O PAÍS “FLOPOU”

Ano 11 – vol. 12 – n. 76/2023

A palavra que no inglês significa mais ou menos algo que se pode traduzir como fracasso – “flop” – virou verbo. Tudo que diga respeito ao insucesso agora é “flopar”.

A palavra é usada, preferencialmente, para descreditar qualquer ato ou acontecimento protagonizado na rinha política que virou o Brasil. Os adversários, mutuamente, acusam-se de suas mobilizações terem “flopado”. Mas não fica aí. Este país é singular exatamente porque tem uma turma que imagina poder transformar o mar em um grande rio, roubando-lhe o sal.

Hoje, surpreendentemente, o Conselho Federal de Economia resolveu declarar que a Dilma – a que dobraria a meta sem fixar uma meta, porque quem iria ganhar não iria perder, porque todo mundo iria ganhar e todo mundo iria perder – é a “Mulher Economista de 2023”.

Fato: ela produziu a maior recessão da história do Brasil jamais vista. Versão? A produção de “fakenews” que atropela o bom senso e o próprio autorrespeito profissional e pessoal. Saberiam esses economistas, membros desse Conselho, o papel da ética?

Mas eu nem posso criticar esses Conselhos que viraram espaços de militância. A própria OAB teve comportamento parecido, quando se omitiu perante processos judiciais que são verdadeiros desafios ao procedimento da época das ordálias, até que ocorresse a morte de um preso político no cárcere do autoritarismo judicial.

Só agora, aquela que nos reúne pelas anuidades absurdas, mas pela surdez e indiferença visível nos ignora, sentiu na pele a acusação de um “justice” de que notas seriam emitidas, produzindo uma avalanche de twites de dissabores, mas que mantinha um indeferimento de uso da tribuna ao advogado, exatamente porque, no Brasil, os regimentos dos tribunais são a maior fonte de direito – eu chamo de “quase-direito”.

Tudo isto é fato que bem se insere no “flopar” porque demonstra que o Brasil, infelizmene, pela covardia de uns, o oportunismo de outros, a alma corrupta de um conjunto de isentões e a irresponsabilidade de um grupo que foi colocado no poder, comprova que as instituições foram alcançadas pelo crime organizado.

Duvidam? Então respondam a algumas indagações inquietantes.

Em que outro país do mundo um “justice” sobe palanque para fazer pronunciamentos políticos? Ou um “justice” reuna em sua competência todas as atribuições de um procedimento judicial? Ou um “justice” que confesse publicamente que o presidente só é presidente graças a sua Corte? – E o pronome possessivo aí tem sido levado ao pé da letra, é bom que se diga!

Ignoro qualquer outro país no mundo em que o crime organizado, de forma consciente ou inconsciente das autoridades, possa ter visitado a instituição da justiça. Ou um ministro ou secretário de estado que tenha na instituição que comanda a visita de membros do crime organizado, com passagem aérea custeada pelo contribuinte? Simplesmente desconheço.

Como se não bastassem todas estas indagações, baseadas em fatos reais, ainda li um dia desses que um “justice retiree” escreveu (ou estaria escrevendo) um livro em que afirma que sua Corte consultou as Forças Armadas em um dado momento. Ora vejam só!

Mas tudo pode piorar, quando um embaixador – o cargo vai mesmo em minúsculas – se pôs a emitir interpretação sobre postura de grupo terrorista ao invés de priorizar o Estado envolvido na guerra.

Muitos são os acontecimentos a revelar que o Brasil não vive mais a normalidade institucional, mas um estado de faz de conta, o que me faz lembrar o deputado Ulysses Guimarães ao se referir aos “três patetas”, coisa que desagradou imensamente ao então general Geysel.

Não sei bem onde vamos parar, mas não creio que tenhamos alguma chance de avanços civilizatórios além dos declarados pelos que se consideram progressistas, mas que não passam de ensaístas que julgam que o direito é só uma questão de linguagem, com a retórica adaptada às circunstâncias, dependendo de quem esteja do outro lado.

Busco, com o espanto de quem viu críticas sobre visitas ao palácio da Alvorada no governo que passou, o que será que a ausência de agenda oficial produz que não incomoda mais aos jornalistas. Ao contrário. Há os que, sem pudor e atenção institucional qualquer, se vangloriam de pertencer ao grupo dos que dizem o que ouviram, ainda quando o que tenham ouvido revele a promiscuidade institucional inegável, como se a política e o direito fossem uma espécie de prato que possa merecer a mesma panela com os mesmos condimentos. Até o mocotó exige ingredientes próprios em vasilhas adequadas!

Acho que realmente a palavra se aconchega bem como verbo no vocabulário. “Flopar” tem consonância verbal com o que restou do Brasil que foi institucional, até o dia em que o dito ficou como não dito, com a permissividade de sugerir que o crime compensa, o errado é que está certo, o absurdo é que deve prevalecer, o levar vantagem é que é o bom.

Prefiro pensar o contrário. Diante de tantos acontecimentos a imprensa tradicional do Brasil “flopou”, porque aos fatos reservou a categoria de expressão da indiferença, ou seria da cumplicidade delinquente?!” Flopou”, “floparam” – eles.

Definitivamente o país “flopou”.

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