O ENCONTRO ENTRE KAFKA E FULLER

Ano 10 – vol. 08 – n. 52/2022

Ao assistir, ontem, a um editorial do Grupo Bandeiras de Telecomunicações, em face da determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que fez a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra empresários, eu me pus a refletir.

Não que já não o tivesse feito antes. Basta observar que neste site tenho me posicionado claramente contrário ao criativismo judicial desses tempos. É só procurar.

O interesse sobre o tema me fez imaginar o encontro entre estes dois autores, úteis ao Direito, à Literatura e à Filosofia. Foi assim que encontrei em uma praça imaginaria (bem que poderia ser na Praça dos Três Poderes em Brasília) Franz Kafka e Lon Fuller.

Vamos às apresentações aos que não os conhecem.

Nascido em Praga, filho de pais judeus, Franz Kafka é celebrizado nos cursos de Direito (nos que ainda preservam e estimulam a capacidade crítica do estudante) pela obra O Processo. Estudou Direito na Universidade de Praga. Ao término do curso conseguiu o emprego de inspetor de acidentes do trabalho, função que o aborrecia pela dificuldade de compatibilização com sua grande paixão – a literatura.

Lon Luvois Fuller nasceu em Hereford – Texas. Estudou Economia e Direito em Stanford. Foi professor de Teoria do Direito e de Filosofia, na Universidade de Havard, nos Estados Unidos. Considerado um dos filósofos mais prestigiados do século XX. No Brasil sua obra mais difundida é O Caso dos Exploradores de Cavernas e, mais recentemente, O Caso dos Denunciantes Invejosos, na realidade um texto presente na obra A Moral do Direito. É este texto, com tradução do professor Dimitri Dimoulis – de quem tive o privilégio de ter sido aluno no douramento – a que serviu ao diálogo entre os autores.

Em síntese enxuta, o romance O Processo trata do drama vivido pelo personagem chamado Josef K, um bancário que é detido sob acusação que desconhece. A narrativa é angustiante, retratada na aflição pessoal e na ambiência sufocante.

Em O Caso dos Denunciantes Invejosos, o autor propõe uma discussão sobre a natureza e a função do Direito, diante da circunstância que envolve pessoas que denunciam seus desafetos por delitos de pequeno potencial ofensivo e, porque o estado vivia uma ditadura, os denunciados receberam a pena de morte.

Ao ser reimplantado o sistema democrático nesse estado o autor propõe a discussão sobre a responsabilização ou não dos denunciantes. Além do aspecto moral, por óbvio, o direito objetivo e a justiça são objeto do livro.

Onde estaria o diálogo entre os autores? Em que ponto haveria uma convergência de ideias?

Bom, a situação diária a que se assiste pelos meios de comunicação no Brasil da conta de práticas que destoam em tempo, forma e modo de execução. A gravidade é que atos judiciais destituídos de consistência lógica, teleológica e até semântica, tem sido praticados no Brasil à revelia da Constituição da República.

O cenário conta com uma caótico número de providências sem a devida explicação e necessária fundamentação que esclareça aos investigados as razões de investigações protraídas no tempo, em desconformidade com o devido processo legal, a ampla defesa, a presunção de inocência…, obrigando a medidas reiteradas que não conseguem alcançar uma solução própria do que ocorre nos estados de direito.

Nesse ponto Kafka revela a Fuller:

– É disso que eu trato. Como viver em uma sociedade em que as pessoas já não podem expressar suas ideias? Já não emitem suas opiniões? Já não conseguem sequer ser informadas sobre as razões dessas práticas! Observam a cumplicidade silente dos órgãos de defesa dos cidadãos! Permanecem caladas!

Por certo a aflição e angústia reservadas por Kafka a Josef K terão uma pronta resposta de Fuller porque em sua percepção identificará a moral (ou ausência dela) nos denunciantes invejosos. Punir ou não punir os denunciantes?

Pelo menos é o que ele pretende ao invocar as opiniões de cinco deputados para examinarem a denominada justiça de transição. E diz a Kafka:

– Veja o colega que cá onde estamos, se olhares para aquele prédio que abriga agentes políticos encontrarás sem dificuldade os que, com a promiscuidade que envolve as arbitrariedades, se lançam a denunciar pessoas, sem cerimônia e com alardes, estimulando que sejam tratados os denunciados como quem deva merecer os porões das masmorras do antigo regime.

