A PÍLULA DOURADA

Ano 13 – Vol. 02 – N. 09/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.14802713

Nem tudo o que aparenta SER na verdade É. Ao menos aos olhos e imaginação dos que te olham e subestimam a capacidade dos outros de compreender as coisas.

É claro que de médico, advogado, economista e louco todo mundo tem um pouco. Mas alto lá! Nem tudo que reluz é ouro e quando a bijuteria é mal produzida dá pra perceber – mesmo quem não seja um expert na causa.

Recentemente, uma autoridade, num surto de criatividade semântica, decidiu que prejuízo não pode ser chamado de rombo. Talvez, se indagado, quem sabe dissesse que não pode ser chamado de “problema”, e sim de “desafio fiscal”, que “a coisa está feia” deveria ser substituído por “ajuste estrutural em andamento”, e que “ferrou-se” pode ser sutilmente traduzido como “necessidade de resiliência orçamentária”.

Afinal de contas, que diferença há em saber se é rombo ou roubo, diante da tentativa de explicar o que (propositalmente ou não) a confusão é grande, e há um esforço institucional para deixar tudo ainda mais nebuloso?

O ROMBO: COMO MÁGICA

“Onde está o dinheiro que estava aqui? O gato comeu?” Não! Ele estava mas não estava, porque apesar de ser dinheiro não se sentia como tal. É tudo uma questão de linguagem de gênero, no caso, generosa.

Rombo é quando o dinheiro desaparece do cofre público, mas ninguém sabe direito como. “Foi o mercado”, dizem uns. “Foi a queda na arrecadação”, dizem outros. “Foram os juros”, diz um economista que parece sempre saber de tudo, menos como resolver o problema, por mais que a única alternativa encontrada seja taxar tudo. O importante é que o dinheiro sumiu, e agora falta para hospitais, escolas e aquele seu asfalto novinho que nunca chegou.

Como de hábito, a culpa, claro, não é de ninguém. O rombo é um fenômeno místico, algo entre a aparição do Saci e a tempestade perfeita no mar das contas públicas. “Não foi erro nosso, foi o destino”, grita um burocrata desesperado, enquanto tenta mudar os números para algo menos assustador. Lembra a criança que se defende da não acusação da mãe: Não fui eu!

O ROUBO: A MAIS ANTIGA DAS INSTITUIÇÕES

Já o roubo, bem… Esse tem nome, sobrenome, apelido, alcunha e até partido. Roubo é quando o dinheiro desaparece, mas a diferença é que sabemos (ou imaginamos saber) exatamente para onde foi. Muitas vezes, para um paraíso fiscal, um apartamento com malas de dinheiro, um acervo de obras de artes, uma coleção de joias ou uma empresa de fachada registrada em nome de um laranja. O roubo não é um acaso do destino (ou seria um destino do ocaso?), é um plano meticulosamente executado com a dedicação de um artesão renascentista.

No roubo, há intenção, com vício, como já confessou um larápio que hoje ri dos seus eleitores ao se por como influenciador digital. No rombo, há incompetência, dessas que assistimos por mais de uma década como “nunca antes na história deste país”. No roubo, há dolo. No rombo, há um time de engravatados tentando entender onde erraram. Em ambos, o resultado é o mesmo: você, contribuinte, acordando cedo para pagar um boleto maior e no trajeto do trabalho ouvindo que é preciso que você “entenda como isso é bom pra você”.

QUANDO A POLÍTICA VIROU UM CARNAVAL (MAS SEM ALEGRIA)

Políticos adoram brincar com palavras. Eles não mentem, apenas “recalibram a narrativa”. Eles não estão quebrados, estão “passando por uma transição fiscal desafiadora”. E agora, rombo não é mais rombo, e talvez, um dia, roubo também deixe de ser roubo, quem sabe, por quimera (quem sabe!) você, também, deixe um dia de ser otário e vire definitivamente eleitor.

Mas a real é que, enquanto eles brincam de malabares com as palavras, a sua (nossa) vida, caro pagador de impostos, não é um carnaval. Seu orçamento não tem deficit, tem buraco. Seu dinheiro não some, ele é arrancado. E no final do dia, entre rombos e roubos, a conta sempre chega para quem trabalha de verdade.

Boa sorte. Você vai precisar, até para chupar laranja, comer picanha e, quem sabe, ter a consciência de que rombo é rombo, roubo é roubo, não há como dourar a pílula que já não é mais remédio: virou veneno.

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