Ano 13 – vol. 12 – n. 118/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.18096431
Aquele menino de 17 anos beijou o crucifixo de sua mãe, pediu a benção ao pai, abraçou os irmãos e tios e partiu.
É verdade que partir é um modo de deixar pedaços do tempo, marcados para sempre, ainda quando ele não pare. Somos o que fomos com remodelos ou mofos. Depende do que decidimos pelo livre arbítrio diante das circunstâncias.
Abriu-se a cortina do palco misterioso. Cada descoberta, cada erro, cada acert , cada passo tinha a preocupação única de não decepcionar a quem dera a oportunidade singular, rara e única de conquistar o que o sacrifício árduo possibilitava.
As aventuras, os amores, as diversões, as dores, tudo, simplesmente tudo valeram a pena, porque, ainda mesmo sem conhecer o lusitano, a alma nunca foi pequena.
Hoje, aqui sentado, ainda desbravando o mundo, como se a cada nova aventura possível, apresentasse a eles o que não conseguiram visitar além dos livros e revistas, sinto-me um pouco só. Como se tivesse sido parado pela imigração da vida que impõe a autocrítica:
Onde foi que eu errei? Que pecado cometi a ponto de me faltar o perdão?
Não sei. Revolvo papéis, reviro gavetas, só me deparo com imagens estáticas; seus movimentos de um dia estão apenas na memória.
Hoje, após mais de meio século, 52 anos para ser preciso, acordei com a lembrança do mesmo menino de 17 anos que seguiu determinado para conquistar seu sonho, que só foi possível porque teve pais com sabedoria e sensibilidade suficientes para salvar-lhe o caminho, quase tortuoso nos ideais, para abraçar um povo que só lhe deu discernimento e compreensão ainda maiores de que honrar pai e mãe, tanto quanto um mandamento cristão, é essência e razão para a vida.
Ainda quando o retrato me traga as lágrimas de hoje e eu já não os possa abraçar para pedir perdão, posso agradecer por tanto, por tudo e compartilhar a certeza de que os pais nos foram a causa que desejamos ter nos filhos, ainda quando repitamos erros, mesmo quando em busca de acertos, até quando sentimos saudades.
Eis-me aqui, meus pais. Marcado pelo tempo, mas sem o mofo da amargura. Já se vão tantos anos mas a memória me diz que foi ontem. Por isso, nesta data, como se iniciasse aquela jornada rumo ao desconhecido eu lhes peço:
Sua benção, meu pai. Sua benção, minha mãe, para que eu também possa abençoar meus filhos e meus netos. E obrigado por tudo. Sempre.