Ano 13 – Vol. 01 – N. 06
https://doi.org/10.5281/zenodo.14726684
A minha terra querida
A minha terra que desterra,
fazendo bater forte o peito,
como se não houvesse jeito,
senão quando regressar.
Se ao Rei-menino pudesse escrever talvez não conseguisse conter medidas, quem sabe desbordando em queixas., mas sem abdicar do devido respeito.
Se à Sua Majestade pudesse escrever, talvez fizesse loas às suas (nossas) Leis Fundamentais do Maranhão para rememorar que suas (delas) disposições, como caudalosas águas dos mares e rios desbravados, derramaram-se sobre normas diversas, condenadas por mentes perversas, a desbotar em gavetões bolorentos.
Ignoro que Sua Majestade a mim reservasse mínima atenção. Quisera!
Na dúvida acheguei-me a um escrivão obediente, sempre disposto a verter em letras o que da imaginação brota.
Posto que seja delírio, pura imaginação, talvez guarde em si o desejo sempre presente de não quedar inerte, indiferente, ao que ocorre nestas terras.
Se eu pudesse escrever ao Rei Luis XIII, talvez assim dissesse:
“Majestade Sereníssima,
Sob o augusto patrocínio de Vossa Majestade, lançamo-nos ao fito grandioso de erguer na distante América a luminosa bandeira da França Equinocial. Contudo, no curso de tão ardorosa empresa, permite-me, Soberano Rei, que vos escreva com franqueza e, quiçá, com um tom um tanto ácido, pois é em vão ocultar os desatinos que nos cercam como sombras em pleno dia.
Aqui, ao passo que desbravamos matas e enfrentamos perigos que a natureza selvagem nos reserva, é-nos enviado o rumor de um reino onde as excelsas prerrogativas de vosso trono são usadas não para proteger, mas para subjugar os bons filhos da França. Não bastasse o fardo já pesado dos tributos — esses incessantes tributaristas que, ao que parece, almejam até taxar o próprio ar que respiramos — agora são as palavras que se encontram sob vigilância.
Dizem que em vossos domínios, qualquer suspiro de descontentamento, qualquer ânimo de contestar os desmandos que pesam sobre o povo, são sufocados pela maquinaria de um controle que se apresenta como benevolente. As redes de comunicação, que poderíamos chamar os panfletos do nosso tempo, tornam-se redes de captura, enredando aqueles que ousam emitir vozes discordantes. Tudo isto, justificam os cortesãos, é feito para preservar a ordem e o bem-estar. Mas pergunto-vos, Vossa Majestade: que ordem é essa, que se fundamenta no silêncio imposto e na supressão de toda crítica? Que bem-estar pode brotar de um terreno onde a liberdade de expressão é sufocada como erva daninha?
Ó Rei cristianíssimo, é vosso dever lembrar que as sementes da discordância, quando plantadas pela injustiça, germinam em rebeliões futuras. Assim como nos cabe preparar o solo desta nova colônia, cabe a vós preparar o vosso reino para que nele floresçam a paz e a prosperidade. Deveis ponderar: tributos excessivos e censuras não são alicerces de um reinado duradouro, mas o prenúncio de sua fragilidade.
Neste canto do mundo, onde nós vos representamos e onde erguemos vossa glória, lembramo-nos da grandeza da França, não apenas de sua força. Suplico-vos que a grandiosidade de vosso reinado se revele na sabedoria de governar com justiça, moderando os excessos de vossos ministros e conselheiros.
Por fim, envio-vos meus respeitos em nome de todos os que aqui labutam sob vossa bandeira. Que esta missiva vos encontre em reflexão, e que a memória de um reino guiado pela virtude inspire vossos atos futuros.
De vossa Majestade, sempre fiel servidor, ainda que com lábios mordazes,
Claude”, o que não é D’Abeville.
Se eu pudesse escrever ao Rei Luís XIII, enfim talvez pudesse, em quadra imperfeita confessar:
A minha terra querida
A minha terra que desterra,
fazendo bater forte o peito,
como se não houvesse jeito,
senão quando regressar.