ENTRE EXEMPLOS E CONSELHOS: A CONTA CHEGOU

Ano 12 – Vol. 11 – N. 64/2024

O senso comum afirma que se conselho fosse pago (ou bom) ninguém daria de graça. Há, certamente, os conselhos pagos, como aqueles que são prestados por profissionais qualificados em vários setores produtivos. Mas conselho que é bom não pode ser dado a quem não tenha disposição para o aprendizado.

Muito a propósito do que escrevo é fruto de um conselho (e mais um dos muitos conselhos sábios) de meu pai que costumava dizer: Meu filho, existem pessoas que se metem a dar conselhos sem conseguir dar exemplos. Pois é, aquele conselho que me foi dado tinha fonte legítima e retrata bem o momento em que vivemos.

A conta chegou. Não falo do “grosso que vai entrar” como chegou a afirmar o apedeuta, mas a conta que o crime organizado está cobrando e vai ainda mais longe pela falta de compromisso político para enfrentá-lo.

Ontem, ao que parece um desequilibrado mental, resolveu explodir alguns artefatos (seriam bélicos?!) na Praça dos Três Poderes, no mesmo dia em que uma militante de esquerda invadiu as redes sociais confessando que adoraria sequestrar deputados e obrigá-los a assinar propostas legislativas, depredar o patrimônio público e tudo o mais o que a insanidade lhe possibilitou dizer. Fora os insanos que apareceram nas redes sociais gritando descontroladamente pela eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Gritarão mais ainda: os republicanos ganharam o controle do senado e da câmara daquele país.

Todos estes acontecimentos não encontram como solução a regulamentação das redes sociais. Aliás, está bem claro que esse tipo de proposta outra coisa não pretende se não instituir o silêncio geral, o cala a boca próprio dos regimes autoritários que a história registra. 

Também não se pode esperar como solução que um projeto de criação de uma guarda nacional possa prosperar, notadamente depois do que se viu acontecer na vizinha Venezuela, como já havia ocorrido em Cuba ou em qualquer outro lugar em que a miséria humana foi a única contribuição dessa gente que diz defender a democracia, mas vive em uma ilha de autoritarismo a apontar o dedo para quem não concordar com seus delírios.

Então, onde residiria toda a causa desse cenário preocupante? Bom, na própria democracia, ou na deformidade com que ela tem sido deliberadamente subvertida.

Lembram quando o Poder Judiciário começou a se imiscuir onde não lhe é constitucionalmente previsto? Lembram que de nomeação de autoridade, passando por impedimento de combate ao crime, chegou-se a suprimir regras mínimas do devido processo legal? Lembram quando competências privativas do Executivo e do Legislativo passaram a ser ignoradas? Pois é, grande parte da conta está em mãos de quem deveria assegurar equilíbrio e independência (prefiro achar que se trata de autonomia dos poderes) mas preferiu se posicionar em cenário pantanoso como o da política.

É claro que não se pode concluir que todos esses acontecimentos sejam de responsabilidade apenas de quem tem a competência de julgar, apenas de julgar. É possível que a desídia, a negligência e (quem sabe?) a prevaricação de membros dos demais Poderes tenha contribuído para esse cenário.

Faltam-nos exemplos de obediência às regras constitucionais que, de tão claras e óbvias, não se emprestam a elasticidades quiméricas de hermenêuticas ocasionais. 

Mas não se pode esquecer que a imprensa descompromissada com a ética, moral, bons costumes e a verdade de fatos, também tem seu grau de culpa quando insiste em tornar vítima da sociedade quem fez uma opção pelo crime. Não é condição de delinquência a ausência de escola, porque discernir o certo do errado se aprende em casa, se aperfeiçoa na escola e se consolida com a vida.

O cenário é dos mais graves e as autoridades sabem disso. Só não querem perder o protagonismo e, falando em democracia, subvertem regras e impõem soluções inatingíveis como se estivessem no delírio dos saraus regados a bons vinhos, queijos, lagostas e outras especiarias.

O crime organizado está fazendo a todos reféns. Enquanto as autoridades não tiverem a sensibilidade de refletir que elas estão se pondo acima de tudo e de todos, o crime organizado as põe sob risco real. Ontem foi um desequilibrado. E amanhã?

Não estou aqui com a pretensão de dar conselhos e sequer exemplos. Sou apenas mais um refém que, ao sair de casa para a Academia e ensinar que a Constituição deve ser cultivada com compromisso e comprometimento, não tem a segurança se voltará para casa. É que a conta chegou e eles estão cada vez em maior número, livres e soltos.

É hora de começar a dar exemplos, porque caso contrário, com a progressão geométrica do crime no Brasil, faltará quem possa dar conselhos.

Deixe uma resposta