Ano 10 – n. 74/2022 – https://doi.org/10.5281/zenodo.10008208
O Brasil ainda não saiu dos debates políticos da Velha República. Sim, em que pese estejamos em pleno século XXI há uma nefasta, relutante e tosca visão autoritária neste país que insiste em permanecer no passado. Não pela vontade do seu povo.
Não se culpem os velhos, ou idosos, como eu. O idealismo é coisa de alma, não de pele. Há pessoas de todas as etnias, raças e cores (seja lá como se prefira denominar) que tem almas de escravo, do mesmo modo como há os que fingem falar sobre democracia mas, no fundo, preservam e cultivam a nódoa do senhor autoritário e arrogante.
Houve um tempo neste país (mesmo que hoje relutem em reconhecer e queiram escrever por linhas tortas o que é indelével na história) em que movimentos sociais constituídos formalmente ou não e instituições como OAB, Igreja, jornais e rádios e ABI não apenas lutaram, como se alinharam às forças militares para evitar que o Brasil não mergulhasse nas águas turvas de regimes autoritários. A mesma história demonstrou que foi a alternativa mais adequada ao Brasil naquela oportunidade. Ou se mergulhava no autoritarismo de esquerda ou de direita. Não havia (como não há hoje) outra alternativa.
Muitos se opõem a esta constatação, contudo, nesta oportunidade, a história se repete, por desinibida, pública e inegáveis confissões veicularas na mídia. Esta, coitada, quando não trôpega por infantes ignorantes ou atordoados delirantes, difunde uma causa com a impressão de que serão respeitados. Não passam de engrenagem de descarte e fácil reposição.
O que dizer de quem afirma que vai interferir na propriedade privada? E na tributação da herança? Na reformulação da organização, formação e função institucional militar? Nas empresas estatais que dão lucro e que eram sinônimo de empreguismo e prejuízos vultosos? De assistencialismos que mantenham famintos em dependência eterna? E o silêncio sobre censura desnuda?
A resposta é simples. Essa gente não assinou a Constituição da República na redemocratização do país. Essa gente não se sente obrigada a qualquer limite, tanto que um dos porta-vozes afirmou que ganhar eleição e tomar o poder são coisas diferente. Houve até quem dissesse que eleição se toma.
Os fatos estão aí. Uns revelados, outros omitidos e alguns até suprimidos, mas são evidências claras do que fora anunciado com antecedência.
O que pretendem hoje é o mesmo que há quase sessenta anos. Insistem (e vivamente anunciam) em instituir todo o cenário tenebroso que as Forças Armadas impediram que acontecesse.
Onde está o Legislativo? Naquela época foi determinante para depor um presidente. E hoje? Calado, deixando descer pelo ralo todas as garantias constitucionais dos cidadãos e até as próprias prerrogativas. Acham que sempre sentarão à mesa dos banquetes dos revolucionários? Não se enganem, a omissão não perdoa e a bajulação é descartável.
Onde estão as instituições que se dizem defensoras da democracia? Silentes, cúmplices e, em alguns casos, corrompidas, carcomidas pela ideologia nefasta. Onde está o Judiciário? Escrevendo, diariamente, sem legitimidade democrática qualquer, Constituições que seguem obediência a regimentos e resoluções.
Institucionalmente, gostem ou não, o Brasil está em direção a um abismo do qual jamais sairá pelas vias democráticas.
Não confundam. Não se trata de propagar juízos temerários sobre violência, mas é a constatação empírica do que assistimos no século XX nesse embate entre esquerda e direita no mundo.
A oportunidade passou e os homens investidos dos poderes republicanos deslustraram a própria base institutiva e orgânica do poder – a Constituição, aquela que juraram cumprir.
O povo está nas ruas, sem defesa e sob ameaça, sob censura e sob hostilizações até dos que deveriam estar na sua defesa, para que amanhã tenham voz própria.
Fique claro. Quando as Forças Armadas emitem um juízo de valor sobre algum assunto sempre o fazem tendo uma base fundamental esclarecida. No caso, o patriotismo constitucional tradutor de que Constituição não é norma de etiqueta, que pode ser afastada em nome de conveniências circunstanciais. Por isso, há uma firme crença de que o momento histórico que vivemos é uma prova clara (e confessada) de que as instituições jamais serão resgataras do plano em que colocadas sem transparência. É um direito de todos, é um dever das autoridades constituídas, é uma condição de expressão republicana.
Calar a boca de um povo não é a melhor alternativa para uma solução que tenha firmes propósitos democráticos. O mundo já provou isso e escolhas devem ser feitas.
Que o Brasil tenha a capacidade de retomar seu rumo sem retroceder na historia, em direção aos guetos e esgotos. Mas para que isso aconteça não deve prevalecer impunidades e versões que falseiem a vontade geral visível e inegável.
Um país, dizia Monteiro Lobato, se constrói com homens e livros, mas também é indispensável que os que saibam ler tenham a boa-fé, a honestidade e a responsabilidade de traduzir a vontade constitucional expressa.
A liberdade de pensamento e expressão da palavra, desde que exercida de modo pacífico, deve ser assegurada, porque é um direito natural e constitucional fundamental. Os que não podem respeitar as liberdades públicas são descartáveis. Os que se dispõem a estar ao lado do povo brasileiro são os essenciais.