ANO 11 – vol. 03 – n. 11/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.8332666
A Academia no Brasil (e creio que pelo mundo) sofre, há algum tempo, a disseminação de discursos (chamam de fala) que está próximo de sustentar que a lei da gravidade pode ser revogada, a depender do ângulo e de quem esteja “no lugar de fala”.
Há uma indisfarçável mediocridade solta. Há pactos de cegueira contra o que era, há bem pouco reclamado, mas que em verdade, era só porque não se encontravam no “lugar de fala” os “bons ladrões”, os “nossos são melhores do que os deles”. Nada impede que este seja o mantra.
Esse cenário Dantesco vai piorar. Sim, lamento afirmar, pois a constatação é clara para quem esteja de olhos abertos, com a atenção suficiente para identificar o analfabetismo funcional se multiplicando como se fosse uma espécie de vírus em laboratório de manipulações permitidas.
A cada dia que passa mais e mais se prolifera a incapacidade de leitura e interpretação. Você duvida? Pois experimente ser irônico nas redes sociais sem que haja o alerta “contém ironia” ou, mais frequente, um emoji. Pobre de si. A limitação cognitiva é um assombro.
Aprendi que só sabe escrever quem tem o hábito de ler. Mas também aprendi que não basta ler, é preciso aprender a interpretar. E é aqui que as coisas complicam.
Aos jornais já não dou crédito, pois sei que o que foi “notícia” agora em pouco menos de vinte e quatro horas será desmentido. Aos telejornais adquiri resistência, pois os (as) âncoras passaram a desempenhar papeis de vendedores de produtos “made acolá”, lembrando quase o hilário quadro das Organizações Tabajara, programa de televisão de um tempo em que o humor não precisava usar o insulto como recurso.
Fala-se com a maior naturalidade sobre comportamentos de autoridades que estão além do padrão mínimo de observação aos princípios de moralidade e legalidade, porque o “mas” (conjunção) serve como recurso de justificação de tudo. Assim caminha a mídia que já está a merecer registro no TSE por tamanho ativismo a toda hora. Até os narradores esportivos estão confundindo as coisas.
Quando tudo parecia chegado ao fundo do poço, eis que o poço parece que não tem fundo.
Li, com espanto, em uma das redes sociais, a oferta feita por professores (merecem este título?!) de cursos sobre Chat GPT “para ajudar na escrita científica”. Pus-me a ler o anúncio e fiquei estarrecido ao me deparar com um tal “desafio do seu artigo pronto em 30 dias”.
Imagino eu que a companhia tecnológica seja uma alternativa para a vida em uma sociedade acelerada em vários níveis. Mas o instrumento ou serve como recurso auxiliar ou teremos a inevitável automação como resultado dominante sobre seres que viram engrenagens de um mecanismo.
Reduzir o tempo de trabalho, oferecer alternativas que facilitem a execução de cálculos, simular situações e cenários que possibilitem o desenvolvimento ambiental responsável e seguro todos são recursos que convivem compativelmente com o homem inteligente. Mas daí a substitui-lo com produções científicas oferecidas à Academia, como produto autêntico, do estudante ou aluno a mim soa como fraude, ainda que, pela falta de leitura e incapacidade de interpretação, a ele pareça apenas uma alternativa.