A CUMPLICIDADE IMPUNE: o retrato que desfigura a realidade

Ano 14 – vol. 03 – n. 36/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19255713

A vida é um retrato. Pode ser simples ou grandioso, fiel ou enganoso. Tudo depende do olhar de quem a captura. Entre o homem, a máquina fotográfica e a paisagem, há sempre um elemento decisivo: a intenção.

Não é a câmera que mente. É o fotógrafo.

A metáfora permite compreender certos fenômenos institucionais contemporâneos. Há decisões colegiadas que deveriam representar o ápice da racionalidade, da ponderação e da responsabilidade pública. Espera-se delas a síntese equilibrada de múltiplos olhares, o cuidado técnico, a fidelidade à realidade social. Mas, não raro, o que se vê é outra coisa: um retrato cuidadosamente construído para não mostrar aquilo que todos já sabem.

O texto que inspira esta reflexão aponta com precisão para essa distorção. Há os que encontram a agulha no palheiro — a exceção elevada à regra para justificar o injustificável. E há os que desfocam a lente — não para revelar nuances, mas para obscurecer o que deveria ser evidente. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a deformação da realidade.

Quando isso ocorre no exercício do poder, o problema deixa de ser estético e passa a ser ético.

O ponto mais agudo da alegoria está na ideia de que há algo que não se manipula: o instante em que o obturador se confunde com o caráter. Nesse momento, não há técnica que salve. Não há hermenêutica que recupere. O defeito já não está na imagem, mas na formação de quem a produziu.

E é aqui que a cumplicidade deixa de ser suspeita e passa a ser evidência.

Decisões que ignoram a realidade social, que relativizam condutas graves ou que produzem efeitos seletivos não surgem no vazio. Elas são, muitas vezes, fruto de ambientes em que relações pessoais, vínculos familiares ou compromissos não declarados contaminam o olhar de quem decide. O colegiado, que deveria funcionar como mecanismo de correção, transforma-se em espaço de validação mútua.

Não se trata de erro isolado. Trata-se de padrão.

A insistência na distorção produz um efeito ainda mais corrosivo: a normalização da impunidade. Quando a imagem manipulada se repete, ela deixa de ser percebida como exceção. A sociedade passa a conviver com o absurdo como se fosse paisagem natural. O que antes causava indignação passa a gerar apenas resignação.

É a pedagogia silenciosa da conivência.

Vêem à lembrança os “lambe-lambes” — fotógrafos de praça que capturavam imagens imediatas — como reforço à ideia de que a vida cobra. Pode-se até tentar negociar o presente, ajustar o enquadramento, suavizar os contornos. Mas há algo que escapa: o registro histórico. Ainda que não haja fotografia formal, permanece a memória da mercancia.

E essa memória não é indulgente.

Há ambientes em que a sinceridade é explícita — ainda que moralmente questionável — a revelar um contraste incômodo. Onde não se promete virtude, não há hipocrisia. Já nos espaços institucionais, onde a retidão é pressuposto, a dissimulação produz um efeito mais grave: a corrosão da confiança pública.

Quando se cobra fidelidade à ordem jurídica ao mesmo tempo em que se a negocia nos bastidores, o que se tem não é apenas incoerência — é ruptura.

No fim, restam os três elementos da alegoria: o homem, a máquina e a paisagem. A máquina continua neutra. A paisagem continua lá, com suas tensões e suas verdades incômodas. O que se altera é o homem — ou, mais precisamente, a sua disposição de ver e mostrar.

E quando o homem decide não ver, ou ver apenas o que lhe convém, o retrato deixa de ser instrumento de revelação e passa a ser ferramenta de encobrimento.

A consequência é inevitável: a transformação daquilo que deveria ser expressão de civilização em uma redoma artificial, onde tudo parece sob controle enquanto, fora do enquadramento, a realidade apodrece.

Nesse cenário, a divisão torna-se clara — e perturbadora: de um lado, os que nada devem e passam a temer; de outro, os que tudo devem e já não temem nada.

A cumplicidade, quando se torna método, não apenas protege — ela legitima. E, ao legitimar, perpetua.

O retrato, então, já não é memória. É prova.

A COR DA CAMISA, O PESO DA HISTÓRIA: Uma carta à Nike

ANO 14 – VOL. 03 – N. 34/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19208489

VERSÃO E PORTUGUÊS

À Nike, Inc.

