A PRAÇA E A PLACA

Ano 14 – vol. 03 – n. 28/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19004133

Acostumado a sentar-se no mesmo banco da mesma praça e à mesma hora aquele senhor de cabelos prateados pelo tempo observava o movimento da cidade.

Solitário, embora não sozinho, naquela manhã agradável assistiu a um fiscal da prefeitura, com mais dois ou três auxiliares, afixar uma pequena placa com um sinal de advertência seguido pela inscrição que dizia:

É PROIBIDO pisar na grama.

O que a tantos poderia soar como mais uma simples placa, aos mais precavidos soaria como uma advertência e aos comedidos como uma norma proibitiva empiricamente compreendida; àquele senhor de cabelos embranquecidos despertou uma curiosidade imediata.

Aquela regra contida na placa e aposta no jardim da praça teria sido violada pelo fiscal e seus auxiliares ao pisarem na grama?

Mas não era tudo. Mais longe foi a imaginação daquele senhor ao pretender saber se aquela regra seria suficiente pelo que continha de enunciado ou precisaria de mais alguma coisa para ser compreendida e cumprida?

A praça, figurativamente, é o cenário em que residem todas as alegorias que compõem o ambiente. Assim, bem que a praça poderia ser batizada de LIBERDADE, onde o homem descansava dos anos carregados sobre as costas. A placa bem poderia ser a CONSTITUIÇÃO em que repousa a grama verde pela chuva e que é imune à ação de qualquer jardineiro – a menos que do jardim não cuide.

Aquela placa, portanto, é o parâmetro de toda e qualquer conduta dos homens que sentem naquele banco ou não, porque conquanto esteja afixada no jardim a todos se dirige o comando expresso.

De certo que entre os transeuntes pode soar indiferente a regra, uma vez que seu enunciado presumivelmente se aplicaria apenas àqueles que estão na praça. Mas isso não passa de um engano de perspectiva já que a placa daquela praça contém em seu enunciado bem mais do que prevê, já que diz, com imperfeição (quem sabe!) de enunciado que em todos os jardins de todas as praças é PROIBIDO PISAR NA GRAMA.

Pois os fiscais da prefeitura não se eximem da regra, já que a praça e o jardim compõem o ambiente em que todos vivem e por isso mesmo não podem se eximir da observância impessoal e geral das regras.

Nem queiram alegar que estão investidos do poder de afixar placas pela cidade em outros jardins e isto os tornaria aptos a pisar ou não pisar na grama. Não há, na apreensão do conteúdo, espaço imaginário capaz de receber unção de interpretação construtiva, como se a excepcionalidade sofresse mutação de privilégio.

Na vida, como no conto em ponto estreito, a PLACA contém menos do que CONTEMPLA, seja por enunciado defeituoso, seja por intelecção rasteira, seja por percepção maldosa a produzir delírios de privilégios.

As placas que existem enunciam. Trazem o DITO e o NÃO DITO, mas nem por presunção contemplam a possibilidade de ilação de que existem placas que só a ALGUNS a regra proibitiva ou permissiva se destinam, porque entre homens, praças, bancos e jardins ou se constrói a civilização ou teremos apenas um muro a separar personagens.

Do seu banco, reflexivo, sobre todas essas coisas, aquele homem de cabelos brancos guardava consigo o sentimento silencioso; sentenciou para si mesmo:

Praças com muros viram guetos, daqueles que segregam, que separam, por homens que trazem nas algibeiras as chaves dos porões fétidos, dos campos que viram masmorras, onde é proibido ouvir o canto dos pássaros, sofejar as melodias de liberdade.

Na praça, como na vida, a PLACA sobre o jardim gramado a todos conduz a uma só compreensão: ou TODOS estão sob o enunciado da LEI ou não existirão mais praças, nem bancos, nem homens, nem jardins, nem liberdade.

ELEGIA À MULHER SEM NOME

Ano 14 – vol. 03 – n. 25/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18911219

Não.
Recuso-me a reduzir-te a um único dia.

