabe, pai, aquele alerta que me fizestes quando eu concordava muito com alguns argumentos teus? Dizias que eu estava velho porque eu não deveria concordar sempre com as ideias de um homem de 64 anos.

Pai, cheguei aos 66 anos. Pois é. O divórcio com o tabaco há quase 30 anos deve ter me concedido um crédito. Não me sinto velho, mas convivo com gente envelhecida, algumas de almas carcomidas.

O senhor não suportaria, como jornalista que foi, assistir à imprensa de hoje defendendo a censura de opositores. Sim, meu pai, simpatia a políticos ganhou ares de militância. É uma promiscuidade abjeta de homens e mulheres que se ajoelham diante dos favores corrompidos (ou seria dos corrompidos favores?!) com a desfaçatez que comunga mentira com oportunismo, charlatanismo com análise. Penso, às vezes, que mudarão a lei da gravidade, pelas acrobacias verbais e propósitos circunstanciais.

Ah! Nem lhe conto. Ou melhor, devo contar porque seu amor e dedicação para com a advocacia me impôs sempre a capacidade de me insubordinar diante de uma injustiça, embora o senhor o fizesse com a calma que as vezes me falta.

Lembro que um dia, ao comentar com o senhor sobre a postura de uma autoridade judiciária, sua resposta foi certeira: “Zé Cláudio, há pessoas que quando morrerem não deixarão para os filhos nem o exemplo como herança”. Parece, papai , que o Brasil está cheio de maus (sim, com “u” mesmo) exemplos.

Muitos são os fatos que eu te poderia contar. Alguns não devo. Outros não posso, mas há os que, porque esta carta que a ti dirijo muitos serão testemunhas por lê-la, hei de fazê-lo.

Pois bem. Acreditas que aquele recato de que falavas como perfil de magistrados está escasso? Não, não desapareceu, mas há uma espécie de vaidade que lembra o que também um dia me disseste: “Se comprares fulano por quanto ele vale e venderes por quando ele pensa que vale terás um lucro imenso”. Pois é, há tantos hoje que se põem até sobre a Constituição da República, como se ela dependesse deles como fonte, e não o contrário, como aprendi.

Infelizmente tenho que dizer ao senhor. O Direito como ciência é apenas um murmurar de ideologias. Os clássicos soam como novidade quando os indico, mas os manuais são preferidos.

Há uma curiosidade a destacar. Em geral, os autores das obras de Direito Constitucional no Brasil, quando o plágio não é descoberto, recortam gráficos e gestam ideias com eloquência vocabular. Alguns, contudo, sequer teriam proficiência para aprovação em concursos públicos. Outros, pela argumentação refém de lógica orgânica em determinadas circunstâncias, traduzem a clareza de que “ghost-writers” estiveram na cabeceira. Uma coisa, porém é comum: quase sempre não praticam o que escrevem, porque sempre é possível invocar uma certa liberdade de inovação, uma coisa assim do tipo que subverte a separação dos poderes. Lembras do clássico? Pois é, hoje clássicos só os vinhos.

É, meu pai! A vida está difícil para quem viveu na juventude em busca de um estado democrático e agora se depara com uma espécie de “pandemia jurídica de perfis com pitadas de adolescência e rebeldia tardia”. É uma nova espécie de impulso civilizacional que anda de costas.

Muito mais eu teria a te dizer, mas sabe, meu pai, melhor não. Estamos em uma fase da vida em que a bandeira nacional, veja só, um símbolo nacional previsto pela Constituição, passou a ser proibido. Definitivamente, aquilo que me dizias sobre os dias piores que chegariam, quando vias os espaços concedidos a um delinquente aconteceu. O Brasil de hoje é tão exótico que apareceu no jargão jurídico a palavra que, subvertendo a lógica, o direito, e até o bom senso, tem sido reiteradamente veiculada: descondenado.

Eu sei, eu sei. Dirias que não existe. Não nos dias de hoje, meu pai. Aqui quem é ladrão tem licença para concorrer a cargo público. E aí de quem se oponha. Sabe aquele clássico de Hobbes? Pois é. No Brasil ele existe, o tal do Leviatã. Mas disso falarei outro dia, porque a teratologia, a arbitrariedade semântica, vocabular e lógica são tamanha, que é necessário refletir mais. Há um livro posto em prática. Sim, 1984.

Peço tua benção, meu pai, sempre reafirmando que te amo e que um dia aprendi contido que “ existem pessoas para as quais é mais fácil justificar o absurdo do que explicar o óbvio.

Desejo que prevaleça o lógico, porque o absurdo parece instaurado nas almas carcomidas dos desmemoriados.

Deus esteja com o senhor.

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