One Bowerman Drive

Beaverton, Oregon 97005, USA

Assunto: Protesto formal quanto ao uso da expressão “BRASA” na camisa da Seleção Brasileira

Prezados Senhores,

Escrevo na condição de cidadão brasileiro e consumidor para expressar formalmente minha preocupação e protesto em relação ao recente lançamento da camisa da Seleção Brasileira de Futebol, especificamente quanto à utilização interna da expressão “BRASA”.

A justificativa de que “BRASA” refletiria uma suposta forma popular de referência entre os brasileiros não corresponde à realidade histórica ou cultural. A Seleção Brasileira sempre foi identificada, de forma consistente, tanto no âmbito nacional quanto internacional, pela abreviação “BRA”.

A introdução desse termo — especialmente diante das especulações públicas acerca de possíveis alterações futuras na identidade tradicional da equipe — suscita preocupações legítimas quanto à integridade de um símbolo nacional dotado de profundo significado cultural. A Seleção Brasileira não é apenas uma marca comercial; trata-se de um elemento da identidade nacional.

Sob a perspectiva do consumidor, a utilização de uma denominação desprovida de fundamento histórico ou cultural reconhecido pode ser compreendida como potencialmente enganosa ou, ao menos, incompatível com as legítimas expectativas daqueles que adquirem produtos oficiais vinculados à representação nacional.

Diante da sensibilidade do tema, solicito respeitosamente:

  • Esclarecimentos acerca dos critérios e fundamentos que motivaram a adoção do termo “BRASA”;
  • Garantia de que não há qualquer iniciativa em curso destinada a alterar ou reinterpretar a identidade histórica da Seleção Brasileira;
  • Consideração quanto às implicações culturais e reputacionais decorrentes de decisões dessa natureza.

Apresento esta manifestação de boa-fé, com o devido reconhecimento à relevância global dessa empresa, e confio que a questão receberá a atenção que merece.

Aguardo manifestação.

Atenciosamente,

José Cláudio Pavão Santana
Brasileiro e torcedor da Seleção Brasileira

THE COLOR OF THE JERSEY, THE WIEGHT OF HISTORY: A Letter to Nike

Ano 14 – vol. 03 – n. 33/2026


https://doi.org/10.5281/zenodo.19207149

To Nike, Inc.
One Bowerman Drive
Beaverton, Oregon 97005, USA

Subject: Formal Protest and Notice of Consumer and Reputational Concern

Dear Sir or Madam,

I write, in my capacity as a Brazilian citizen and consumer of your products, to formally express my protest and deep concern regarding the recent launch of the Brazilian National Football Team jersey and, in particular, the internal use of the designation “BRASA.”

The justification reportedly presented—namely, that “BRASA” reflects a supposed popular reference among Brazilians to the national team—does not correspond to the historical, cultural, or sporting reality. The Brazilian National Team has been consistently and internationally identified by the abbreviation “BRA,” a designation widely recognized and institutionally consolidated.

It is not the first time that this company appears to have associated its branding decisions with ideological narratives that are external to, and incompatible with, the historical and symbolic identity of the Brazilian National Team. In this context, the introduction of the term “BRASA”—particularly when accompanied by widespread public speculation regarding a potential future adoption of a red kit—raises legitimate concerns as to whether there is an underlying attempt to gradually reshape a national sporting symbol in alignment with specific ideological preferences.

Such an approach, if confirmed, represents a matter of serious concern. The Brazilian National Team is not merely a commercial asset; it constitutes a symbol of national identity, with deep historical and cultural significance. Any attempt—whether direct or indirect—to alter or reinterpret this identity through marketing strategies lacking transparency and authenticity may be perceived as a misrepresentation of cultural heritage and, consequently, as a breach of the trust placed by consumers in your brand.

Furthermore, from a consumer protection perspective, the use of a designation that does not reflect recognized or established terminology may be understood as misleading or, at the very least, as incompatible with the legitimate expectations of consumers who acquire official products associated with national symbols.

It must also be noted that the current public discourse surrounding this matter has already generated reputational implications, both for your company and for the integrity of the symbols involved. In an increasingly interconnected environment, corporate decisions that intersect with national identity and political sensitivities demand a heightened standard of diligence, neutrality, and respect.

