Vol. 13 – N. 35 – outubro 2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17272840
Participei da experiência há muito não vivida. Fui a uma missa solene em que minha neta recebeu a Primeira Comunhão. É um momento ímpar quando as crianças são imersas no mistério divino e, entre curiosos e ansiosos, são apresentadas à Igreja Católica para este segundo sacramento, portanto, após o batismo. A beleza e a pureza adornam o templo.
De tudo o que vi e de quanto pude refletir mergulhei em lembranças, mas também elaborei elocubrações e revisitei sentimentos que não pretendo tenham um tom professoral, quem sabe contemplativo ou talvez confessional. Apenas ponho em linhas o que o coração sentiu.
Vivemos em tempos em que o nome de Deus é constantemente invocado — nas ruas, nas redes sociais, nas conversas cotidianas. Ouve-se com frequência o “se Deus quiser”, “glória a Deus”, “Deus no comando”. São expressões bonitas, mas é preciso perguntar com honestidade: de que Deus estamos falando?
A dúvida não é heresia; é ponto de partida para quem busca a verdade. A impressão que se tem é que muitos constroem um “Deus sob medida”, um Deus conveniente, moldado às próprias vontades e às circunstâncias de cada um. Do amuleto à superstição, da vela acesa ao discurso público, o homem parece querer ver a si mesmo em tudo — até mesmo naquilo que chama de divino.
Mas há também os que afirmam não crer em Deus. E, paradoxalmente, ao negá-lo, acabam por reconhecê-lo ao menos como conceito — pois só se nega o que de algum modo se conhece. Essa constatação, que à primeira vista parece lógica, tem raízes na própria filosofia clássica, que nos ensina que o pensamento só pode negar aquilo que, em alguma medida, apreende.
São Tomás de Aquino ensinou que a razão humana pode conduzir o homem a reconhecer a existência de Deus, mas que a plenitude do conhecimento divino ultrapassa a razão e pertence à fé. A razão pode demonstrar que há uma causa primeira, um motor imóvel, um ser necessário — mas só a fé permite experimentar o amor e a misericórdia de Deus.
Assim, acreditar não é renunciar à razão, mas completá-la pela confiança. A fé, para o Aquinate, é uma virtude intelectual e moral que eleva a inteligência humana a um nível superior, sem a violentar. Ela ilumina o que a razão não alcança.
Por isso, crer é um ato de liberdade e de inteligência espiritual, não um salto cego. O coração e o intelecto caminham juntos. Quando afirmo que creio em Deus, não porque desconfie dos que não creem, mas porque apenas creio com sinceridade, reproduzo a mesma convicção tomista: a fé não é emoção passageira, mas um assentimento sereno e confiante à verdade divina.
Veio-me à lembrança um retiro de juventude, quando participei do Treinamento de Liderança Cristã em Tianguá – CE, quando ouvi falar do “Deus Socorro” — aquele que se busca apenas nas aflições. Mais tarde, percebi também a existência do “Deus Ornamento” — aquele que muitos exibem como símbolo de status ou aparência de virtude, enquanto buscam mais aplausos que conversão.
Ambas as imagens denunciam o mesmo desvio espiritual: a tentativa de instrumentalizar Deus. É o retorno sutil à idolatria antiga, agora vestida de vaidades modernas. O verdadeiro encontro com o divino exige o oposto: humildade, silêncio e gratidão.
E São Tomás é claro: a fé autêntica se manifesta pelas obras silenciosas da caridade. O bem feito em nome de Deus não precisa de holofotes, porque “a mão direita não deve saber o que faz a esquerda”.
Há quem diga que não se pode crer no que não se vê. Mas a própria fé é o que dá substância às coisas invisíveis. O invisível não é ausência — é profundidade. É o lugar onde Deus habita, no recôndito do coração humano. Crer é perceber essa presença silenciosa que consola, que orienta, que dá paz.
Como ensina Tomás de Aquino, Deus é ato puro, presença que sustenta o ser; não precisa ser visto para ser real, porque é a própria razão da existência de tudo o que existe.
Afirmo sem vacilar que creio em Deus por muito que de realidade existe, mas sobretudo porque o invisível se faz pleno em conforto e discernimento. Essa é a fé que transcende a palavra e se converte em experiência viva — fé que não se explica apenas, mas se sente e se testemunha.
O mundo contemporâneo, tão saturado de imagens, consumo e urgências materiais, carece de espiritualidade genuína. É urgente que os homens e mulheres reencontrem o eixo de suas vidas no sagrado, naquilo que não se compra nem se mede.
Vivenciar Deus não é isolamento místico; é participar da construção de um mundo mais justo e digno, onde cada pessoa é reconhecida como imagem e semelhança do Criador. A fé, vivida em plenitude, é fonte de dignidade humana — porque eleva o homem acima do mero instinto e o faz corresponder ao bem, à verdade e à beleza.
Este breve texto não postulou ser um lamento, mas um chamado à reconciliação espiritual. Postula nos recordar apenas que Deus não é um estranho que visitamos em ocasiões de dor, mas o companheiro silencioso que nos sustenta em cada respiração.
Crer, afinal, é reconhecer que a vida não se basta em si mesma. É admitir que o invisível também é real e que o amor, a compaixão e a piedade têm origem em algo maior que o homem. É essa fé fervorosa — humilde, racional e profunda — que pode devolver ao mundo os valores que hoje parecem rarear: a dignidade da pessoa humana, o sentido do bem e a confiança no transcendente.
Que cada um, ao refletir sobre Deus, não o veja como um estranho, mas como o íntimo de sua própria existência.
Foi preciso que eu revisitasse o universo da Primeira Comunhão para relembrar um pouco, vivenciar muito pelo Rosário rezado e perseverar de mãos dadas com ELE. Ou você é dos que duvidam de que ELE esteja ao seu lado?
Referência: São Tomás de Aquino, *Suma Teológica*, Parte I, Questão 2.