A convergência das obras é clara. Os excessos que destoam de uma nação civilizada, em que a ordem jurídica seja obedecida à risca do previsto no documento constitucional.

Daquela praça em que os autores conversam, surgem o desvalor e o desvaler da Constituição, a norma primária e primordial que sinaliza que os processos têm um rito que deve ser obedecido e que as provas não podem ser obtidas a qualquer custo e sob qualquer meio, compostas pela ação ácida do autoritarismo.

As obras convergem quando identificam um sistema judicial descompromissado dos vínculos objetivos que foram instituídos com base nos diálogos constitutivos e orgânicos do estado que sonhou em ser democrático e de direito.

Às cinco opiniões dos deputados o professor Dimitri Dimoulis adita mais cinco personalidades, professores que debatem as circunstâncias, o tempo, a vigência, a legitimidade, a eficácia etc, ilações alcançadas pela profusão de argumentações possíveis.

O diálogo que poderia bem se prolongar em identificações de tudo o quanto não deve ser feito por quem deve guardar a Constituição bem pode ser adornado pelas palavras de sabedoria do tradutor da obra de Fuller:

“ Qual deve ser o conteúdo deste ato constituinte? Em primeiro lugar, devem ser previstas sanções para todos os colaboradores do antigo regime Os policiais, juízes e demais funcionários que colaboraram com o regime permitindo que suas nefastas ordens fossem executadas estarão sujeitos a penalidades. Punir somente os Denunciantes Invejosos é uma hipocrisia, já que a responsabilidade deles é muito menor do que a dos funcionários públicos que se tornaram obedientes a instrumentos da ditadura.”

É bom que se saiba e seja lembrado. A mais tênue desobediência é descumprir um compromisso. Não é uma promessa, é um compromisso que quando é mitigado, inclusive pela inação de autoridades ou indiferença dos homens e mulheres, transforma-se em um processo com denunciantes, mas sem Direito e muito menos Justiça.

Eu me despeço dos autores com a nítida sensação de que a fidelidade constitucional não nasceu para todos e que, já no século XXI inquéritos e processos continuarão a emergir do autoritarismo.

O SONHO E O PESADELO

Ano 10 – vol. 08 – n. 51/2022

O Brasil não vive o seu melhor momento. E não está assim por atravessar uma pandemia, por presenciar uma guerra ou mesmo por uma inflação que já mergulha muitos estados europeus em recessão. Ao contrário. Aqui vivemos o fenômeno inverso. É a deflação que (eu, pelo menos) assisto pela primeira vez em minha vida.

Passei minha adolescência e até determinado momento sob um regime de governo militar. Era uma época em que tínhamos com reiterada prática o culto aos símbolos nacionais. Andávamos com segurança pelas ruas. Havia respeito ao controle de tráfego, pois o batalhão de trânsito da PMMA era não só respeitado, mas temido pelos infratores.

Talvez o apressado logo diga: Como defender a ditadura? Pois é! Não a defendo, ao contrário desses que gostam de apontar o dedo e acusar os outros do que são capazes. São os mesmos que defendem Fidel, usam camisa de Che, se calam diante da ditadura de Chaves herdada por Maduro (para dizer o mínimo) e são indiferentes à perseguição contra cristãos no continente americano. Reporto-me, sim, a um tempo em que o mundo era diferente. Sem internet, onde as notícias chegavam às vezes tardiamente.

Cheguei à universidade. Lá passamos alguns desconfortos porque nas turmas infiltrados estavam agentes da polícia federal, as ASIS (os braços do SNI nos campi), gente do DOPS, enfim, gente da repressão. Com alguns conseguimos até sentar para cervejas. De outros preferíamos manter distância. Mas uma coisa era comum. Queríamos votar para presidente.

Os protestos, os movimentos, as greves etc., enfim, chegamos à Assembleia Nacional Constituinte. Ufa! A redenção!

É claro que hoje amadurecido e em processo de envelhecimento consegui não apodrecer as ideias. Mas há os que persistem em uma teimosia burra que preferem arriscar retroceder em nome de projetos pessoais, como há os que, integrantes de uma aristocracia nefasta que historicamente sempre atrasou o Brasil, não estão preocupados com o que possa ocorrer. Sempre haverá uma aeronave posta à disposição. Guarulhos e Tom Jobim terão as portas abertas.