Como caberia em vinte e quatro horas
a grandeza de quem sustenta o mundo
com mãos tão delicadas
e coração tão vasto?

Não te basta uma data no calendário.
Tu és mais do que isso.
És presença contínua,
luz que atravessa os dias comuns
e os transforma em esperança.

Há quem ainda não saiba disso.
Há quem duvide.
Mas eu sei.

Por isso não aceito que te concedam apenas um dia
como quem entrega uma flor
para logo depois esquecê-la.

Bastar é palavra pequena,
e tu não cabes no finito.

Se preciso for,
eu digo em voz alta —
quase como quem reza:

meu amor por ti não conhece limites.
Ele não termina na noite
nem se perde na passagem do tempo.

Mulher sem nome,
que poderia ter todos os nomes,
mãe, filha, amante, amiga, companheira,
mistério e abrigo.

Em ti há um caleidoscópio de cores e afetos,
um universo inteiro que pulsa
entre força e ternura.

Às vezes és tempestade,
às vezes silêncio,
mas sempre verdade.

E então façamos um acordo simples,
desses que não precisam de testemunhas:

hoje —
e em todos os dias que ainda virão —

eu em ti,
tu em mim.

Sempre.

Até o fim.

LAMPIÃO E LAMPARINA

Ano 14 – vol. 03 – n. 22/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18864883

Há lembranças de infância que permanecem acesas mesmo quando o tempo insiste em apagá-las. No meu caso, elas brilham com a luz modesta de três personagens domésticos: o petromax, a lamparina e o lampião.

Quando eu brincava no sítio Vililma, propriedade de vovô Pavão, às margens do Rio de São João, essas palavras faziam parte natural do vocabulário cotidiano. À noite, quando o sol se recolhia e a escuridão tomava conta do campo, era a luz dessas engenhocas que permitia as conversas demoradas, as histórias contadas sem pressa e as rodas de violão conduzidas por vovô. Não havia rede elétrica, mas havia algo talvez mais raro hoje: tempo, silêncio e convivência.

O tempo passou. O petromax foi aposentado, a lamparina virou peça de memória e o lampião ficou guardado como símbolo de um Brasil rural que já não existe. Mas eis que, de forma inesperada, a palavra voltou ao noticiário — não pela lembrança da infância, mas por uma declaração presidencial que misturou história, bravata e uma boa dose de imaginação política.

Segundo a fala divulgada, o presidente norte-americano deveria ter mais cautela com o Brasil se conhecesse a “sanguinidade de Lampião do brasileiro”. A frase, evidentemente, não se referia ao objeto luminoso que iluminava as noites de minha infância, mas ao cangaceiro Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, que para alguns virou personagem folclórico e para outros permanece apenas como aquilo que de fato foi: um bandoleiro sanguinário do sertão.

É curioso observar como certos discursos políticos recorrem a heróis improváveis quando falta argumento real. Invocar Lampião como símbolo de bravura nacional talvez funcione em palanque ou em roda de admiradores entusiasmados. Já no campo da realidade estratégica, a coisa se complica um pouco.

Imagino, com certo esforço de humor, o temor que tal advertência provocaria em Washington. Afinal, estamos falando da maior potência militar do planeta sendo advertida sobre a bravura cangaceira do brasileiro. A cena, se levada a sério, beira o teatro do absurdo. Em termos militares objetivos, bastaria uma aeronave moderna e poucos minutos para que qualquer bravata tropical fosse substituída por um silêncio bastante constrangido.

Daí a dúvida inevitável: tratou-se de bazófia, delírio retórico ou apenas de mais um episódio do folclore político contemporâneo? Não é fácil distinguir. Às vezes a política brasileira produz frases que parecem saídas de uma comédia involuntária.

Seja como for, a declaração teve ao menos um mérito involuntário: fez-me recordar o velho lampião da infância. Aquele, sim, tinha utilidade concreta. Iluminava as noites, ajudava a reunir pessoas e não pretendia intimidar superpotências.