In light of the foregoing, I hereby formally:

  1. Register my protest against the use of the term “BRASA” in association with the Brazilian National Football Team;
  2. Request clarification regarding the criteria and decision-making process that led to its adoption;
  3. Urge this company to refrain from any initiative that may be construed as an attempt to ideologically reinterpret or alter symbols of national representation; and
  4. Reserve my rights, as a consumer, to pursue any appropriate measures should such practices persist or evolve in a manner detrimental to consumer trust and cultural integrity.

This communication is made in good faith and with due respect for the relevance of your company in the global sports industry. It is precisely for this reason that a response consistent with the seriousness of the matter is expected.

Yours faithfully,

José Cláudio Pavão Santana
Brazilian citizen and supporter of the Brazilian National Football Team

A LÁGRIMA E O PALCO: Quando o choro deixa de ser dor e passa a ser estratégia

Ano 14 – vol. 03 – n. 31/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19149448

Há algo de profundamente humano no choro. Ele nasce onde as palavras falham e, por isso mesmo, carrega uma espécie de legitimidade quase instintiva. Quem chora, em regra, não precisa explicar-se. A lágrima fala por si. É linguagem primitiva da dor, da perda, do amor e até do arrependimento.

Mas é justamente por essa força simbólica que o choro também pode ser capturado — e, não raro, instrumentalizado.

A imagem de alguém chorando na chuva é poderosa. A água que cai do céu dilui a lágrima, apaga seus contornos e torna indistinguível o que é íntimo e o que é circunstancial. Ainda assim, quando a dor é verdadeira, pouco importa se alguém a vê. A lágrima autêntica não precisa de plateia; ela apenas acontece.

O problema começa quando o choro deixa de ser expressão e passa a ser encenação.

Entre esconder a lágrima e revelar a alma, existe um espaço perigoso: o da simulação. Nesse território, o gesto não traduz o sentimento — ele o substitui. A lágrima já não nasce da dor, mas da conveniência. Não é consequência, é estratégia. E, nesse ponto, o que deveria revelar a verdade passa a funcionar como seu disfarce mais eficaz.

Vivemos tempos em que a exposição pública é moeda corrente. Declarações, notas, discursos — tudo é cuidadosamente construído. Não surpreende, portanto, que o choro também tenha sido incorporado a esse repertório. Há lágrimas que surgem no momento exato, diante das câmeras certas, com a intensidade calibrada para produzir o efeito desejado: compaixão, absolvição, esquecimento.

Não se trata de negar a dor humana. Todos choram — e devem chorar. Há dignidade no sofrimento assumido, há grandeza na fragilidade reconhecida. O homem que chora por amor, por perda ou por arrependimento verdadeiro não se diminui; ao contrário, se revela.

O que se questiona é outra coisa: a lágrima que não brota da consciência, mas da necessidade de escapar dela.

Há um tipo de choro que não pede perdão, apenas tenta evitá-lo. Não busca redenção, mas indulgência. É o choro que antecede a responsabilização e tenta, por antecipação, neutralizá-la. Nesse caso, a emoção não é confissão — é cortina de fumaça.

E aqui reside a inversão mais grave: quando o sofrimento encenado passa a ocupar o lugar da verdade. Quando a forma substitui o conteúdo. Quando a aparência pretende reescrever os fatos.

Mas há um limite que nenhuma encenação consegue ultrapassar: o tempo.

O tempo tem uma qualidade implacável — ele dissolve narrativas artificiais e expõe a substância dos acontecimentos. Pode tardar, mas revela. Pode ser lento, mas não falha. E, diante dele, não há lágrima suficientemente bem ensaiada que consiga sustentar uma versão que não corresponda à realidade.

A experiência social já ensinou, reiteradamente, que aparência não é fato. E fatos, por mais que se tente abafá-los, possuem uma resistência própria. Eles insistem em emergir, em reaparecer, em reconstruir aquilo que a encenação tentou distorcer.

Por isso, não se trata de desacreditar o choro — mas de recolocá-lo em seu devido lugar.

A lágrima verdadeira não precisa convencer ninguém; ela apenas existe. Já a lágrima fabricada depende do olhar alheio, da adesão do público, da suspensão momentânea do juízo crítico. É frágil, embora pareça intensa. É vazia, embora pareça profunda.

Chore quem quiser. O choro é humano, necessário, por vezes inevitável.

Mas é preciso distinguir: há lágrimas que revelam a alma — e há aquelas que apenas tentam escondê-la.