Mas há limite para tudo na vida e é preciso que as autoridades comecem a se preocupar com isso. Temo pelos meus filhos e netos. Realmente temo.

Não há mais nenhuma dúvida de que por causa de um homem que tem uma postura diferente do que houve até aqui na história dos governos do Brasil (ninguém é obrigado a concordar) todos paguem. Não é razoável que a aristocracia que não aceita a vontade popular siga a cometer delitos que se multiplicam a ponto de haver completa insegurança entre as pessoas.

Ninguém consegue mais conversar no Brasil sem que olhe à sua volta. As redes sociais passaram a ser arapucas e a inversão de valores foi posta às escâncaras. Criminoso é vítima da sociedade capitalista. Empresário ou cidadão que emita opinião depreciativa sobre autoridades passaram a se equiparar a terroristas.

Minha geração viveu o sonho de que a solução de tudo estaria em uma Constituição. Minha geração apostou forte na crença de que as liberdades jamais seriam alvejadas porque a censura havia acabado. Hoje me deparo com mais uma decisão absurda do poder judiciário. Mais uma de tantas.

Hoje eu acordei e vi que meu sonho virou um pesadelo e ele se chama INSEGURANÇA JURÍDICA.

Primeiro foi o ativismo, depois o criativismo. Passamos à juristocracia e, agora, beiramos a subversão constitucional.

Não desejo desacreditar no Poder Judiciário porque é uma instituição que integra as decisões políticas fundamentais declaradas pela Assembleia Nacional Constituinte – art. 2º da CRFB. E você não precisa ser jurista para compreender que o que ali está escrito obedece a uma dinâmica de instituição, organização e funcionamento dos Poderes. Legislativo, Executivo e Judiciário.

Os homens que assinaram uma carta autoproclamada de “democrática” são os mesmos que, hoje, estão em grupos de redes sociais possivelmente vibrando por decisões judiciais teratologicas. Nem os considero juristas e muito menos democráticos. Ou você tem compromisso com o Direito e com a democracia de forma científica e impessoal ou você está do lado do opressor.

Acordei e constatei. Vivemos um pesadelo. Minha geração acreditou que bastava votar para presidente. Quanta ingenuidade!

O INTELECTUAL, O OPERÁRIO E O MILITAR

Ano 10 – vol. 08 – n. 50/2022

Não há quem não saiba que a Constituição é o documento político mais importante de um Estado. Não precisa ser jurista. Basta ser cidadão consciente, mesmo com o mínimo de instrução. Aliás, hoje em dia, são os juristas que não estão entendendo (por não querer ou saber) o real significado desse documento.

Eu poderia elencar um número significativo de (chamemos assim) impropriedades, desvios por atalhos que vão mitigando a força da Constituição, sem que os que a devem obedecer o façam. O resultado disso é previsível, embora (desejo) não factível.

Constituição não é norma de etiqueta. Ela não foi feita para uns poucos e muito menos só para a maioria. Ela é decisão de teses majoritárias, mas não é unanimidade. E é exatamente por isso que os homens não se podem por acima dela, porque estariam tornando ilegítimas as suas investiduras nos cargos que ocupam.

Saber o que é a Constituição, mas não imprimir eficácia a suas previsões, é o mesmo que enrolar o peixe no jornal do dia seguinte, nas antigas feiras. Ou se cumpre a Constituição ou desaparece sua utilidade, sendo, então, uma indagação acadêmica: As Constituições morreram?

Thomas Jefferson defendia que cada geração deveria escrever a sua Constituição, assim os homens não seriam governados por mortos. Mas James Madison (ungido a pai da Constituição Americana), ao contrário, insistiu em que uma estrutura democrática dependia de leis básicas estáveis, o que (digo eu) só o tempo é capaz de produzir.

Na realidade a Constituição tem sido examinada sob diversos ângulos, mas se lhe faltar o sentimento necessário para a compreensão da natureza compromissória que ela deve ter, de pouco valerão as ideias forjadas pelo constitucionalismo americano.

A discussão acadêmica atravessa séculos. Em breves linhas informo ao leitor que usualmente a Constituição é vista em sentido jurídico, em sentido político, em sentido sociológico e vários outros. É precisamente nesta última dimensão (sociológica) que busco a razão deste escrito.

