Ano 12 – Vol. 12 – N. 76/2024
https://doi.org/10.5281/zenodo.14567808
Tem sido prática frequente nos grupos de WhatsApp a publicação imediata de mensagens com o propósito de desviar a atenção após um artigo ou conteúdo relevante ser compartilhado por um dos membros do grupo.
Antes de tudo é necessário afirmar: grupo é um conjunto de pessoas vinculadas por pontos comuns, embora não uniformes, por isso mesmo demandando maturidade para reconhecer no outro alguém com valores, princípios, idéias e ideais que podem ser diferentes.
Esse tipo de comportamento, muitas vezes, carrega um viés ideológico e pode ser entendido como uma forma sutil de censura.
Basta que uma pessoa compartilhe um artigo pondo na berlinda crenças ou discuta temas polêmicos e pronto. Logo outros membros do grupo publicam quase instantaneamente memes, noticias descontextualizadas, mensagens desconexas distribuídas em massa, filantropia etc.
Qual seria o objetivo disso? Qual a intenção aparentemente revelada?
Permito-me compreender que outra não seria se não deslocar o foco e impedir que o conteúdo inicial possibilite um debate – não um destemperado embate – ou reflexão.
A par de ser inconveniente, esse tipo de prática desperta questões sérias sobre a a liberdade de expressão, sinalizando intolerância no ambiente digital.
O WhatsApp é uma das diversas vias de manifestação em que deve prevalecer a noção democrática e plural de conhecimento que não se casa com a ideia de silenciamento tão difundida hoje no mundo, mas com destacados adeptos do Brasil.
Discordar é direito de qualquer um quando o assunto for matéria de gente com cognição mínima sobre o assunto. Silenciar, ao contrario, é a mais nítida característica de gente autoritária e intolerante.
Além disso, a verdadeira censura em que reside esse tipo de comportamento só enfatiza ainda mais a polarização nas redes sociais.
O ambiente virtual que hoje nos abriga e possibilita a celeridade como fator de ajustamento de tempo e espaço – tornando o mundo menor – deve assegurar o confronto saudável de ideias, sendo deletéria a prática desse tipo de gente que opta por abafar vozes contrárias, usando-se da dispersão como alternativa.
O pluralismo é um fundamento constitucional, mas sua compreensão não demanda a objetividade dogmática, residindo propriamente no campo da ética que não permite distinções seletivas: ou se é ético aqui ou na Lapônia ou não se é ético.
Portanto, esse tipo de comportamento em nada contribui para o conhecimento que formata a evolução humana.
Não receba o leitor estas palavras como uma mensagem autoritária. Por dever de oficio a reflexão é matéria prima para a Academia – ambiente em que tenho domicilio – tornada pouco afeita aos discursos que se desalinhem das pautas e mantras amarelados pelo tempo.
Como o propósito é contribuir entendo que o combate do tipo de prática aqui exposto exige que os participantes de grupos adotem posturas mais éticas e respeitem a troca de ideias.
Que tal o incentivo dialógico e a reflexão crítica como nuances do pluralismo político? A expressão (pluralismo político) é aqui utilizada em sentido amplo. Só assim, entendo, conseguiremos aplacar essa forma de censura moderna.
A liberdade de expressão é um direito natural do ser humano e deve assim ser defendida em tempos autoritários como o nosso de hoje no Brasil. Contudo, mesmo no WhatsApp, essa liberdade depende de nossa capacidade de ouvir antes de falar e de priorizar o debate em vez da dispersão.