NADA DECLARAR OU TUDO A ESCONDER

Ano 13 – vol. 09 – n. 84/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17144654

Li hoje pela manhã que o Ministro da Justiça elegeu como fator determinante para o assassinato de um delegado de polícia aposentado no estado de São Paulo a proliferação de armas para colecionadores e desportistas no governo anterior.

Eu tenho para mim que o sr. Bolsonaro deve ser uma espécie de fetiche, um travesseiro, uma desculpa dada por aquelas crianças que fomos todos e que, ao quebrarmos um jarro da mãe com um chute mal calculado na bola, nos defendíamos dizendo: foi o vento! Pois é mais ou menos assim que a tudo que importe em incompetência, desmando, escândalo ou roubo esse governo que foi levado por mãos estranhas ao poder se comporta.

Eu, particularmente, considero um insulto a minha inteligência uma fala dessa natureza e conteúdo, fazendo-me compreender que nos anos de chumbo tinha razão o Ministro da Justiça Armando Falcão ao responder sempre quando era indagado pela imprensa (quando ela merecia confiança) em situações quase sempre incômodas: “Nada a declarar”. Mais tarde a sua biografia teve o título de Tudo a declarar. Bem que poderia ter sido complementada por Nada a esconder!

Pois é, só duas razões me levam a relembrar e a ter como paradigma aquela época. A primeira é uma razão de ordem histórica. Fatos são fatos e eles existiram. A segunda é bem mais pragmática e reside na circunstância de que lembrar algo ruim só mesmo diante de algo catastrófico. E outro não pode ser o adjetivo encontrado para traduzir este desgoverno sem rumo e sem prumo que está no poder.

Essa gente está há mais de vinte anos no poder e resolve creditar todas as mazelas do país ao sr. Bolsonaro, uma pessoa sobre a qual eu sempre digo: foi apenas um cara que estava no lugar certo diante de tantos incertos e ocupou um espaço nublado por mesmices do teatro das tesourar e que agradou aos que queriam ouvir um discurso diferente. Nada além disso, porque o que há de bom no governo passado só se tornou extraordinário para alguns porque os demais faziam (e pelo visto continuam fazendo) o que não deveria ser feito.

Ora, Ministro. Então quer dizer que a liberação de armas a colecionadores e a desportistas matou o delegado? Então se não existissem colecionadores de armas e desportistas o crime organizado teria sido extinto? 

Mas como – pergunto eu – se ele (o crime organizado) alimenta (ou alimentou) a formação de uma organização criminosa de que o partido político que está no governo se orgulha em ter contribuído para sua criação? Lembra do Foro de São Paulo, Ministro?

Na realidade todos vocês que desgovernam este país sabem. Todos nós que pagamos impostos elevados sabemos. Quem matou aquele delegado foram os terroristas. Sim, eles são o crime organizado vitimizado pelo início das atividades delinquentes quando roubam um celular “pra tomar uma cervejinha”.

Se o atual governo desejasse combater o crime organizado, sr. Ministro, teria imediatamente reconhecido que o PCC não passa de uma organização terrorista que transformou este estado em um narcoestado.

Mas não esqueçamos. Um narcoestado não pode invocar soberania como motivo de banimento de interferência de nações estrangeiras em seus negócios porque os crimes são transnacionais, são verdadeiros crimes contra a humanidade, sem fronteiras, sem nacionalidade.

E ainda há quem advogue para esse tipo de gente.

Bom, eu lembrei do Armando Falcão: “Nada a declarar”.

O acontecimento provavelmente foi um ato terrorista porque praticado nos moldes das execuções típicas. Mas há uma certeza: não foram tiros de colecionadores ou desportistas. E é por isso que eu lembrei da sugestão que fiz para a biografia do ex-ministro: Nada a esconder.

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