Ano 11 – vol. 05 – n. 27/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.8322328
O Brasil vive um dos mais graves momentos de sua história republicana. Disso diariamente dão conta as redes sociais, espaço que, apesar de se constituir em um tumultuado cenário, é a alternativa que possui um contingente de gente ainda não seduzida pela nefasta corrupção que cala a boca. Ainda assim, mesmo nela, há propagadores de versões do que um dia foi chamado de “pós-verdade”e se transformou em “falenews”, uma espécie de fofoca eletrônica.
A imprensa tradicional deixou de ocupar o espaço que historicamente lhe coube, uma vez que optou por escolher um lado, subjugando os fatos a versões cuja extensão e duração são, quase simultaneamente, desmentidas pela rede social. É este suspiro da liberdade que o atual governo, sob desequilibradas ameaças contra os cidadãos, deseja suprimir.
Já não há mais respeito à Constituição. O próprio tribunal que lhe deveria guardar com fidelidade, obediência, subserviência e comprometimento, a transformou em Geni, a do Buarqque de Holanda. Serve para dormir, mas depois jogam “bosta na Geni”. É grave, muito grave, porque o mundo civilizado ou se conduz pela lei que superou o autoritarismo absoluto, ou se transformará em bordel totalitário (com todo o respeito à função do bordel).
Regras constitucionais, as que preveem competências, são decisões políticas fundamentais. Elas, tecnicamente, nasceram em 5 de outubro de 1988 e, só por isso, sequer estão sujeitas ao mecanismo de controle de constitucionalidade. Valem pelo que expressam, contém e contemplam o que foi dito pela Assembleia Nacional Constituinte que, como seus defeitos e vícios, também, teve muitas virtudes.
Não existe, constitucionalmente, espaço para o STF falar em discussão sobre mérito de perdão constitucional (em sentido amplo o termo é aqui utilizado) quando o texto fala em competência privativa. O papel desse tribunal não é investigar mérito de atos administrativos e políticos, senão quando estes desbordem do próprio texto constitucional.
Não se pode admitir que a democracia conquistada às duras penas neste país possa ser ultrajada por questiúnculas que tornam impunes quem outrora, comprovadamente, mergulhou na lama da corrupção. É inaceitável para um país da importância do Brasil.
Todo esse cenário vingativo, já não mais escondido por membros do atual governo, demonstra, a quem quiser enxergar, que o país vive essa tragédia criada por suas próprias instituições. Nesse patamar, em destaque, está o STF, cuja postura perante situações formalmente julgadas passou a ser vacilante, em tal extensão que não se sabe, até hoje, o que o fez mudar a direção.
Suponha, caro leitor, entregar o manche de um teco-teco a uma pessoa sem predicados e o resultado será a tragédia. Imagine fazer-se o mesmo com um profissional habilitado, mas sob efeitos etílicos, o risco da tragédia não se dissipa, simplesmente porque é preciso, além da qualificação, o compromisso e comprometimento com as vidas humanas.
O Brasil está à deriva, porque a balança hoje só pesa o direito da força; já não há sopesamento, nem argumento, nem sustentação oral, nem atenção, nem diligência, nem compromisso, nem responsabilidade. Primeiro há a identificação da pessoa, depois imputa-se-lhe o crime. Coisa de totalitarismo.
O decisionismo invadiu nossa praia sem salvavidas, nadando em rápidas braçadas, amarrando um peso nos calcanhares dos adversários. Salve-se quem puder, ou, no caso, os que o árbitro deixar.
E a coisa pode piorar. No compasso em que anda a inteligência artificial (um recurso que deveria ser destinado a facilitar agilizando tarefas) logo será o “sentenciador da linguagem binária” – a computacional. O enter pode se transformar na fase de excução mais “desinteligente” que a humanidade poderá assitir.
Haverá solução? Bom, a resposta está nas mãos das autoridades constituídas. E quando as autoridades se põem acima das instituições só há uma saída democrática admitida: substituir-se os homens ou se retrocederá pelo menos sessenta anos na história.
O Congresso Nacional tem o poder e competência. Nele está a solução. Fora de lá só o direito da força, mas nós conhecemos essa via. Ela é dolorosa e impiedosa.
Apenas pensem, senhores deputados e senadores. Há bobos da corte querendo por fogo no circo para alegrar o rei. A responsabilidade é dos senhores e senhoras. A nós, a conta.