Ano 12 – Vol. 08 – N. 39/2024
Ser intelectual nos dias de hoje já pode ser considerado artigo raro. A imbecilização tornou-se a regra. Basta assistir aos contorcionismos jornalísticos militantes, como tentar ouvir as músicas de hoje que fizeram da “Eguinha Pocotó” uma obra de arte. Os apelos de performances teatrais tiveram o ápice no antigo centro da civilização. Tudo matéria plástica.
Lá em casa de meus pais, quando se queria desprezar ou desvalorizar algo, dizia-se: Ah, mas isso é de matéria plástica! Talvez porque o vidro fosse a tradução do que era melhor. Creio que ainda seja, porque há pessoas que são cristais no trato.
Bom, mas homens são feitos de carne e osso, à imagem e semelhança do Criador, e repletos de virtudes e defeitos. Uns, claro, mais do que outros.
Falo, hoje, de virtudes, não pela despedida, porque de um verdadeiro intelectual – Ad Imortalitatem – não nos despedimos. Sua vida pessoal e sua integridade intelectual perdurarão para sempre. Nada é mais ajustado ao que digo do que este breve trecho que transcrevo:
“VENCENDO A MORTE
[…]
Em bar que ali havia, Amaral gostava de tomar a cerveja de cada dia. E, como escreveu Bernardo Almeida, seu velho confrade de saudável boêmia, naquele canto ele ficou, apesar de ter partido para o mundo da morte, o único capaz de obrigá-lo a não viver fisicamente em sua cidade querida.
Tragamos de volta a alma de Amaral”. – Joaquim Itapary, Armário das Almas, Ed. AML, 2015.
A crônica, parte de uma coletânea feita por Joaquim – 2000/2015 – ao jornal O Estado do Maranhão, apresentada pelo intelectual – e, costumo falar com carinho: O GUARDIÃO DAS LETRAS DO MARANHÃO – Benedito Buzar. Basta a mim e a ele sabermos o motivo.
Não desejo, porém, traçar linhas de um inventário literário, mas escrever uma “ata sumariada de assembleias da vida”. Daquelas em que o acaso proporciona ou que os acontecimentos literários produzem.
Não foram muitas, embora várias e ricas, todas as vezes em que me encontrei e tive a oportunidade de conversar (ou só cumprimentar) Joaquim Itapary. Aliás, Joaquim Salles de Oliveira Itapary Filho.
Em uma dessas ocasiões, em que presentes Benedito Buzar, Joaquim Itapary, Natalino Salgado, Eliezer Moreira e este aprendiz que lhes escreve, no Boteco, num sábado fortuito, disse-me ele que havia lido meu livro. Fez uma síntese do que havia gostado e me encheu de orgulho. Dali em diante falamos de eu ocupar a cadeira patroneada por Bandeiraa Tribuzzi na Academia Ludovicense de Letras, de quem ele, como meu pai, tinha sido amigos. Mas também falou de trabalhos que ambos realizaram para a concepção de uma das Constituições do Estado do Maranhão.
Mas a admiração pelo intelectual também despertou em mim uma característica que ainda cultivo nas pessoas: a elegância.
A par de ser um intelectual valoroso – sua vasta obra é a prova – foi uma pessoa de refinado trato e de trajes elegantes, embora isso não fizesse dele nenhum homem soberbo. Ao contrário. O “Zé Cláudio” me era dito com o carinho de quem guardava histórias do Apeadouro, onde nasci e onde ele frequentou pelo parentesco dele ali residente, como às amizades que ali viviam, como a que ele dedicava a Yedo Saldanha.
Joaquim era assim, entre um intelectual exuberante e um ser humano elegante. Firme em convicções pessoais, escorreito na escrita e refinado no trato.
Guardo memórias. Guardo lembranças. Guardo palavras, como as que iniciavam nossos cumprimentos: Poeta, como estás?
Não nos encontrávamos com frequência, mas há uma frequência que ficou como em ondas médias da “Difusora Opina”, programa diário que tinha na voz de Cordeiro Filho (estarei enganado?!) o timbre tão belo quanto o da voz do caríssimo José Salim.
Hoje, já sem a presença do poeta, resta a lembrança da jaqueta, dos óculos, da barba, do olhar sereno e do tom de voz. Quem sabe para me dizer:
“Poeta, estou em outra academia. A mais bela de todas” – ao que eu responderia: Certamente, por merecimento!
Meu apreço e meu abraço, Joaquim Itapary. Como dissestes um dia de Bernardo Almeida, falando sobre Amaral, a morte pode privar-nos todos da presença física, mas a imortalidade intelectual e a grandiosidade humana estarão em cada esquina desta cidade de poetas e paixões.