Ao final da reflexão, resta uma conclusão simples. Nem o lampião que clareava as rodas de violão no sítio Vililma, nem o cangaceiro que a história transformou em mito regional teriam a menor capacidade de alterar o equilíbrio geopolítico do planeta.

Mas ambos servem, cada um à sua maneira, para iluminar algo curioso: a distância abissal entre a memória tranquila do passado e o espetáculo retórico da política presente.

O BLOCO DOS SUJOS

Ano 14 – vol. 02 – n. 15/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18649210

Há carnavais e há carnavais. O que se anuncia nas ruas, com batuques e fantasias improvisadas, é apenas a parte visível da festa. O outro — mais silencioso e mais caro — acontece longe da multidão que o financia. O carnaval é deles; a conta, invariavelmente, é nossa.

Somos os tributados da agonia. Enquanto a arrecadação cresce e os serviços públicos se comprimem, há camarotes onde o confete não é de papel, mas de cifras. Vinhos raros, uísques concentrados, champagnes selecionadas. O luxo não se mistura à massa. Ele observa de cima. Não há suor nem aperto. Há ar-condicionado, brindes calculados e discursos coreografados.

Não se trata aqui de moralismo contra a festa popular. O Carnaval é expressão cultural legítima. É arte, é música, é crítica social quando quer ser. O problema é outro: enquanto o povo se embriaga com quatro dias de euforia, o bloco dos sujos desfila o ano inteiro. E seus integrantes não usam fantasia. Vestem gravatas, togas, fardas, mandatos.

O baile não é o último da República imperial, mas pode ser prenúncio de cinzas institucionais. O cenário mistura requinte e promiscuidade política. Negócios travestidos de política pública. Verbas que escorrem como serpentinas invisíveis. Programas sociais convertidos em moeda eleitoral permanente. O assistencialismo que deveria ser ponte vira âncora. O que seria instrumento de emancipação torna-se mecanismo de dependência conveniente.

Enquanto isso, a multidão se acotovela nas ruas. Bandos, bandas, bandidos — tudo se confunde. Há alegria genuína, há excessos previsíveis, há sujeira literal e simbólica. Dejetos espalhados pelo asfalto como metáfora involuntária de uma degradação mais profunda. A vida pública também é desafiada, mas não por foliões anônimos. É desafiada por aqueles que sambam sobre o orçamento e dançam sobre a responsabilidade fiscal.

O povo canta. O bloco oficial conta. Conta votos, conta repasses, conta o quanto pode prolongar o espetáculo da dependência. A lógica é antiga: entretenha-se a massa, organize-se o poder. A fórmula latina ecoa com desconfortável atualidade — panis et circenses. Pão distribuído sob cálculo político; circo transmitido em alta definição.

Não há aqui condenação à cultura. O Carnaval não é o inimigo. O inimigo é a naturalização do desvio. É a indiferença diante do requinte financiado por quem mal equilibra as próprias contas. É a resignação que transforma o cidadão em espectador permanente de um espetáculo que o onera.

O bloco dos sujos não está necessariamente na rua. Está nas estruturas que confundem público e privado, necessidade e conveniência, assistência e submissão. E, enquanto as serpentinas caem, o desfile continua — não na avenida, mas nos corredores do poder.

Talvez o maior problema não seja a festa. Seja a quarta-feira que nunca chega para certos foliões. Porque, para eles, não há cinzas. Apenas novos enredos, novas fantasias retóricas e a certeza de que, no próximo ano, a bateria continuará tocando — paga, como sempre, pelos mesmos.

O SALÃO DOS ESPELHOS

Ano 14 – vol. 02 – n. 13/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18621797

Dizem que a República se sustenta sobre três colunas. Dizem também que elas são independentes, harmônicas e impermeáveis às tentações do ouro. Dizem muitas coisas. O problema é que, em certos salões discretos, a arquitetura parece outra.

Não falo de provas judiciais nem de nomes próprios. Falo de fatos noticiados, de investigações abertas, de fotografias que circulam, de agendas que se cruzam, de jantares que não constam em atas. Falo de uma atmosfera. E atmosferas, ainda que invisíveis, moldam comportamentos.