A Constituição em sentido sociológico é obra de Ferdinad Lassalle (1825-1863) – descabe no momento as circunstâncias – que identificou nela a reunião das forças vivas da sociedade que ele denomina de “fatores reais de poder” – a Constituição real e efetiva – somada a sua expressão formal, o documento escrito.

E é nas forças vivas que se encontram todas as instituições que traduzem seus propósitos em um documento. Quanto mais a Constituição reúne força de aplicação por compromisso de respeito, mais sua efetivação ocorrerá, o que, juridicamente, os estudiosos chamam de eficácia.

É exatamente dessa perspectiva que retiro o título deste breve ensaio porque nele estão três das instituições que já estiveram no comando de um dos Poderes da República Federativa do Brasil.

Já tivemos o intelectual que, como iniciativa antidemocrática e antirrepublicana, logo inseriu por emenda à Constituição a reeleição. Imprimiu com isso o presidencialismo de coalização, que se traduz em uma “corrupção admitida”, porque busca na troca de cargos e vantagens assegurar a governabilidade. O presidencialismo do Brasil é um sistema refém do Congresso Nacional. Isto necessita ser objeto de uma mudança.

Posteriormente, e sob o teatro hoje descoberto, chega ao poder o operário que seria adversário do intelectual. A história se encarregou de desmenti-los. Uns, inclusive, querem retornar à cena do crime que denunciaram.

O operariado foi capaz de produzir a maior corrupção já vista na história do mundo, subtraindo do povo brasileiro bens e serviços que teriam, senão debelado, reduzido substancialmente o estado de vulnerabilidade de muitos. O operário optou por financiar ditaduras porque a sanha de instituir uma união de governos socialistas na América Latina é um sonho que não foi alcançado pela guerrilha. Nessa mesma conta há de se registrar, e ao mesmo grupo do operário, o governo que saudava a mandioca. Apenas deu continuidade à corrupção reconhecida judicialmente em várias instâncias e por vários magistrados, mas que o próprio guardião da Constituição se encarregou de destroçar o seu objeto de proteção. Uma lástima. O Direito foi transformado em tópicos hermenêuticos voláteis, com a consistência da conveniência.

Finalmente chega ao poder, pela via de eleições diretas, um militar de formação. E é quando começa um cenário surreal.

A mídia, acostumada às facilidades de uso de recursos públicos, logo se pôs a construir discursos que atrapalhavam qualquer ação de governo. Partidarizou-se sem cerimônia, como quem ia à festa sem calcinha. Os órgãos de defesa dos direitos humanos passaram a selecionar direitos, desconfigurando a visão institucional que motivam suas razões de existir. Democratas e isentos resolveram defender a democracia, como se a inteligência do bacharelado fosse a fonte mais cristalina de razão. Uma vez mais a verdade se revela.

Em período tumultuado da história, isso ninguém pode negar, nos deparamos com mais um desvio de curso do Poder Judiciário do Brasil. O vilipêndio de direitos constitucionais e legais de pessoas comuns é tão visível e claro que os manuais propedêuticos ensinam desde os primeiros anos de faculdade.

Não há quem, em defesa da ordem jurídica, possa sustentar o que ocorre atualmente no Brasil. Multiplicam-se as obras que tratam do assunto e muitas outras surgirão, se não houver um posicionamento institucional em defesa da Constituição da República Federativa do Brasil.

Há muito que os desvios legais têm sido cometidos. A história revelará um dia, se não a nós, mas às gerações futuras, que se envergonharão da covardia dos que, ao invés de defenderem o “Documento Fundamental”, se abraçam com exotismos pronominais que não produzem nenhuma contribuição à sociedade. O que a história, entretanto, não perdoará, é aos traidores que tripudiam a Constituição da República que juraram cumprir, vontade da maioria, decisão soberana da Assembleia Nacional Constituinte, como se fosse uma norma ordinária qualquer, o que já seria uma violação.

A despeito de tudo o prejuízo que se observa não é de um presidente militar, como seus erros e acertos como qualquer pessoa. Não é um homem, em condições normais, que causa o dano maior. É a insegurança jurídica causada por decisões que desobedecem às regras do jogo. Reflete na vida de cada um, inclusive nos investimentos internacionais.

O Senado da República, apático e refém, nada faz, sinalizando que precisa ser repensado em sua composição. Custa caro, é ineficiente e, às vezes, covarde.

