Ano 13 – vol. 03 – n. 17/2025
https://zenodo.org/records/14974528
“Discordar, sim.
Divergir, sim.
Descumprir, jamais.
Afrontá-la, nunca.
Traidor da Constituição é traidor da pátria”
Ulysses Guimarães
A ênfase apaixonada com que alguns discutiram o filme premiado do cineasta Walter Salles ganhou a internet como se fosse a Marques de Sapucaí. Caricatos, desavisados, especialistas e gente do meio, gente de toda espécie. Quase como torcidas organizadas.
Não assisti o filme; não por qualquer viés ideológico. Conheço o fato histórico e espero que sobre o assunto ainda se ponha luz, como a que teve o Gabeira, ao reconhecer que a sua luta não era contra a ditadura. O propósito – confessou o guerrilheiro aposentado – era instalar a ditadura do proletariado.
O acontecimento que virou filme – sem que se negue a dor da família – deve ter suas nuances de romantização piedosa que é própria do esquerdismo. Mas duvido que o filme trate do envolvimento ativo do retratado na película com o partido comunista soviético. A despeito disso é bom que existam obras assim, mesmo com derrapadas factuais que o tempo se encarregará de corrigir. Duvidam? O tempo faz milagres e a história jamais será reescrita.
Mas volto ao ponto em que disse ainda não ter assistido o filme. Tenho dificuldades em ir a salas de cinemas e ver pessoas com celulares ligados com as telas rompendo a penumbra, mesmo após as advertências feitas, atrapalhando os obedientes. Algumas chegam até a atendê-los e resistem a usar o toque silencioso do aparelho. Mas também tenho receio de que algum pé me atinja a cabeça por algum adolescente que – suponho – recebeu dos pais a tolerância de colocar os pés sobre a mesa em casa, enquanto cada um tem a atenção em uma tela de celular durante as refeições. Tenho receio de me deparar com pessoas a se meterem a críticos e conversarem durante a exibição. Só por isso.
Conquanto não tenha assistido o filme, se bem compreendido, verão que o registro histórico é para que nunca mais aconteça o que infelizmente continua acontecendo, sem baionetas ou fuzis e tanques. Os carrascos de hoje usam gravatas estilosas, canetas e relógios refinados e se autoproclamam salvadores da democracia.
Quem festeja o prêmio como uma conquista de beligerância entre esquerda e direita não conseguiu compreender o significado da defesa da dignidade da pessoa humana. Sem se dar conta apenas reproduz um discurso dos anos sessenta, sem o esclarecimento de que não houve uma disputa entre Santos. Como se infere do que disse o guerrilheiro aposentado: era nós contra eles.
Que bom que houve um prêmio internacional ao filme que agora vai para a videoteca fazer companhia ao filme alemão – também vencedor do Oscar de filme estrangeiro – A Vida dos Outros.
Enquanto isso eu ainda estou aqui, esperando que a Constituição deixe de ser subvertida por revolucionários de iPhone que abriram porões para demonstrar que não aprenderam com o passado. Mas para minha frustrante constatação assisto ao silêncio dos juristas que defendem a democracia. Quando falam (alguns) se demonstram falaciosos quanto ao que escreveram; suas ideias desbotadas pelos fatos demonstram o que os impediu de evoluir.
Não existem meios-termos para valores que impõem observação ética como se fosse um cardápio. Ou há defesa da liberdade, da integridade humana e da democracia de forma geral ou os discursos são só metáforas elaboradas para uma ação midiática torpe.
Quando aquelas 13 colônias se insurgiram contra o reino para estabelecer uma declaração de liberdade o fizeram com compromissos que perduram até hoje. Por lá, apesar das intempéries de governos que subverteram a evolução humana, felizmente prevaleceu a vontade geral e com o mesmo catálogo de direitos de mais de 200 anos o curso da história parece ter sido retomado.
Já por aqui a inação de uns e a esperteza de outros nos faz reféns do tempo embora saibamos que a maldade não dura para sempre. Só não queiram que eu, como muitos outros cidadãos, aceite – calados – que uma Constituição seja ultrajada com requinte de crueldade, impondo a vida em porões fétidos a quem, desarmado, desejou se manifestar.
O certo é que ainda estou aqui. Não sei quando ou de onde virá a resposta, mas a espera não é só minha, o que de certo modo me conforta.
Ainda Estou Aqui não é apenas uma película cinematográfica. Se bem interpretada é a repetição da história que um dia juraram não repetir, agora com novos protagonistas.