A REPÚBLICA DE TRAGO E TRAPAÇA

Ano 13 – vol. 08 – n. 73/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17008718

A República de Trago e Trapaça – 
(Uma ironia política em tempos de impunidade)

Conto:

Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto. Fofoca não; talvez coincidência; talvez autoidentificação por autores identificáveis, conquanto o propósito encerre mais um convite à reflexão do que uma crítica a um zangão – ou seria no plural?

Pelo sim, pelo não, minha amiga oculta, IAMARA confidenciou, diante de minhas elucubrações solitárias, o que dizer. Pois dito está. Se mal dito não sei, mas que foi assim foi.

I. O ENCONTRO

Era uma cidade miúda, mas inflada de pompa, cercada por montanhas de papelada, promessas e canalhices. Seus habitantes, cansados de votar e ver sempre os mesmos rostos enrugados de poder e vaselina, viviam entre a descrença e a ressaca.

Foi numa esquina mofada do centro histórico — ironicamente chamada “Praça da Liberdade” — que se encontraram os dois sujeitos desta estória – ou seria história?

O primeiro era Alcides, um ex-contador que perdeu o emprego por desvio de verba, mas que jurava inocência enquanto bebia suas verdades em doses de cachaça. Chamavam-no Alcides Trago. Vivendo de restos e de discursos inflamados contra “o sistema”, suas palavras ecoavam como o trovão de um bêbado lúcido.

O segundo era Silvério, um homem de fala mansa, olhar fixo e sorriso que jamais se movia com os olhos. Psicólogo aposentado por motivos que os vizinhos preferiam não comentar, era mais conhecido como Dr. Silvério Manso, embora o que menos tivesse fosse mansidão. Silvério acreditava em controle total, ordem por eliminação, e dizia que a democracia era uma “doença infantil do pensamento civil”.

No banco da praça, entre um gole de álcool e outro de insanidade, nasceu o pacto:

— A cidade está podre, Alcides. A justiça virou garçom de toga, servindo sentenças conforme o freguês.
— E os políticos? Se vendem por cachaça ruim, imagine por emenda parlamentar!
— Tomaremos o poder. Você fala, eu penso. Você agita, eu planejo.
— Revolução?
— Não. Restauração.

II. A CONSPIRAÇÃO

Alcides subiu em carro de som, começou a gritar palavras de ordem entre uma piada e outra. O povo, carente de líderes — e farto de políticos que prometiam o céu e entregavam esgoto — começou a ouvir.

Silvério escrevia manifestos como tratados clínicos: “A política é um transtorno de personalidade coletiva.” E assinava com pseudônimos como “Povo Revoltado” ou “Cidadania Armada”.

Logo, os dois estavam à frente de um movimento popular esquisito: “Restabeleça-se!”, que mesclava ideias de sanatório com libertação popular. Enquanto Alcides gritava “fora tudo!”, Silvério organizava listas de exclusão — nomes a serem removidos da vida pública, da vida privada, da vida.

III. OS CONIVENTES, OS COVARDES E OS TOGADOS

Os políticos locais, acostumados com escândalos, acharam graça:

— Um bêbado e um lunático? Deixa pra lá. Enquanto isso, aprovamos o reajuste dos nossos auxílios-moradia.

Os militares, que há décadas desfilavam mais em paradas do que em operações, preferiram não se meter. Há meios-fios que precisam de pintura. Um general reformado disse:

— A ordem deve ser preservada, mas quem somos nós para contrariar a vontade do povo? (e voltou para seu sítio com pensão integral).

Já os magistrados, incomodados com os protestos em frente aos fóruns, reagiram. Emitiram decretos que proibiam aglomerações e determinaram prisões preventivas de líderes populares, fora de processos, “por risco à ordem pública e ao sossego das instituições”.

Alcides foi preso e libertado em 48 horas. Silvério desapareceu por três dias, reaparecendo mais calmo, como se tivesse matado um gato — ou dois — no caminho.

IV. O AUGE DO DELÍRIO

A cidade parou. O prefeito renunciou, o vice fugiu. Alcides e Silvério assumiram informalmente o comando da cidade. Criaram o “Comitê de Restabelecimento Moral”, que funcionava no bar da esquina, entre latas de cerveja e um quadro de Rousseau pendurado ao lado de uma roleta de bingo.

De lá, baixavam decretos:

— Fica abolido o uso de terno em sessões públicas.
— Magistrados só julgarão após jurarem sob álcool que são imparciais.
— Vereadores perderão seus salários se faltarem três sessões seguidas.
— Licitações passarão a ser feitas em praça pública, com voto popular e cerveja liberada.

Por semanas, a cidade experimentou um surto de euforia. Até que vieram os delírios.

Silvério queria criar um “Tribunal Sanitário de Ética”, em que pessoas seriam julgadas por “má intenção presumida”. Alcides, mais exaltado, começou a defender que os corruptos deviam ser obrigados a beber com ele até confessarem — ou morrerem de cirrose.

V. O EPÍLOGO

A imprensa nacional chegou tarde, como sempre. Quando cobriram a estória (ou seria história?)), só encontraram ruínas. Alcides havia sido internado após tentar discursar nu na Câmara Municipal. Silvério foi contido ao tentar envenenar o poço da prefeitura para “purificar a cidade”.

O movimento “Restabeleça-se!” foi extinto por falta de quórum e excesso de desvario.

Na porta da nova prefeitura, um cartaz foi pregado com letras maiúsculas, simples, diretas:

“Toda sociedade é regida por regras. Quando não são cumpridas, o poder muda de mãos. Mas nunca para as mãos certas. Que cada um cumpra o que contratou: o político, a lei; o juiz, a justiça; o povo, a vigilância.”

E assim terminou o curto reinado do bêbado e do psicopata — não como heróis, não como vilões, mas como sintomas de uma república intoxicada por sua própria impunidade.

FIM

E o povo, enfim, aprendeu que nada muda se apenas se ri do absurdo. É preciso também não o aceitar.

PS: Se alguém se sentiu identificado neste exercício literário não foi intenção do autor, mas pode contribuir mandando seu relato para ser incluído na estória. Ou seria história?

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