O DIVÃ

Ano 12 – Vol. 09 – N. 48/2024

Já escrevi sobre Machado de Assis e uma de suas obras mais conhecidas: O Alienista. Volto ao tema porque parece que a obra (conto satírico na minha compreensão) torna-se cada vez mais contemporânea e factível, pelo que nos mostram os jornais e a mídia de hoje. 

É fato que ontem ocorreu no Brasil a segunda independência. Sim, a segunda, porque foi uma vez mais em São Paulo, não mais às margens do Ipiranga, onde se constatou que Brasília nunca esteve tão independente do Brasil. 

Peço calma aos estultos apressados e militantes reticentes. Não falo do povo de Brasília, mas dessa “brava gente” brasileira que compareceu e assistiu ao que se poderia chamar de marcha fúnebre. Há Brasis diferentes. Um sedento por liberdade de  onde ecoam gritos e cantos; outro, apático e sem brilho, a deslustrar a democracia, como que se tivesse querendo que a maioria fosse internada na Casa Verde. 

Dela recolhe-se imagem tão parecida com o cenário de ontem que é quase previsível o epílogo. Dizem os mais antigos que doidos não rasgam dinheiro, embora possam jogar pedra em avião. 

Avião e Constituição são vocábulos que rimam (uma rima pobre é verdade) e que são objetos muito falados em dias como hoje. Aquele, pelas esbórnias tornadas secretas; esta, pela indiferença concreta. 

Dr. Simão Bacamarte, personagem central da obra, de tanto elucubrar insanidades, contrapondo verdades a mentiras, omitiu que em si mesmo residia a enfermidade. Enquanto pode diagnosticou, aplicou os medicamentos, conduziu o tratamento com a clausura final, como se nesse quadro residisse a vida, metaforicamente substituindo realidade por delírio. 

O tempo, dimensão inafastável do conhecimento verdadeiro, trouxe ao conto o epílogo mais justo e ajustado. Sem contenção crítica o paciente era o médico. Ele era a própria doença, embora trajado em bata alvejante, impecavelmente gomada, sem vincos ou dobras, mas com vícios. 

A plenitude e autossuficiência do Dr. Bacamarte ainda hoje, por aí, se propaga em vozes que se põem a dar conselhos sem exemplos, avessos a contrariedades e imersos em delírios. 

Em outro cenário auriverde, em cores vivas, ressalvadas algumas estultices, porque doidos não escolhem lados, ao menos se pode ouvir o grito da liberdade, o sol que nos dá vida, como está no hino.

Dr. Simão Bacamarte, ao final da obra de Machado de Assis, conclui que não eram os loucos que eram loucos, condenando-se a si próprio a permanecer internado no sanatório. 

Claro que a Casa Verde hoje abriga estultos, loucos, analfabetos e quiméricos, com suas mazelas claras a sinalizar que só não atiram pedras em avião. 

Teria Machado sido um visionário? Não sei. Mas que o instituto da interdição ainda está no direito, isto sim, sei que está. Só não pode agir sozinho, a menos que quem possa cumprir o dever seja mais um paciente da Casa Verde.

Somos um país de natureza rica e homens públicos pobres de espírito a permitir que Bacamartes continuem perambulando por aí, quando deveriam estar no divã. 

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