Ano 13 – vol. 05 – n. 36/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.15350081
SER, ESTAR, FAZER. Verbos no tempo infinitivo que me deram dor de cabeça quando o saudoso prof. Botão nos falava, com entusiasmo, sobre Os Lusíadas.
Devo confessar que dentre as coisas que me detém com preocupação, mas boas lembranças, é a obediência aos tempos verbais, porquanto meu pai, também, me fez várias advertências como vasto conhecedor do idioma, inclusive de algo que confesso nunca ter aprendido com a “decoreba” exigida na época: a análise sintática.
Desde quando verbo é sujeito? – Dizia ele energicamente a mim, ao responder-lhe sobre a estrofe “Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas”.
Mas ao menos não me vejo confundindo tempo infinitivo com o presente do indicativo com a abundância que se vê nas redes sociais. Um calvário nosso de cada dia, como se o celular de hoje fosse ainda feito em pedra, como na época dos Flintstones.
Fato é que o tempo infinitivo nomeia o verbo e – no caso deste breve escrito – qualifica um status perpétuo (daí o secular no título) do Brasil, pois quando se pensa que a conjugação começará eis que surgem os especialistas e palpiteiros a defenestrarem a mudança de hábito:
– Quem disse que podes avançar sem permissão? Acaso não sabes que sabemos de tudo um pouco e nossas vestes sinalizam potência e poder? Pois saibam que a linguagem neutra existe e nós, embora saibamos que constitucionalmente o idioma oficial seja o português, queremos declarar e declaramos, com ênfase varonil, que, para o Brasil, “todes” também pertence ao idioma.
Para mim, não. Fui aluno de bons professores. Isto não passa de dialeto com nuances de delírio de uma patologia aguda.
Bom, como na Casa Verde de Machado no Brasil seus Bacamartes (“dotores” ou não) se proliferam com a prepotência típica e a ignorância notória a desafiar até mesmo o tempo verbal. Já temo pela lei da gravidade.
Embora me sirva de mote não vim conjugar verbos, mas sintetizar que somos um país em que SER delinquente, ESTAR cometendo crimes e FAZER discursos como se nada estivesse acontecendo transparece quase uma característica das classes dirigentes (expressão amarelada pelo tempo, mas me custa lembrar de outra).
Falo de pessoas que SÃO invariavelmente óbvias, são por ESTAR no lugar de poder em que FAZER com que se saiba de um escândalo a cada novo dia é mais do que uma novena, é um verdadeiro Rosário de contas infinitas em que o Deus nos acuda virou prece aos aflitos lesados por essa gente esperta.
Quando se imaginou que Mensalão, Petrolão e corrupção eram rimas defenestradas da realidade, porque descobertas, eis que surgem os arautos da moralidade e, mergulhados em traquinagens, devolvem à cena do crime quem ainda tinha mais a revelar: o APOSENTÃO, como não poderia deixar de ser, para rimar com CORRUPÇÃO.
O Brasil tem dessas coisas. Quando beneficia uma trupe o permissivo entra, projeta-se, expande-se, é tolerado e parece que aquelas mesmas pessoas que um dia falaram em abuso de autoridade se investem de arautos como os que um dia, sem ver culpa, condenaram o Salvador à morte de cruz.
O tempo verbal é dos piores porque o infinitivo tornou-se gerúndio, já que a gatunagem persiste, insiste e não desiste, desejando que paguemos mais uma conta para junta-la às muitas contas que já pagamos.
Enquanto a linguagem vai para o buraco do poço o homem é condenado ao infortúnio da miséria e as elites soberbas caminham indiferentes, embora, bem saibam, são complacentes como o hímen visto na medicina legal, sujeito a intempéries, mas resistente. Quanto a eles, não são incorruptíveis. Sabem conjugar os verbos, mas adoram o gerúndio, pondo em evidência o vocábulo mais ouvido nos últimos tempos neste país: a impunidade – continuam roubando, “ad saeculum ad saeculorum”.
Não há verbo que resista ao tempo quando gerúndio rima com submundo. E assim caminha o covil, que também rima com aquela dama que os pariu.