O ESPETÁCULO DO MEDO

Ano 12 – Vol. 05 – N. 25/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.13351211

Qual será o destino de nós viajantes nessa arca à deriva?

Bom, pelo visto, será uma espécie de degredo intelectual, já que somos párias perante a humanidade. E por que degredados? Bom, os que dispõem de senso crítico e consciência de cidadania cada vez são mais raros. Quando acordarem terá sido tarde demais.

Só párias podem explicar ao mundo como celebrar, com o financiamento púbico, o escárnio à civilização em pleno instante em que a tragédia se abate sobre o sul do Brasil.

O revelador é como os assuntos foram tratados pela líder das televisões, com a sinalização de que o que importa é o menos importante, porque se o sambódromo fosse alagado, aí sim, importaria. Melhor mesmo era celebrar a caricatura do risível e démodé, uma espécie de aberração turbinada a pó.

Na tragédia rotulada de show estava a turma que diz “mexeu com uma mexeu com todas”, junto com a turma que queria salvar as girafas da Amazonia – a mesma que indica o Amazonas num mapa que não o do Brasil -, além dos que antes sem importavam com os Yanomames. Resumindo: a turma que adora lacrar.

Essa viagem na qual o Brasil embarcou é claramente subvertida. O errado está certo, o escondido virou segredo, o criminoso é mais importante do que a vítima, e condição de elegibilidade e ficha criminal são discussões não tão incompatíveis. Enfim, que se lasque o cidadão.

Se o espetáculo acabou o show de horrores não. Continua com as atrocidades cometidas pela televisão, particularmente o canal concedido aos Marinhos, marinheiros de primeira hora, quando o assunto é estender o tapete ao poder. Dessa vez, contudo, estão sozinhos, porque foram, instantaneamente, desmentidos por outros canais de televisão que, com a ajuda das redes sociais, possibilitaram a difusão instantânea do que foi fato e não versão.

Se há uma coisa que assusta o governo – e isto se aplica a qualquer governo – é o conhecimento da verdade pelo seu povo. E é isso o que mais assusta, porque o monopólio da informação foi perdido, sendo possível, pela via de celulares, não apenas viabilizar a produção de relatos, mas, sobretudo, de imagens que confirmam (ou desmentem) determinado acontecimento. Em cada mão uma espécie de participação direta, uma urna móvel em que é expressa a vontade autêntica de cada cidadão.

Motivo maior não há para querer regular a mídia, sob o já insustentável discurso de que se pretende acabar com fakenews, substantivo que ganhou uma espécie de tradução bem além do que verdadeiramente significa. Fakenews, que se traduz por notícia falsa, passou a significar toda a notícia que desagradar os que se encontrem de plantão no poder, não importa como tenham a ele chegado.

Querem prova maior do que digo? Bom, mesmo após o episódio da Globo, desmentido pelo STB e pela Record, aquele ministro das comunicações resolveu falar em prisão, em inimigos, em quinta coluna etc., tudo “em nome de defesa da democracia”, o que se sabe, certamente pela história, que não é verdade. A questão é saber: ele será investigado pelo motivo indicado, mas desmentido pelos fatos?

É preciso que cada cidadão brasileiro tenha consciência disso. Ninguém está querendo proteger a democracia ao controlar as redes sociais, sob o argumento de que estão querendo impor limites às fakenews. Não se trata disso. Trata-se, claramente, das redes sociais desmentirem as versões que são anunciadas pelo governo e pelos seus prepostos, regiamente pagos com nossos impostos, sob a forma de anúncios e campanhas publicitárias.

Não se engane. O medo é da verdade, não da mentira. Veja que até a Faria Lima está desembarcando dessa arca em pleno dilúvio. Não seja você, assim, indiferente e impotente para reagir em favor de sua liberdade. Se não tiver coragem de lutar pela sua, desculpe dizer, seus filhos e netos, no futuro, provavelmente acharão que você em pouco se diferencia do “cavalo caramelo” – de quem tentaram mudar o sexo -, impotente diante da natureza, salvo, aliás, com o auxílio de veterinários de Sorocaba, da Polícia do Rio Grande do Sul e do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. E foi graças às redes sociais que soubemos da verdade.

Tudo mais é um show de horrores, para estrear um espetáculo do medo, peça que, se encenada, demandará muitos atos até o último capítulo da tragédia.

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