RUÍNAS DO TEMPO

Ano 11 – vol. 09 – n. 55/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.8341094

Se há uma coisa que nos serve para colher conhecimentos é o tempo. Eclesiastes sempre será uma fonte inesgotável para esta constatação. Basta lembrar do núcleo da Palavra: Há tempo para tudo. 

O homem, com sua inatingível pretensão de perfeição, acha que pode subverter a ordem das coisas e se lança à aventura do domínio. Tudo pretende que esteja a seus pés, não importa o custo, posto confundir o ser com a coisa. Tudo, na sua fugaz compreensão, é objeto de posse.

Há, é bem verdade, os que se deixam possuir pela alma inata de escravo, pondo-se a concordar até mesmo com as imoralidades da perfídia. Mas há os que já são irrequietos e indomináveis a partir do dia do nascimento – aceleram o parto. Demais, possuem opinião própria e a consciência do livre arbítrio para chegar, estar ou ficar em alguns ambientes.

De certo que o tempo, contínuo e às vezes perverso, impede que o homem consiga conjugar o verbo SER na primeira pessoa do presente do indicativo. Quando terminar a oração EU SOU, já não É. FOI, é pretérito. 

Tempo, também, é fator de domínio. Ele, claro, domina, ainda quando consigamos medi-lo pelo sistema fechado do relógio. Não importa. Apenas contamos, mas ele passa e nos deixa com os carimbos indeléveis das rugas. Todos as temos ou as teremos, afinal, só não envelhece quem morre antes. 

Aos que alcançam a provocação filosófica compreenderão com facilidade que diante do tempo há pessoas que apodrecem sem conseguir amadurecer. Lembro, aqui, mais uma, das muitas lições de meu pai. 

O tempo, também, é tradutor de pessoas. Quanto mais ele passa mais revela cada um, mais cedo ou mais tarde. Há os que valem quanto pesam, como há os que pesam o que não valem. Uma vez mais é útil a lição paterna que trago na memória: “Há pessoas que se comprares por quanto vale e venderes por quanto ela imagina que valha, terás um lucro imenso”. 

Pois bem. Falo do homem não individualizado. Se a carapuça servir, paciência. Ou você sai do armário e põe a gravata ou continua com a mesma fantasia colorida escondida. 

O compasso dos passos de cada homem não é impresso em papel de fax. Alguns se traduzem pelo carbono no papel amarelado. Outros, como registro, possuem a certidão de nascimento e uma folha corrida abastada, mas ainda assim insistem em confundir-la com curriculum vitae. Tudo é livre arbítrio, às vezes confundido com arbitrariedade.

Falar do tempo já me havia sido propósito. Mas não tive tempo enquanto ele passava e não me bateu à porta para alertar-me. Contudo, a ele não me rendo enquanto as pálpebras não se unirem. Caminho em meu compasso, sem passos trôpegos. 

Do tempo não falo mal, pois me tem sido generoso nesta estrada, mesmo quando as pedras sejam pedaços de corações endurecidos, recolhidos pelo tempo, em que vez por outra tropeço. Mas caminhar é preciso e eu levanto.

É preciso continuar caminhando. Quando se pensa que o amanhã não chegará tão cedo é hora de partir, antes que se vire ruínas do tempo, este senhor dos acontecimentos, sábio para determinar que há tempo para plantio e tempo para colheita. 

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