Quando um dos Poderes da República não respeita a Constituição ela tem a solução. Jamais pode se falar de golpe, isto nunca será solução. Não há Constituição no mundo que preveja uma coisas dessas, porque seria contraditório. Basta o seu cumprimento, porque não pode haver homens sobre as normas, ungindo-se de soberano e subjugando seu povo.

O que diz a Constituição é que Ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Ela não diz que o homem é escravo do homem.

Como o intelectual e o operário o militar foi eleito. É preciso compreender de uma vez por todas isso. A menos que minha compreensão sobre democracia esteja errada ou, quem sabe, errados estejam os livros em que estudei, inclusive, naqueles que foram escritos pelos que hoje não se comportam como a Constituição determina.

Muita calma nessa hora.

DEBI E LOIDE

Ano 10 – vol. 08 – n. 49/2022

Eu não gosto de assistir entrevistas em períodos eleitorais. Normalmente fujo, seja pelo contunmaz cinismo do político brasileiro, seja pela veia estúpida de muitos dos jornalistas do Brasil. Eu sei, eu sei, tenho amigos jornalistas, mas dentre eles os imbecis talvez sejam apenas conhecidos, não amigos. Ainda assim, dos mesmos, nunca assiti a uma cena de dimensão tão deprimimente quanto à que assisti (certamente com milhares de espectadores) ontem pelo noticiário que tem o nome de Jornal Nacional. Hoje apenas um panfleto da mídia. Explico.

O que deveria ser uma entrevista com um dos candidatos a presidente, no caso o atual Presidente da Repúblcia, não passou de uma espécie de tribunal de exceção de deixar qualquer torturador do DOI-CODI no chinelo. Faltou apenas ligar os fios na “cadeira do dragão”.

Do ambiente que envolve a acomodação, a iluminação, o tratamento, a descortesia e a arrtogância, tudo, simplemente tudo, me lembrou os interrogatórios narrados na literatura dos anos de chumbo. O que é mais grave? Bom, tudo feito por uma concessionária de um canal de televisão.

O que poderia ser uma grande oportunidade para escutar projetos e propostas para o país virou um festival de acusações com interrupções grosseiras quando se viam acuados. O “tio” Bonner mereceu a invertida: “Você está me forçando a ser ditador”. Quando tentou dizer que não já era tarde, o caldo tinha sido derramado. Mas houve pior. Ao falar da intereferência do entrevistado, a quem ele não chamava de presidente, na Polícia Federal, deu a informação de que a Associação da PF havia emitido uma nota de insatisfação, no que recebeu como resposta o óbvio, de que o entrevistado não ineterferia, tanto que o próprio “tio” apresentou a informação.

A jornalista, por sua vez, cerrava os dentes com uma espécie de contenção de ódio que poderia muito bem lembrar a peçonha. Como sou educado não compararei. Mas não posso negar que, a despeito de demosntrar um nervosismo sem disfarces, conseguiu reescrever o que disse ao vivo: “Fique em casam, se puder”. Foi imediatamente desmentida. Logo as redes sociais reproduziram, às escâncaras, todas as campanhas lideradas pela emissora.

Como se não bastasse o entrevistado levou escritos em uma das mãos palavras que queria ver veiculadas e parece que teve sucesso, pois uma das apoiadoras do principal adversário do entrevistado, a moça que tem uma tatuagem no “bororró cinzento”, se encarregou de divulgar o assunto, talvez lembrando de sua época de escola. Resultado? Bom, apagou a publicação, mas aí já era tarde. Mas dela não se pode esperar muito.

O resultado do debate – não posso chamar aquilo de entrevista – na prática foi que se viu um jornalista arrogante e mal educado, com poucos princípios éticos, cumprir ordem de patrões que, queiram ou não, estão demonstrando que sentem falta do aconchego do dinheiro público financiando empreeendimentos particulares. Também se viu uma jornalista exalando ódio, presa a frases prolatadas pela mídia, algumas gestadas na prórpia emissora, completamente desorientada diante de uma pessoa que demonstrou a calma que os debatedores não conseguiram aplacar. Só não vi a acusação de misogenia, homofobia e genocídio.

O Brasil perdeu muito. A emissora perdeu tudo, pois o que poderia ter de credibilidade foi lançado na esgotosfera. Descumpriu seu papel, ultrajou o povo brasileiro, deu a chance clara de que, de forma indiscutível, o dedo em riste não é o melhor companheiro de ninguém. Penso que o entrevistado foi transformado em vítima naquele instante, demonstrando mais habilidade do que os interrogadores do DOI-CODI, ou melhor, da Globo.

