Ano 13 – vol. 11 – 104/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17651283
Há juízes em Berlim. A expressão, celebrizada pelo conto de François Andrieux, remete ao episódio ocorrido no século XVIII, quando Frederico II da Prússia, desejoso de ampliar o palácio de Sans-Souci, tentou adquirir — ou simplesmente tomar — as terras onde funcionava o moinho de um simples moleiro. Diante da pressão real, o proprietário respondeu com altivez: “Ainda há juízes em Berlim”.
A frase atravessou séculos como símbolo da independência judicial, da contenção do arbítrio e do dever de submeter o poderoso ao escrutínio da lei.
Serve-me o conto para lembrar que, se há juízes em Berlim, falta por aqui bom senso. E talvez também faltem juízos capazes de enxergar que o choque de realidade não deveria chocar o cotidiano — salvo quando um estrangeiro, dizendo o óbvio, revela aquilo que nós nos habituamos a ignorar: o dever de casa não foi feito.
Há, por essas bandas, uma espécie de febre alérgica na imprensa remunerada, que rapidamente se converte em porta-voz de governos para defender o indefensável. Em vez de ponderar a crítica, prefere blindar administradores que, há décadas, empurram para debaixo do tapete índices calamitosos de pobreza, ausência estrutural de saneamento básico, impactos sociais permanentes e políticas públicas erráticas.
Nada há contra o povo daquela terra. E disso realmente não tratou o homem de Berlim.
O chanceler alemão não apontou o dedo para o cidadão comum — muito menos para a cultura local, para sua gente ou para suas tradições. Limitou-se a constatar o que o mundo inteiro viu: a bagunça, a gastança, o esbanjamento e as agressões ambientais cometidas em um evento que jurava defender o meio ambiente.
O paradoxo é tão evidente que dispensa maiores sofisticarias: gastou-se como se tudo estivesse resolvido, quando os indicadores sociais e urbanos mostram precisamente o contrário.
É sempre assim. Quando se ouve a verdade, logo se tenta criar uma narrativa paralela, dessas que nem em mesa de bar se sustentam.
O mais sensato seria simplesmente ouvir — e, sobretudo, demonstrar ao chanceler que tudo pode melhorar.
Mas isso só ocorrerá quando políticos e administradores fizerem o que jamais foi prioridade: assumir responsabilidades, enfrentar problemas reais e transformar a realidade sobre a qual ele falou.
No mais, cabe abraçar o povo de Belém — digno, resiliente e vítima crônica da negligência estatal — e desprezar seus representantes inoperantes, que preferem a maquiagem mal feita à mudança efetiva.
E reconhecer que, sim, há juízes (e juízos) em Berlim capazes de compreender o óbvio: quem denuncia o descaso não ataca o povo, mas revela o fracasso de quem deveria governar para ele.
Resumindo: foi uma tragédia que virou comédia mundial.
Sim, Belém ficou caricata diante de Berlim — e não porque a Alemanha seja melhor, mas porque ali ainda ecoa a velha lição do moleiro: o poder, quando erra, deve ser confrontado — nunca protegido.