ESPELHO E ESBOÇO

Ano 09 – vol. 02 – n. 16/2021

A vida não possui esboços. Ainda quando a sabedoria milenar nos ensine que é melhor aprender com os erros de terceiros, ninguém vive a vida por nós, ainda que os pais (aqueles que têm a verdadeira compressão da responsabilidade) tentem, desesperadamente, não assistir ao sofrimento dos seus filhos. Todos (eu disse todos?!) estamos inapelavelmente obrigados a olhar espelhos e traçar esboços.

Bom, talvez minha afirmativa se tornasse absoluta, conquanto o conceito possa ser depurado em debates intermináveis, por estas terras de Cabral a coisa não é bem assim. Ao menos é o que parecem entender alguns seres que se acham acima do bem e do mal, e nos brindem com shows de horrores que tem tornado o Brasil uma verdadeira fábrica de produção de alegorias jurídicas. Já não se vêem mais teses, senão tesões jurídicos que põem na linguagem pseudo-acadêmica um desejo de fornicação incomensurável.

Ponho sob reflexão a constatação de que há um gravíssimo vício em achar que estrangeirismos possam ser adotados como passaportes de trânsito transcontinental. Basta a voz emergir da Alemanha ou da América e a magia se opera, como se fosse suficiente o recurso à solução de demandas.

Eu sei, eu sei. Logo aparecerão os que entendam ser uma visão xenofóbica, como se o pensamento exterior nos fosse pernicioso. Se você é um desses, lamento. Talvez você nem saiba que pediu para ser ignorante e nem se deu conta disso.

Na realidade o mundo tem muito a nos ensinar ou a nos emprestar de conhecimento, mas não existe produção de conhecimento quando os “príncipes da luz” se põem a dizer em modo definitivo o que nem esboço é. É uma imagem de espelho que se reproduz diante de uma figura real e concreta (ou abstrata) de uma gente que não é a gente. Assim, não se pode receber como obra pronta e se aplicar de forma cartesiana no Brasil tudo o que academicamente se produz no exterior.

Quando se trata de Constituição, então, a coisa é mais acentuada. Há a impressão (ou seria certeza?) de que os “príncipes da luz” a têm como um manual de instalação de aparelho eletrônico. Os “in puts” e “out puts” surgem da genialidade de explicar o óbvio, como se fosse necessário dizer que a cocada vem do côco do coqueiro do coqueiral. Ora vejam só. Tenham santa paciência!

Espelho reflete as imagens que a ele se apresentam. Esboços são construções paulatinas, em que borrachas deslizam, o cinza é enfatizado com o dorso das mãos, na tentativa sempre atenta do artista de construir a obra. E é isto o que torna ela única, com sua inspiração, sua singularidade, sua particularidade, com a expressão de identidade. Se o lápis, a tinta ou a borracha vem do estrangeiro, pouco importa, mas há que se ter inspiração, talento e compromisso.

Portanto, aos “príncipes da luz” é preciso que seja lembrado que a obra de arte, com todos os defeitos que possui, expressa uma vontade popular que rompeu com o passado e se tornou objeto de admiração por que comprometida com o futuro. Mas não queiram torna-la expressão do espelho, porque aí será expressão apenas de vossas vontades, jamais o esboço autêntico da arte que é o povo brasileiro. Mais esboço, mais juízo, menos reflexo, menos espelho, mais Constituição!

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