Ano 10 – vol. 11 – n. 79/2022
Ninguém pode questionar. Fica afastada qualquer manifestação que não venha da autoridade.
Foi assim que se estabeleceu o discurso hegemônico do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha. Sim, o partido nazista tem em sua origem o trabalhismo.
Os que desejam transformar um condenado em inocente, sem exibir sentença absolutória, com as estultices do infante inconsequente, jamais admitirão. Felizmente a história não deixa esboços nas gavetas.
No Brasil de hoje a fratura social envolve partidos políticos, imprensa, instituições do estado, academias, igrejas, quase todos com um discurso hegemônico que se traduz na sabedoria: quem não está conosco está contra nós, portanto, é nosso inimigo.
Ora, esse tipo de gente jamais se comprometeu com a Constituição da República. Nem assinando e nem jurando cumpri-la. Basta verificar que todos os meios legislativos foram boicotados. Lei de combate à corrupção, lei de responsabilidade fiscal, leis orçamentárias, leis de limitação de despesas públicas, lei da ficha limpa. São apenas alguns dos exemplos.
Pois bem, virou intolerável prática querer controlar a fala como se só fosse permitido uma democracia que comporte a hegemonia de um discurso, precisamente o discurso oficial, aquele que não contrarie o opressor.
Vimos isto em todas as ditaduras socialistas que se autoproclamavam democráticas.
O que sobrou de nossa Constituição ainda prevê que o pluralismo político é um fundamento constitucional. Assim sendo, qualquer discurso é possível em uma sociedade que se vincule ao que sua “norma base” estabeleça.
Nem as redações, nem o judiciário, nem o legislativo, nem as forças militares, absolutamente ninguém tem o direito de querer estabelecer um discurso como antidemocrático simplesmente porque contrarie o discurso de quem pretenda ver o seu imposto. A menos que altere a Constituição e suprima o art 1º, inciso V.
Falem o que quiserem, peçam o que quiserem, reclamem do que quiserem. Essas são atitudes normais e possíveis em uma sociedade democrática e plural. Entender o contrário é, isto sim, antidemocrático, uma intolerância que pode se transformar em discurso de ódio.
Elaborar articuladamente e com armas qualquer movimento contra instituições, por outra via, isto sim configura um potencial crime em arquitetura.
Discordar é direito tanto quanto concordar em defender ladrões, fascínoras, autoritários etc. Ninguém é obrigado. É uma opção por identidade entre o defensor e o defendido. É mais uma questão ética do que política.
O discurso único conduziu muitas pessoas aos fornos, aos gulags, às valas comuns, ao mar, à forca, ao paredão de fuzilamento, enfim, a locais até sequer sabidos.
Claro que não se pode mais esperar que essa gente que escreve sobre o que nunca leu ainda tenha recuperação. Aprenderam a sublimar a ignorância e a fechar os olhos para os “crimes do bem”, uma espécie de “nosso ladroes são mais honestos do que os deles”.
Não creio que essa gente saiba, mas quando se fala que alguns discursos são antidemocráticos é uma forma de inaugurar um cenário que amanhã poderá dizer que o corte de cabelo fora de padrões é antidemocrático, certos bens são antidemocráticos, a propriedade privada é antidemocrática, o sucesso individual pelo trabalho é antidemocrático e por aí segue, a caminho de um forno que vai eliminando os homens aos poucos sem que se ouça o grito.
Exemplos a humanidade tem. Muitos. São todos eles a prova de que antidemocrático é calar o homem impondo-lhe a hegemonia de um discurso que verdadeiramente é o maior genocídio da humanidade: Cala a boca!, não amola, Mané!, são apenas a sinalização autoritária explícita do que é pretendido impor a toda uma nação.
Vozes podem até ser caladas, consciências jamais, porque a liberdade é inegociável e nos dá vida.