A DESORDEM

Ano 13 – vol. 03 – n. 26/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.15097096

Não há meios-termos a serem usados quando a realidade retrata a verdade. O que se impõe, por cautela, é pincelar a tela com camadas suaves de cores que pretiram o quadro desumano do desenho.

Dourar a pílula é versão, narrativa, mas não realidade. Faz parte do pacote virtual que compõe o universo paralelo com o ímpeto do autoritarismo de outrora. 

Quando a opressão era medonha assistimos, entusiasmados, as promessas de mudanças como a esperança que recobria (talvez) a inocência. Mas, ainda nela, para eles, era apenas cenário de pescaria de quem mais tarde seria fisgado pelo anzol. 

Hoje, ao despertar de uma ilusão perdida, vê-se que tudo não passou de um sonho, utopia de quem foi sincero lutando em campo minado com explosivos dilacerantes de homens e almas. 

Já não há mais o horizonte do Cruzeiro do Sul. Não sobrou nenhuma estrela da constelação a enaltecer conquistas de uma gente pacífica, mas brava quando necessário. 

Se dantes a força do metal, os gemidos das dores, a blasfêmia dos incultos e a miséria do cárcere feriu a alma, hoje, o cenário não mudou. 

O aparato hoje lustrado, indumentário em gestuais deletérios, apenas remonta às ilusões perdidas. Os choques já não são elétricos, mas permanecem torpes como os homens. 

Ódio em olhares, vergonhas cintilantes, arrogância destilada como que num ritual macabro de tortura. 

Paus de arara, cadeiras do dragão, pimentinha, afogamentos, enforcamentos, tudo foi relembrado em dia nauseante, desumano e autoritário.

Vício em tudo. Violações, vilipêndios, ultrajes, mentiras, suspeições, impedimentos, interesses, maniqueísmos e ódio. Sobretudo ódio. 

Nada do que vi me fez bem sem que eu possa, de mãos atadas, alcançar a água para matar a sede que sinto. 

Puseram-me de joelhos. Todos que estavam comigo literalmente ajoelharam-se. Uns para preservar a integridade clamando a Deus. Outros para perseverar na covardia contumaz e cordata supondo que nunca serão vítima de monstros. 

Resta o pão da vida, endurecido em trigo, mas saciador da fome espiritual. 

Haverá um tempo em que os que celebram chorarão. Haverá um tempo em que os que se refestelam com a incúria dela serão vítimas. 

Tudo o que foi escrito perdeu autenticidade, credibilidade, razoabilidade, coerência, enfim, utilidade. 

De livros não sabem. Tê-los escrito, mas não segui-los é confissão de inverdades. Proibi-los? Jamais! Devem permanecer nas prateleiras, ao alcance de todos, para que sirvam como fontes irrasuráveis (embora corrompidas), mesmo que amarelados pelo tempo, como exemplo do que jamais deve ser apreendido:

A desordem! 

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