Ano 12 – vol. 01 – n. 03/2024
https://doi.org/10.5281/zenodo.10933118
Fizeram uma verdadeira micareta fora de época para celebrar o que juram ter sido uma tentativa de “gopi” no dia 8 de janeiro de 2022.
Fanfarronice pura. Um evento personalíssimo, nada republicano.
Para quem tenha o mínimo de discernimento intelectual nunca houve tentativa de golpe nem quando os criminosos do PT e MST incendiaram prédios de ministérios e invadiram as instalações do Congresso Nacional, quebrando vidraças e incendiando instalações, no passado; nem em 8 de janeiro, quando, visivelmente, houve uma armação clara para tentar criminalizar um movimento de pessoas que não acreditam – suas razões são diversas – no resultado do pleito.
Entorpecidos pelo delírio de sua narrativa essas pessoas seguem, com o mantra do golpe, ainda quando os fatos as desmintam. A verdade está nas imagens que existiam, estavam sendo examinadas, depois desapareceram. Lutar contra os fatos é não mais do que sinalizar algum tipo de desajuste, podendo ser até psicótico.
Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Falaram num tal museu da democracia como marco de celebração do inexistente: o golpe. É ou não psicopatia pura?
Bom, o que se vê no Brasil desde que os Poderes Executivo e Legislativo passaram a ser atropelados pelo Poder Judiciário é uma completa distopia que faria Aristóteles, como Montesquieu, revolverem nos túmulos com as lambanças judiciais que estão sendo cometidas, não por ignorância, isto é óbvio, mas por esperteza descarada.
Já não há mais separação e muito menos harmonia entre os poderes. Aliás, os poderes foram reduzidos a um – o judiciário.
Mas não se pode atribuir responsabilidade apenas ao judiciário, onde falta descrição e recato, posto ser excessivo o protagonismo televisivo dos ministros. Uns declaram abertamente que muitos só estão eleitos porque o STF possibilitou; outros, representam o país em evento impróprio a quem não tem função política; e há os que, simplesmente, ignoram a Constituição e mandam a polícia proceder a diligências nas instalações do parlamento, como se não houvesse regras de garantias parlamentares expressas na Constituição.
É necessário dizer que os outros Poderes não se respeitaram ao abrirem mãos de suas prerrogativas. E não há mais ou menos quando o assunto é competência e prerrogativas. Quem define é a Constituição.
Senado e Câmara estão desprestigiados pela singularidade de dois personagens sem qualquer responsabilidade institucional, deixando um único homem se sobrepor a todas as normas vigentes no país, sobrestadas por um sentimento rancoroso visível. O futuro promete uma nação ainda mais fracionada, desunida e (rogo a Deus que não aconteça) mergulhada em um conflito civil). Enquanto perdurar esse destempero sem limites só aumenta essa divisão que não nasceu agora. É resultado daquele discurso feito na Avenida Paulista: “nós e eles”.
Acabo de ler, e fiquei estarrecido, como qualquer cidadão que acredita no sistema democrático, as histórias narradas no livro “Histórias que precisam ser contadas – 8 de janeiro”, da jornalista Cristina Graeml, prefaciado por Alexandre Garcia.
Trata-se de um e-book breve na extensão, mas rico em conteúdo, que retrata a miséria humana causada por abusos de autoridade que fazem de O Processo de Kafka quase um lúdico relato. É ultrajante à dignidade da pessoa humana o que ali se relata.
Se há uma coisa que se pode aproveitar dessa fanfarra, a que compareceram até os generais das forças armadas, alguns com sorriso amarelo e aplausos reticentes, é que a criação do museu proposto é oportuna. Só mesmo em um museu a democracia pode ser encontrada hoje no Brasil. Minha sugestão é que não se cobre ingresso. O cidadão precisa saber como se constrói um monumento à mentira, ao cinismo e à cumplicidade torpe.
Felizmente a verdade sempre aparece. Pode demorar, mas aparecerá, e não se confina em museus. Ela se vivifica na história de uma “Brava gente, brasileira”, a quem, por mais que se pretenda impor grilhões, não conseguirão por muito tempo, porque “Longe vá (o) temor servil”.