AGULHA EM PALHEIRO: Entre a descrença e a necessidade de reconstrução

Ano 14 – vol. 03 – n. 30/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19111732

Há expressões populares que sobrevivem ao tempo porque capturam, com precisão quase cruel, a experiência humana. “Procurar uma agulha em um palheiro” é uma delas. Traduz o improvável, o quase impossível — e, não raro, o desesperador.

Aplicada ao Brasil contemporâneo, a metáfora deixa de ser exagero retórico para assumir contornos de diagnóstico. Encontrar integridade em meio a sucessivos escândalos já não parece tarefa árdua apenas; aproxima-se perigosamente do improvável.

Se tomarmos, ainda que de forma arbitrária, os últimos trinta anos como recorte histórico, o que se vê é a consolidação de um ambiente em que a corrupção deixou de ser exceção para assumir ares de método. Não se trata mais de episódios isolados ou desvios pontuais. O que se desenha é um padrão persistente, adaptável e, sobretudo, resiliente.

A cada novo escândalo, a sensação não é de surpresa, mas de confirmação. O espanto cede lugar ao cansaço. E talvez esse seja o dado mais preocupante: a normalização do inaceitável.

Comparações outrora hiperbólicas — como aquelas que evocavam organizações mafiosas — passam a soar tímidas diante da complexidade e da sofisticação dos esquemas revelados. A corrupção, antes circunscrita a determinados espaços de poder, expandiu-se. Transbordou. Hoje, infiltra-se em múltiplas camadas institucionais, tornando difusa a linha que separa o lícito do ilícito, o público do privado, o dever do interesse.

Nesse cenário, emerge uma inversão perturbadora: torna-se mais difícil identificar a integridade do que reconhecer a desonestidade. A distinção entre joio e trigo, como bem sugere a tradição bíblica, passa a exigir um grau de discernimento que a realidade concreta já não facilita.

Os episódios recentes — envolvendo estruturas financeiras, órgãos públicos e agentes investidos de autoridade — reforçam a percepção de que há muito ainda por revelar. O que se vê pode ser apenas a superfície. O “tapete” é grande, e a “vassoura”, ao que tudo indica, tem sido utilizada mais para ocultar do que para limpar.

Nesse contexto, iniciativas voltadas ao controle de narrativas, especialmente no ambiente digital, despertam legítima preocupação. A regulação de espaços de debate é, em si, um tema complexo e necessário. Contudo, quando associada a momentos de crise institucional e a revelações sucessivas de irregularidades, a tentativa de controle pode ser percebida não apenas como política pública, mas como estratégia de contenção de danos. E isso, por si só, já compromete sua legitimidade.

Não é de hoje que denúncias graves são recebidas com descrédito seletivo. Desqualifica-se o mensageiro, relativiza-se o conteúdo, preserva-se o sistema. Durante anos, indícios foram tratados como exageros, boatos ou narrativas inconvenientes. Hoje, parte desse material ressurge sob a forma de fatos, e a realidade parece superar, com folga, qualquer suspeita anterior.

Diante desse quadro, o ceticismo não é apenas compreensível — é, em certa medida, racional. A dúvida quanto à efetividade das punições, quanto à profundidade das investigações e quanto à real disposição de ruptura com práticas arraigadas não nasce do pessimismo gratuito, mas da observação reiterada da história recente.

Ainda assim, é precisamente nesse ponto que se impõe uma distinção fundamental: ceticismo não pode ser confundido com resignação.

A ideia de que combater a corrupção no Brasil é como procurar uma agulha em um palheiro pode traduzir o sentimento coletivo, mas não pode servir de justificativa para a inércia. Ao contrário, deve funcionar como alerta sobre a dimensão do desafio.

Reconstruir uma sociedade com fraturas tão visíveis exige mais do que indignação episódica. Requer instituições dispostas a cumprir, de forma efetiva, suas funções; requer mecanismos de controle que não se dobrem a conveniências; requer, sobretudo, uma cultura política que rejeite o pragmatismo da impunidade.

Não se trata de ingenuidade. A história recomenda cautela. Mas também não autoriza o abandono da esperança.

Porque, no limite, toda transformação institucional relevante começou exatamente assim: em um ambiente de descrença generalizada, onde poucos acreditavam ser possível encontrar a tal agulha.

Talvez ela continue escondida no palheiro. Mas a diferença entre um país que se perde e um país que se reconstrói está em algo simples — e decisivo: continuar procurando.