Ano 09 – vol. 08 – n. 60/2021
O ressurgimento do que se propôs historicamente a ser um Estado Democrático de Direito sofre a sua pior ameaça na história republicana do Brasil.
Já tive oportunidade de afirmar que a República do Brasil nasceu com a Marselhesa e com a bandeira dos Estados Unidos da América. Isto porque houve um improvisado golpe que causou celeuma entre os próprios insurgentes.
Passados mais de cem anos para que tivéssemos um plebiscito que ratificasse o sistema republicano, houve uma verdadeira guerrilha contra a monarquia, com restrições até de acesso os meios de comunicação e outras mazelas que os livros registram. Basta ver que a antecipação do plebiscito foi feita por emenda constitucional, ainda que houvesse uma disposição constitucional como vedação temporal, para que a Constituição fosse alterada. Um escândalo!
Quando se imaginou que a república ganhasse ares de estabilidade, um certo grupo político, notabilizado por sempre estar em cima do muro, rasga a Constituição e insere a previsão da reeleição. Uma desgraça! Uma traição! Os projetos pessoais, uma vez mais, prevaleceram.
Isto, contudo, não serviu para que tivéssemos uma trégua. Ascende ao poder a outra banda da esquerda e faz do Brasil o maior cenário do incomparável festival de corrupção “nunca antes visto neste país”. As provas estão nas contas pagas até hoje por desordens e promiscuidades que financiaram ditaduras pelo mundo.
Tendo sido vitoriosa a direita nas últimas eleições, sob o discurso de que teria sido vencedor no primeira turno, o atual presidente da república, mas sem que houvesse, naquela época, apresentado qualquer prova, eis que em sua diplomação recebe um exemplar da Constituição, num gesto simbólico que encheu as pautas da imprensa inconformada com a decisão das urnas. A mesma que foi ameaçada de ser regulada. A mesma que se alinha, estranhamente, contra o voto auditável, com uma postura que contraria toda a razão de existir: a informação fiel a fatos.
Vemos, agora, a mais nova das invenções genuinamente brasileira. A discussão sobre o voto com auditagem (e não o voto impresso, como malignamente alguns falaram).
Não. Não usei a palavra errada. É malignamente mesmo. Nem maliciosa nem outra qualquer é a palavra. É malignamente porque só pode ser má a pessoa que deseja seu país em mãos de quem passou a mão em sua bunda, chamou mulher dos piores insultos possíveis, desafiou o seu tribunal de cúpula e ficou por isso mesmo.
Derrotada ontem na Comissão da Câmara de Deputados, houve a denúncia de seus defensores de que magistrados do TSE teriam se reunido com deputados, em flagrante descompasso com as regras mínimas de ética e do Direito. Lastimável. Inaceitável.
Há um sopro de esperança. O de que o presidente da Câmara dos Deputados leve ao plenário da “casa do povo” a matéria, para debates e apreciação. É o que acaba de noticiar a imprensa.
Aos maranhenses, particularmente, seria bom, porque os que para lá foram de cá sequer de cá deveriam ter saído. Da vergonha!
Não escondo de ninguém que defendo o voto auditável, como já expliquei, com aquela urna acoplada e indevassável, em que é depositado um comprovante. Isto é muito? Não, nem financeiramente é, porque até mesmo o fundo eleitoral e partidário é mais caro.
Há mais razões para a defesa do voto auditável. Muitas, todas em nome do Brasil. Não de seu presidente. Não de ministros do TSE que travam embates e chegam a pronunciamentos que nada constroem. Mas porque foi revelado, pelo próprio TSE, que houve invasão do sistema, coisa que era afastada peremptoriamente, mas que, diante do que foi publicamente revelado, logo mudou de abordagem para: mas não causou prejuízo a ninguém.
Desculpem, mas eu tenho que indagar. Invadir um sistema onde se deposita a vontade popular já não é um prejuízo? Afinal, prejuízo é só roubar a nossa casa ou invadir a propriedade privada já não é?
Hoje, mais do que ontem, a necessidade do voto auditável é um fator de legitimidade democrática. Derrotem o atual presidente nas urnas com voto auditável e ele não será nem nota de rodapé na história, mas derrotem-no com um processo eleitoral cercado de maiores segurança. Se ainda não fraudado, mas já sabidamente vulnerável, pois expostos os fatos pelo próprio TSE ao pedir a investigação à polícia federal, embora o episódio dos “logs” lance uma nuvem sobre o assunto.
Não brinquem com o povo brasileiro. Eleições são a forma mais democrática de escolha. Pode não ser ideal, mas até hoje a mais democrática. Por isso, vamos cerca-las das maiores rigidez e garantias preventivas possíveis.
Retomem seus assentos. Assumam seus comandos. Limitem-se às suas atribuições em nome da estabilidade. Não há embate que interesse quando exalado pelo ódio. Basta! Na ditadura ninguém avança, porque os covardes são os primeiros a fugir, os incendiários são as buchas de canhão e o menos favorecidos os que mais sofrem ao final de tudo.
Respeitem o povo e ajam em nome do Brasil, porque o momento é de instituições se consolidarem, não de homens se embaterem. Não precisamos de rostos, precisamos de república.