A LEI DOS HOMENS E OS HOMENS DA LEI

Ano 11 – vol. 05 – n. 22/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.8332539

Sobreviver no Brasil passou a ser caminhar sobre o fio da navalha. Duvidam? Pois faça o leitor um exercido de memória. 

Na Academia, onde reside meu cotidiano, já conto como de difícil recuperação a lucidez. Tudo, e por todos os lados, transparece como militância. Uma simples manifestação em grupos de whastapp ou emails, há a nem sempre sutil expressão da militância. Felizmente resta a possibilidade do professor que tenha compromisso com o saber excluir da sua bibliografia alguns autores que não passam de vendedores de ilusões que, quando postos à prova revelam, sem cerimônia, a índole autoritária do infante incivilizado. Já mudei de prateleira alguns deles. Logo as obras servirão de calço para a estante. 

Não há como fechar os olhos ao que vem ocorrendo no Brasil da restauração da censura. Sim, disciplinar o que pode ou não ser dito é censura, porque o Estado não deve meter o nariz onde mentira e verdade nunca foram (e espera-se que já mais sejam) tipos penais. Diferente é como dizer o que deseja ser dito. Para isso existem leis que merecem aperfeiçoamento, mas é enganoso afirmar que é necessário disciplinar o que já contém instrumentos. Basta aplica-los com observância ao devido processo legal.

Na sanha (outro vocábulo não cabe) de impor um projeto de poder a qualquer custo, a ética foi atropelada pelos satélites das redes sociais, para invocar dramas sofridos por famílias, em nome de defesa de crianças. É um insulto a quem tenha o mínimo senso crítico. Não demanda esforços. 

Assisti – ninguém me relatou – a autoridades fazendo ameaças contra as pessoas que defendam pontos de vista. Li sobre outras, desejando extinguir big techs, que até há pouco tempo, porque lhes era confortável, prestavam um serviço de informação e por isso era desproporcional pretender retirar veiculações, ainda quando falaciosa (porque desmentidas depois) feitas contra adversários políticos. 

Este é o caos em que alguns políticos e juristas enfiaram o Brasil. Fomos todos alertados, é bem verdade. 

Mas há que se observar que uma coisa é a defesa de visões e teses. Outra, completamente diferente, é esse comportamento adolescente na retórica e inconsequente na prática. 

Democracia é um exercício constante de pretensões contrárias. As vezes nem tão ambíguas, mas na civilização, qualquer que seja a direção, ou caminha com a lei ou se gera a instabilidade completa que flerta com a convulsão. 

Essa gente, que parece ainda não ter se criado na vida, lembra o infante mal criado. Ou o adolescente por compulsão que insiste em brigar com a natureza do tempo desejando prolongar o que já é descabido. Ou é do jeito dele ou as coisas não acontecem e a birra surge como forma de manifestação. Cuidado. A vida, ainda quando seja indefinida no tempo, pode ser uma vasilha em que se põe água. Com o excesso transborda. 

De tanto violarem a lei põe-na sob o jugo do calcanhar, como se os homens estivessem acima dela. Disto viemos e para isso não podemos retornar. 

Nossa dimensão de estado hoje é meramente formal. A realidade nos comprova isso pelo que assistimos diariamente vindo da Praça dos Três Poderes. Não há hoje no Brasil senão poderes imoderados. Isto não pode dar certo. 

Digo sempre que até a condenação de Jesus Cristo foi precedida de uma fundamentação formal – a sentença está na cruz e Pilatos não a modificou ao afirmar aos sacerdotes que o que estava escrito assim permaneceria. 

Seria bom que os homens recuperassem (ou aprendessem a usar) o bom senso, porque quando a lei está sob o calcanhar a serpente que rasteja também pode lançar o bote inesperado. 

É preciso que os homens da lei saibam bem discernir impulsos de desejos. Verdades de mentiras. Lei e ordem de arranjos e autoritarismos.   Assim, todos sobrevivem. Caso contrário, lei será apenas um verbete nos dicionários.