A CRIANÇA QUE EXISTE EM MIM

Vol. 13 – N. 38 – outubro 2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17334465

Hoje lembrei de uma música que meu pai gostava muito e tem um verso que diz: “Todo menino é um rei. Eu também já fui rei…”.

Corri pela rua machucando os pés e formando calos, atrás de bola, sem achar que estava sujo, pois resistia ao banho, até que a ameaça chegasse.

Joguei chucho (ou seria xuxo?) no sítio do Rio de São João, para fechar o triângulo e prender o oponente. 

Joguei bola de gude (ou peteca) em barroca, como joguei botão que comprava na Casa Waquim. Joguei futebol de salão como goleiro no Colégio Batista – e fomos campeões das olimpíadas internas na segunda série.

Atirei pedra de baladeira pra acertar passarinho, sem haver condenação. Empinei papagaio e fiz cerol para lanceadas. Chupei roleto de cana em São José de Ribamar. Comi tanja, peixe pedra, manga e leite moça com farinha – sem misturar, naturalmente.

Comi papa de maizena e tomei mingal de sagu. Queimei pão na boca do fogão pra comer com manteiga real e cola Jesus.

Andei de bicicleta pela ladeira do Moropoia – e ralei joelhos, mas escondi de mamãe, pelo temor do Mertiolate que fazia a alma sair do corpo.

Banhei de piscina no Casino, no Lítero e no Jaguarema e vi meus dedos enrugados por ficar muito tempo.

Eu fui criança um dia e fiz tanta coisa que se contasse um ponto que fosse das aventuras seria mais do que um diário, mais do que um conto, porque não haveria ponto final. 

Eu fiz na vida o que pude e o que quiz, porque fui criança feliz – só não quando era obrigado a tomar remédio pra (na verdade era contra) vermes.

Fui criança que não escolhia comida (ainda que preferências existissem) porque comíamos o que tínhamos (e sempre tivemos) mas era obrigatório o pai na cabeceira e a espera até que ele sentar-se à mesa. 

Hoje sou criança mais velha, com sonhos desbotados, desejos amarelados, mas sou criança sem mofo. 

Uma criança diferente que olha nos netos uma espécie de repositório do passado estando presente, mas em compasso de futuro acelerado. 

Ainda sou criança e brinco de identificar relevos, como os que me ensinou a professora de geografia. Antes eu os via nos mapas da escola. Hoje os encontro no dorso das mãos. 

Mas ainda sou criança quando fecho os olhos e me vejo brincando com um trenzinho amarelo ou escutando a estorinha do Soldadinho de Chumbo. 

Hoje ainda sou criança, mesmo que o mundo só queira brincar com coisas sérias. 

Então, se você também se sente assim, quer brincar comigo?

Feliz vida. Feliz Dia da Criança – a que ainda existe em mim, a que espero que haja em você!

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