Ano 09 – vol. 03 – n. 26/2021
Aos que já chegaram a ler algum relato de torturas e seus requintes no cárcere compreenderão o que falo.
Afogamentos, introdução de fios elétricos em vaginas, introdução de cassetetes no anus, cadeira do dragão, pau de arara, enforcamentos etc., foram práticas adotadas durante os anos de chumbo no Brasil. Você não sabia? Pois é, está em livros, em depoimentos, em documentos. São fatos que não podem ser esquecidos, embora tenham sido perdoados pela lei da anistia.
Em uma guerra ideológica não há conto de fadas. Você pode até dourar a pílula, como fazem no Brasil, mas o que há é combates quase primitivos, a despeito de convenções de guerra.
Tudo isto gerou dor, sangue em celas fétidas e lágrimas em quem de perto participou ou, de algum modo, terminou sendo envolvido.
Por isso, e por tantas outras coisas, soube, com espanto, da prisão de uma mulher em Santa Catarina que teve a casa invadida, foi presa sob a alegação de que promovia aglomeração.
Pelo que apurei, ela comemorava seu aniversário, eram menos de 20 pessoas e não houve cumprimento de mandado judicial qualquer.
Não me venham os repetidores de mantra tentar justificar violações constitucionais com circunstâncias. O homem é homem (falo do gênero) em sua integralidade de pessoa em todas as circunstâncias. Sua dignidade é fundamento constitucional mas o respeito ao seu valor imaterial não precisa de lei: basta bom senso.
São situações como esta, em que governadores da Federação demonstram desconhecer o seu fundamento de legitimidade. E se me disserem que não são juristas, pior ainda, porque confessam ser justiceiros apenas.
Já não é preciso reafirmar meu compromisso com a vida. Quem não o tiver compreendido jamais compreenderá. Mas estar vivo sem viver momentos como o próprio aniversário relembra a cena de freis que rezaram missa na cela e fizeram comunhão com bolachas, porque o carcereiro proibiu que a Santa Hóstia fosse introduzida no cárcere.
São de vilipêndios assim, a cada dia, que se destrói a democracia com que sonhamos, porque fomos estudantes quase sem voz. São gestos de autoritarismos, de farda ou de toga, que se estimula a contrarreação que não virá, se vier, com flores e cantos, senão de mães e pais a chorarem seus corpos ou de filhos que não conhecerão seus pais.
Até o momento que escrevo não vi das entidades que se autoproclamam defensoras dos direitos qualquer palavra. É apavorante.
Vida, liberdade, paz, são conquistas que custaram muito para chegarmos onde chegamos. Ou nós aprendemos com a dor de terceiros ou estaremos fadados a mais uma vez verter lágrimas de sangue, porque não soubemos guardar a democracia.
“Somos todos iguais, braços dados ou não”. Que não seja um canto fúnebre.
Excelente