O VEREDITO

Ano 13 – vol. 03 – n. 19/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.14999829

 

Na obra “O salão dos passos perdidos”, depoimento de Evandro Lins e Silva ao CPDOC, a história se compõe e decompõe com a riqueza de quem viveu agruras, angústias e dramas de um devotado defensor.

Da obra bem mais há o que recolher. De mim, só mesmo a imaginação de quem luta para que a Constituição recupere prestígio onde o criativismo judicial já ultrapassou as barreiras, subverteu a ordem jurídica e transformou o Direito em força.

Após o alerta do meirinho, com a solenidade que é exigida, brota o diálogo.

Este o cenário, o calvário e a cruz.

– Já há o veredito: culpado. 

– Mas como, se o caso não foi julgado?

– Não importa!

– É culpado!

– Mas e as regras?

– É culpado! Não importam!

– Mas a iniciativa da investigação imprópria?

– Pouco importa! Eu comando o procedimento. 

– Mas, e o contraditório? 

– A ampla defesa? 

– O juízo natural? 

– A igualdade das partes? 

– Os meios e recursos inerentes? 

– A presunção de inocência? 

– O ônus da prova? 

– Acaso não estão na Constituição?

– Pois sim. 

– Mas é culpado. 

– Mas e a Constituição? Não foi jurada cumprir?

– Eu a jurei obedecer naquele momento solene. Mas ali é apenas um protocolo formal  em que a hipocrisia humana acata, apenas para que os anais escritos façam de conta que se observaram as leis. 

– Mas não foi só juramento. Houve um compromisso em sessão de arguição colegiada!

– E daí? Tudo acertado. O Cordeiro chega cabisbaixo fingindo a mansidão. A tudo responde, tudo promete, sabendo que aquilo tudo é só uma passagem. 

– A ferocidade dos lobos é fingida, toda a alcateia pode ser seduzida pela simpatia. Depois lança-se a ameaça de retirar-lhes a ração e a mansidão se instaura. Todos dominados com o relho mensurado. 

– E o compromisso assumido?

– Bom, foram feitas promessas e juramento, mas a traição é da natureza humana. 

– O padre finge que jura, o pastor também, o árbitro idem, marido e mulher também, todos juram! 

– Mas se trata de liberdade humana, não de fidelidade simpática e nem de enamoramento fugaz. 

– Bom, não importa. Todos os meios de defesa foram garantidos. 

– E as arguições envolvidas? E os incidentes sustentados? E os incidentes produzidos?

– Não importa. Tudo excesso de defesa. A situação está bem clara:

– É culpado! 

– Mas prazos exíguos e as ilações que de trôpegas e frágeis não se apoiam em declarações obtidas por coações; não dão suporte lógico à conclusão. 

– Pouco importa! É culpado. 

– Mas de que, exatamente? Qual a conduta concreta? Qual a conexão que conduza a uma formação de culpa capaz de encarcerar? 

– Não importa. Quando a ilação for produto da mais subjetiva imaginação, de delírio e elucubração desejada, tudo é possível porque eu decido: é culpado. 

– Mas como se pode considerar que há justiça quando de palpável nada há, se não a suposição de que o que não houve teve guarida da imaginação fértil?

– Aí está a resposta. Usamos a imaginação. Ela é adequada e bastante. 

– Mas a justiça não será feita se o mínimo objetivo que é a sustentação da ordem não for observado com critérios dogmáticos inarredáveis!

– E quem disse que o protagonismo não nos basta? É possível fazer releituras e mutações em observância à dinâmica e ao impulso civilizatório que nós possuímos. 

– Mas quem lhes deu essa competência se no fundamento de existência não lhes é reservado?

– Nós guardamos o papel de embrulho e criativamente preenchemos o pão com os ingredientes que mais nos satisfazem. 

– Mas aí fica parecendo o pão que o diabo amassou! 

– Tu também estás querendo ser culpado? Não? Então te cala porque o veredito já está pronto:

– Culpado!

É o veredito!

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