FEIRA TROPICAL – HOMENS E FRUTAS

Ano 11 – vol. 09 – n. 53/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.8326120

Não há coisa mais colorida do que uma feira, sobretudo nas barquinhas ou nas gôndolas de frutas. Enche os olhos de qualquer um.

São abacates, mangas, abacaxis, bananas, atas (ou fruta do conde, ou pinha – dependendo da região), goiabas, mamões, melancias, enfim, é uma aquarela de cores e um exalar de perfumes que a todos (ou quase) encanta e não deixa de transmitir uma certa vontade de avançar.

Há nas frutas uma magia que pode traduzir hábitos, costumes e até personalidades, porque passam a adjetivar pessoas, inclusive, nos apelidos dos tempos de escola, quanto a fragilidade não era uma elegia de fracos que, hoje, se confessam frágeis diante da vida que os arrebatará.

Quando “orelha de abano”, “bunda de jaca”, “lombriga”, “cabeça de mamão”, “zarolho”, ou, ainda, “deixa que eu chuto” poderiam traduzir insultos? Quando muito arrancar risos! Sim, às vezes, levavam à porrada, não sem antes participar do acontecimento um mediador de conflitos (na realidade um instigador) que anunciava o embate dizendo: É mais homem quem pisar na linha primeiro; ou quem bater aqui primeiro. Enfim, quem aquiescesse primeiro ao desafio já levava vantagem na nossa imaginação.

Depois, as frutas, que eram vendidas de porta em porta, passaram a ser comercializadas em centrais de abastecimento, que distribuíam aos mercados centrais. Estes, passaram apenas a ser mais centros de distribuição às frutarias dos bairros, aos mercadinhos, às quitandas, enfim, às feiras que ainda resistem.

As frutas, como disse antes, podem traduzir o perfil de muitos. Um menino pimenta virou o iterativo. O homem banana virou o apático. Mas há os que viraram melancias, daquelas que são traiçoeiras na cor ou no sabor, porque podem apresentar uma capa bem verde e mesmo o acentuado vermelho do fruto pode não revelar um sabor agradável.

Senti saudades dos tempos da escola quando, obedecendo fielmente às normas cívicas que nos exigiam disciplina e culto aos símbolos nacionais, desfilávamos solenemente pela cidade, orgulhosos de homens e instituições que sabíamos existirem para nos proteger. Naquela época, saudosismo ou não, todos nós sabíamos que melancia eram só frutas.

Hoje, aqui em casa, a sobremesa será melancia – a fruta. As bananas parecem não estar maduras com a chegada da praga no campo. Talvez apodreçam antes do tempo.

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