Ano 10 – vol. 05 – n. 36/2022
Em tempos de gente obtusa como o que vivemos (já previra Nelson Rodrigues) o mordomo perdeu a responsabilidade. Tudo agora é o corretor. Ainda quando o redator confunda a grande obra do mestre Picasso com o grande falo do mestre de aço (adaptação para evitar censura) a culpa é do corretor.
O sujeito é incapaz de compreender uma oração que já não venha pré-fabricada pelo corretor, pois ele sempre tem razão, embora, quase sempre, o acento agudo seja seu adversário fazendo confundir o verbo ser com a conjunção – falo do corretor.
Mas há corretor e corretores, como proponho demonstrar.
Nas filas das estações de trem existiam fiscais.
A caminho do que chamavam de alojamentos (eram só depósitos de gente) também existiam fiscais.
Nós portões dos fornos crematórios existiam fiscais.
Nas universidades existiam fiscais.
Na ditadura existiam fiscais.
A vida era assim. Cheia de fiscais.
Mas aí os fiscalizados gritaram. Protestaram. Discursaram. Disseram que não haveria mais censura. Mas se esqueceram de informar algumas coisas.
As universidades formaram militantes, uma espécie de gente que não quer ter razão, só quer intimidar e, se necessário, usam até de meios violentos.
Só então percebeu-se que os fiscais sempre estiveram aqui.
Mas como as coisas podem piorar a GloboNews – 24h inventou o fiscal do vocabulário, que adverte sua colega ao vivo. Mas como ela, também, é fruto da fábrica de estúpidos, quase se ajoelha e pede perdão por algo que ela mesmo ignora.
Mas sabe o que é pior? É que ela é uma mulher e aquelas dos sovacos peludos e cabelos azuis se calaram. Essas vidas não importam? Porque não se trata de mulher de grelo duro? Não era para dar as mãos sem soltar?
Tivesse ela falado em “todes”, uma excrescência vocabular fantasmagórica e estariam todos calados, inclusive o fiscal censor.
DENEGRIR nunca foi racismo, mas censura, sim, pode se constituir uma forma reversa de fazer renascer aqueles fiscais dos campos de concentração ou dos campos de reeducação, ainda hoje existentes, mas ignorado pelos “inteligentinhos do sofá da sala”.
A imprensa (sobretudo a GloboNews) está assassinando o idioma, símbolo que identifica uma nacionalidade o que, aliás, é previsto na Constituição da República.
Sem pudor, e sem corretor, é sempre bom passear pelo dicionário. Se houver tempo um Machado de Assis pode abrir mentes, aumentar horizontes e até transformar autoritários em gente.