Ano 13 – vol. 10 – n. 97/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17408319
O Brasil parece ser um país condenado a não dar certo. Não por escassez de riquezas, mas por excesso de ilusões.
Somos aterra onde o drama televisivo consegue nublar a tragédia social, transformando o desespero cotidiano em roteiro de telenovela. A dor real é convertida em espetáculo, e o público, sedado pelo enredo, confunde entretenimento com realidade. O resultado é uma anestesia coletiva: o país assiste a si mesmo ruir, mas continua aplaudindo entre um intervalo e outro.
Essa “novelização da vida” é mais do que um fenômeno cultural — é um projeto político. O espetáculo contínuo serve como entorpecente social, uma distração cuidadosamente mantida para que o senso crítico não se forme e, portanto, não se volte contra as autoridades constituídas. Enquanto a população se perde em discussões banais e dramas fabricados, o Estado se desmancha em corrupção, impunidade e incompetência.
O crime organizado, que há muito deixou de ser apenas uma tragédia, tornou-se parte do próprio enredo nacional. É o espelho da desordem moral que atravessa as instituições. O crime prospera não apenas onde falta polícia, mas onde sobra conivência — e onde a Justiça se torna espetáculo seletivo, ora rígido, ora complacente, conforme o interesse do poder.
Pior ainda é perceber que a imprensa tradicional, antes vigilante, se transformou em personagem coadjuvante dessa tragédia. Pactuada com governos envolvidos em escândalos de corrupção, ela voltou à cena do crime — e conseguiu piorar o que já era dramático. A crítica foi substituída pela cumplicidade; o jornalismo, pela propaganda. Em nome da “narrativa”, calaram-se as vozes que deveriam alertar o país sobre o abismo que se aproxima.
O caso — ou melhor, o caos — se avizinha. O atoleiro em que o Brasil foi lançado exigirá o sacrifício de muitas gerações para ser superado. Mas nenhuma reconstrução será possível enquanto o povo continuar hipnotizado pelas luzes da ficção, enquanto preferir o conforto da novela à dor da realidade. Um país que se acostuma a rir e chorar diante de uma tela, mas não diante de sua própria miséria, não está apenas adormecido — está sendo governado por quem lucra com o seu sono. E isso não é ficção, mas autêntica tragédia.