OS RESTOS E AS SOBRAS

Ano 13 – vol. 12 – n. 111/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17831418

Quem se acostuma às sobras termina por viver de restos;

quem muito se abaixa, cedo ou tarde, mostra os fundos.

Minha sábia avó materna de nome Georgeana, mais conhecida como Nhazinha, com as limitações intelectuais que pudesse ter tinha uma sabedoria empírica imensa. O conhecimento popular, a sensibilidade extrema e a parcimônia milagrosa de aturar meu avô Newton Pavão. Era quase santa.

Pois não me valho hoje de nenhuma sabedoria científica para traçar estas considerações. O científico está aí escrito. Segue quem quiser, sim, porque no Brasil de hoje só quem não tem a liberdade para exigir seu quinhão é o próprio dono da coisa toda: o povo.

De certo que entre o DITO e o NÃO DITO que constitucionalmente pode ser identificado o perigo não está no escrito, mas no que homens pretendem escrever e, por isso mesmo, com empáfia, arrogância, prepotência e uma dose excedente de autoritarismo golpeiam as instituições de morte.

Mas retornando a minha sábia avó ela costumava a repetir alguns ditos populares que, ou são típicos destas bandas da sobra do Brasil ou são do próprio resto do mesmo.

Dizia dona Nhazinha que “Quem muito se abaixa mostra os fundos”. Que singeleza cirúrgica!

De tanto negligenciarem, de tanto se omitirem, de tanto tergiversarem vejo concretizada a lição de vovó, não entre os “memes” da internet, mas na própria realidade que se perfez pela incapacidade e opacidade dos homens – os verdadeiros Manés!

Ainda há os ignorantes a falar mal do Império! Mas nele tivemos a Constituição mais longeva da história.

Não sei dizer se o leitor tem medo ou vergonha de afirmar que o Brasil é um resto de civilização ou apenas sobra do que os vestais da democracia imaginam ao jogarem dos “penicos constitucionais”, o dejeto, a sobra, o ultraje fétido.

Não há nenhuma justificativa para que nos conformemos com o que ocorre hoje. Não há que esperar nenhum milagre do protetorado ocidental. Somos apenas as sobras dos restos embrulhados em papel auriverde, como se o higiênico nos fosse o papel apropriado para chamar de Constituição.

Hoje não adianta se esmerar em indignações, discursos contundentes e pachorras vociferando com a pretensão do alcance dos “likes” nas redes sociais.

Todos foram avisados. Todos foram advertidos. Todos foram alertados. O que antes tinha solução pacífica resolveram enterrar, como se a obra servisse apenas para limpar os dejetos.

Quando criança, ouvindo dona Nhazinha repetir seus ditos com solenidade de rainha e simplicidade de lavadeira, eu não compreendia o alcance de certas frases. Achava graça, ria escondido, e seguia correndo pelo quintal, onde o mundo ainda era pequeno, justo e perfeitamente decifrável.

Um dia, porém, ela me puxou pelo braço — desses puxões que não doem, apenas acordam — e disse, olhando por cima dos óculos tortos:

“Cacá – como me chamavam e chamam os queridos -, não viva de restos. Nem aceite sobras. Quem se acostuma com pouco perde o direito ao muito.”

À época, entendi como uma bronca por deixar comida no prato. Hoje percebo que era um aviso para a vida, para o país, para a História.

Talvez por isso o eco de sua sabedoria popular ainda ressoe tão fundo. Em um Brasil que insiste em se ajoelhar diante do que deveria enfrentar de pé, a velha lição infantil reaparece: quem se acostuma às sobras termina por viver de restos; quem muito se abaixa, cedo ou tarde, mostra os fundos.

Minha avó era sábia.

Adeus, liberdade!

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