Na cidade imaginária de Auristela — que guarda estranha semelhança com capitais bem conhecidas — havia um clube frequentado por homens de toga invisível e ternos sob medida. O cardápio era sofisticado, mas o prato principal não estava na mesa: era a influência. Empresários discutiam “ambiente regulatório”, magistrados falavam em “segurança jurídica”, e todos brindavam à “estabilidade institucional”. As palavras eram nobres; os silêncios, mais eloquentes ainda.

A República pressupõe distância. Não hostilidade, mas distância. O juiz não é inimigo do empreendedor; tampouco seu sócio. O empresário não é adversário do Estado; tampouco seu tutor. Quando essas fronteiras se tornam nebulosas, nasce uma promiscuidade que não precisa de assinatura em contrato. Basta o costume.

Em Auristela, dizia-se que tudo era legal. E talvez fosse. O problema é que a legalidade estrita nem sempre coincide com a moralidade pública. Há condutas que escapam ao tipo penal, mas ferem o senso republicano. A Constituição, afinal, não é apenas um código de proibições; é um pacto de expectativas. Espera-se imparcialidade de quem julga. Espera-se equidistância de quem decide conflitos que envolvem bilhões e destinos coletivos.

Quando empresários patrocinam eventos jurídicos em que autoridades são homenageadas; quando palestras são remuneradas com cifras incompatíveis com a modéstia republicana; quando viagens “acadêmicas” coincidem com interesses empresariais sob julgamento; quando ex-juízes atravessam a rua e passam a advogar para aqueles que ontem estavam sob sua jurisdição — não se trata apenas de estética. Trata-se de confiança.

A confiança pública é um ativo invisível. E, como todo ativo, pode ser corroída. Não por um escândalo isolado, mas por uma sucessão de pequenas concessões. O cidadão comum não acompanha os autos; acompanha os sinais. E os sinais, muitas vezes, são ruidosos.

Em Auristela, criou-se uma expressão curiosa: “amizade institucional”. Soava elegante. Na prática, significava proximidade reiterada entre quem decide e quem depende da decisão. Não havia ordens explícitas, não havia envelopes pardo. Havia algo mais sutil: a naturalização do convívio. A banalização da deferência. O sorriso cúmplice que substitui o argumento técnico.

O risco não é apenas a corrupção clássica, que já seria grave. O risco maior é o viés. O juiz não precisa ser comprado; basta ser convencido de que determinados interesses coincidem com o “bem do país”. E quem define o bem do país quando a mesa é restrita?

A ficção de Auristela não acusa indivíduos. Ela questiona estruturas. Questiona a ausência de limites claros para palestras remuneradas, para encontros privados, para portas giratórias entre o público e o privado. Questiona a tolerância cultural com a proximidade excessiva. Questiona, sobretudo, a inversão simbólica: quando o empresário passa a se sentir coproprietário do sistema de justiça, e o magistrado, convidado permanente da elite econômica.

República não é apenas forma de governo; é método de contenção do poder. O poder econômico precisa de freios. O poder jurisdicional também. Quando ambos se entrelaçam sem transparência, os freios enfraquecem.

Talvez alguém diga que isso é exagero, que sempre foi assim, que o mundo real funciona por redes de confiança. Pode ser. Mas a República não foi concebida para ser confortável; foi concebida para ser vigilante. A proximidade que tranquiliza os poderosos inquieta os cidadãos.

No fim, Auristela permanece de pé. Os salões continuam iluminados. Os brindes seguem discretos. Mas lá fora, na praça pública, cresce a desconfiança. E uma República pode sobreviver a crises econômicas, a disputas políticas e até a erros judiciais. O que dificilmente suporta é a erosão silenciosa da credibilidade.

Porque quando o juiz parece próximo demais do réu poderoso — ou do patrocinador invisível — não é apenas um processo que fica sob suspeita. É o próprio ideal de justiça que começa a refletir, como em um salão de espelhos, a imagem distorcida de quem pode pagar pelo melhor ângulo.