Se o caro leitor acha exagerada a comparação com as inquirições do DOI-CODI talvez prefira dar razão ao título deste escrito. É que o que me veio à memória foi a síntese do filme (chato, aliás), que transcrevo:

“Lloyd Christmas (Jim Carrey) e Harry Dunne (Jeff Daniels) são dois homens extremamente estúpidos. Quando Lloyd leva até o aeroporto Mary Swanson (Lauren Holly), uma bela mulher que vai para Aspen, Colorado, acredita que Mary perdeu uma mala. Na verdade ela “esqueceu” no saguão, pois dentro dela está uma grande soma para pagar o resgate do marido, mas antes que os seqüestradores peguem a valise Lloyd a recupera e tenta lhe entregar. Como o vôo já partiu e ele se sente atraído por Mary, convence Harry para irem até Aspen para devolver o dinheiro. Na viagem se envolvem em várias confusões, além de serem perseguidos pelos seqüestradores.”(Consulta feita no site https://www.adorocinema.com/filmes/filme-12685/, em 23.08.2022.

Debi e Lóide é o filme, mas bem poderia ser o que se assistiu ontem.

Foi triste. Foi patético. Foi grosseiro. Foi tudo, menos jornalismo.

Plim, plim! Fim.

O CORAÇÃO E O ESPECIALISTA

Ano 10 – vol. 08 – n. 48/2022

Sim, li hoje em um site do Maranhão, reproduzindo uma notícia de repercussão nacional, que um “especialista em Brasil Império” não concorda com a vinda do coração de D Pedro I ao Brasil. Dentre as razões alegadas por considerar o fato um retrocesso.

A vinda faz parte da comemoração do bicentenário da Independência.

Não discuto o direito de discordância, desde que eu também possa discordar. Ainda mais quando o especialista é autoridade premiada como destaca a notícia. Mas fato é fato.

Um coração que bateu por tantos (e por tantas ao se ler sobre o fulgor do Imperador) causa, ao que parece, um descompasso no coração de alguém.

Mesmo abdicando do trono e retornando a Portugal, onde se tornou Pedro IV, está irremediavelmente associado a nossa história. Não há borracha que apague e nem “impulsionador do novo Iluminismo” que “desconstrua” – para usar uma palavra que não me agrada – o fato histórico.

Ora vejam só. O coração que é uma relíquia vira um “retrocesso”. O que seria avanço? Trazer as mãos de Che Guevara? O pó do ditador Fidel? Já não falo nem do cérebro de um certo educador do Brasil, pois este conseguiu estar putrefato em vida.

Os restos mortais de Goulart, o presidente, vieram a Brasília durante o governo que celebrou a mandioca e passeou em pedaladas fiscais. O caixão permaneceu fechado. Do mesmo modo ninguém viu o conteúdo, a despeito do argumento do especialista. Mas nada disso incomodou e nem foi retrocesso.

Pois é. Os especialistas de hoje querem, a todo custo, mergulhar nos propósitos dos séculos XIX e XX e tentar imprimir à força um estória que não conseguirá ser história enquanto as pessoas puderem falar sobre um fato, não sobre versões. Não adianta pretender ressignificar. Aqui é Brasil, não é Frankfurt.

Que venha o coração. Que seja celebrada a data. Que sejam revigorados os símbolos e que permaneça entre nós a noção de pertencimento que nos fez, depois, independentes.

Neste caso o coração não é símbolo nacional. Estes estão previstos no artigo 13 da Constituição da República. Mas o simbolismo da relíquia a todos faz reforçar lembranças. Se cá já está o ataúde com os ossos, por que não o simbólico périplo da relíquia?

A objeção de que Sua Majestade tenha como pedido antes da morte que o seu coração permanecesse no Porto nada obsta a viagem carregada de simbolismo histórico.

Não somos apátridas. Somos brasileiros, quase nacionais em Portugal, e por isso, também, devemos comemorar com todos os símbolos, relíquias e objetos que possam rememorar como nasceu uma nação.

Há corações mortos porque não batem mais, como também os há batendo em descompasso. Celebremos, pois, com os nossos, porque cá ficamos e cá estamos.

Viva o Brasil! Viva Portugal!