Ano 09 – vol. 08 – n. 63/2021
Suponha que você esteja em um museu de arte contemporânea. Por que contemporânea? Bom, porque nos dias de hoje dizer que é contemporâneo ou “pós-alguma coisa” já sinaliza uma certa evolução. Mas sigamos com a hipótese.
Depois de apreciar algumas obras (no seu sentir) de gosto duvidoso, eis que você se depara com uma enorme tela branca. Nenhum desenho. Sequer um mínimo rabisco. Sem qualquer pintura, apenas um quadro branco. Você não se da conta mas está há exatos trinta minutos diante daquela tela alva e tudo o que consegue construir em sua imaginação é uma “imagem sem imagem” é uma expressão de vazio, conclusão que você chega com um generoso esforço. Em silêncio você define:
– O artista expressa o vazio, talvez o silêncio, quem sabe a paz.
Certo de que sua avaliação foi o bastante, eis que surgem ao seu lado duas pessoas. Não as definirei por sexo para que não cause nenhum tipo de discussão num período do Brasil em que misturar esquerda radical, pandemia e Talibã da mais do que uma obra de arte – é a verdadeira tragédia humana. E eis que você é surpreendido pelo diálogo dessas duas pessoas:
– Consegues ver a intensidade desse branco? A expressão pujante do sentimento mais íntimo do artista, exprimindo a conotação pacífica da liberdade em simetria com a dignidade humana aberta? Ele avança sobre um terreno tênue que se desprende das amarras carcomidas! É, por assim dizer, uma disruptura emblemática!
Claro. sua reação seria de arregalar os olhos, voltar para a tela e tentar descobrir onde o crítico – porque para você aí estará o conceito de crítico mais apropriado ao momento – viu no que você só conseguiu enxergar a expressão do vazio. E é quando você, que já concluiu que não tinha visto tudo o que deveria ter visto, se surpreende mais uma vez com a resposta que ouve do segundo interlocutor:
– Não, meu caro. Na realidade eu devo discordar, respeitando sua percepção, mas invocando a liberdade artística. Longe de uma disruptura é apenas a tradução de um estado de vazio espiritual diante da ausência metafórica. Não há pujança, senão uma completa dissociação de cores que revela um sentimento depressivo. Sobre isto imagino que possamos carregar nas tintas em cores vibrantes.
Com os olhos mais arregalados, ainda, você não consegue, simplesmente, identificar nada do que os “especialistas” encontraram num mesmo objeto, no caso, admirado por três pessoas: você, o suposto ignorante em artes e os dois “especialistas” que (deixei de informar propositalmente o leitor) são de duas redações concorrentes, mas que ao final do dia produzirão o mesmo tipo de conclusão.
A ficção, aqui, imita a vida. A tela não é branca como dito. A imagem é a Constituição da República Federativa do Brasil. O branco visto pelos “especialistas”, como elementos da abstração imaginária de cada um, é a invocação do discurso de achar que a obra lhes pertence e que, por isso, e por suas autoproclamadas aptidões artístico-críticas, possam interpreta-la com a expressão retórica que desejarem, como que impondo aos leigos e ao menos “especialistas”, a compreensão de que a galeria de arte não nos pertence e que, por isso, sempre nos sobrará uma vassoura ou uma bandeja de café, afinal, melhor manter a boca fechada.
Não há tela em branco. Somos proprietários dos pincéis. Nós fornecemos as tintas, portanto, não autorizamos nenhum vernissage em que se pretenda subverter a razão para pintar. Se a vida é arte, nós somos os protagonistas, porque somos os elementos da paisagem que da tela deseja o branco da paz, mas não admitimos que “pintem o sete”. A vida é concreta e nela os espaços para os devaneios e abstrações retóricas impõem que artistas façam, com liberdade, manifestações autênticas. Ninguém quer um reprodutor da mesma paisagem seriada. Mas também não se deseja, nos museus, galerias e átrios, que haja um único olhar que não admita cores no arco-íris, ou expressões de alegria, afinal, o cenário não é uma tela em branco pela ausência de cores, mas sim porque sobre as cores usaram pincéis com tinta branca tentando apagar o passado.