A GASTRONOMIA CONSTITUCIONAL

Ano 10 – vol. 04 – n. 26/2022

– Garçom, por favor, neste prato pode substituir o arroz de brócolis por arroz com alho?

– Perfeitamente, senhor.

– Qual o ponto da carne?

– Ao ponto.

– Pra mais ou pra menos?

– Pra menos. Gosto de ver a carne sangrando. Ah! Fatiada.

O cenário, de um restaurante qualquer, bem que o cliente poderia pedir lagosta, mas, no caso, o grande banquete só tem um prato. Dependendo da situação a variação é feita pelo apetite do freguês. Depende muito do estado de espírito, do consumo etílico, até do grau de sanidade do freguês.

Algum tempo depois, da cozinha grita o chef – detesta ser chamado de cozinheiro:

– Sai uma carne fatiada ao ponto pra menos para a mesa 18!

Com a destreza de carregar o mundo em uma só das mãos o garçom chega à mesa onde, inevitavelmente a discussão é política, e pergunta:

– Posso servi-lo, senhor?

Agora, de modo um pouco mais sério, com sua voz estridente – os amigos juram que em razão do vinho – responde o jovem senhor engravatado:

– Pode. Mas tome muito cuidado pra não me sujar ou eu recortei ao maître e irei até ao dono do restaurante se preciso for. Você deve saber com quem está falando!

Desconfortável, mas suportando os embaraços que a vida lhe impõe, o garçom só tem tempo de responder:

– Perfeitamente, senhor. Espero que esteja a seu gosto. Com licença.

Esse hábito de modificar pratos, bem próprio de nossa alma brasileira, parece que anda inspirando pessoas famintas que adoram transformar as coisas em conflitos, como se resistissem a permanecer numa espécie de adolescência tardia.

Viver exige compreender que na adversidade da convivência é que surge a esperança de melhorarmos como seres humanos. Errando, aprendendo, corrigindo, melhorando, numa espécie de círculo que percorreremos até que o Criador nos chame.

Acho que um pouco desta singela alegoria, recolhida do cotidiano de um restaurante qualquer, traduz, uma espécie de tratamento empreendido por parlamentares que não conseguem conviver com os embates da democracia. Tudo judicializam, basta que não tenham seus interesses e propósitos, às vezes escusos, alcançados. Esse tipo de gente não sabe (ou sabe e não se importa) com o prejuízo que causa à formação da consciência política das futuras gerações.

Bizarrice, birrentice e burrice não combinam com o cardápio de um político que tenha consciência de sua função institucional.

Assim está o Brasil. Membros do Poder Legislativo judicializando tudo, até as competências exclusivas do Poder que ele (a) mesmo (a) integra, desconfigurando por completo a ideia de freios e contrapesos que há séculos foi concebida e que sendo ultrajada revela apenas o autoritarismo inato do consumidor no restaurante.

Quase esqueci de dizer. No caso, o prato principal, tem o nome de “Constituição em fatias”, preparada na brasa, com ponto escolhido, acompanhado de brócolis cultivado na região amazônica, salada de frutas regionais litorâneas e queijo de Minas.

Penso que seria bem prudente que os pedidos de remodelação de pratos, formas de preparo e uso de ingredientes fossem mais moderados. Vai que o cozinheiro – ops! O Chef – não goste e cuspa no prato?

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