PROMISCUIDADE “ON THE ROCKS”: moralidade republicana e o decoro das instituições

Ano 14 – vol. 03 – n. 27/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18958472

Há memórias que sobrevivem ao tempo porque não são apenas lembranças afetivas. Elas carregam lições de vida. A recordação que guardo de meu pai está entre essas. Mais do que a educação doméstica e a formação cristã vigorosa, ele possuía algo que hoje parece escasso no espaço público brasileiro: um senso claro de valores e limites éticos.

Nem sempre a juventude é fiel às advertências que recebe. Em certos momentos, a imprudência própria da idade leva a escolhas equivocadas. Contudo, alguns ensinamentos permanecem e retornam com força ao longo da vida. Um deles, repetido por meu pai, era simples e exigente ao mesmo tempo: ser ético é agir corretamente mesmo quando ninguém está olhando — e ter a certeza de que, se alguém olhasse, não se envergonharia de nossas atitudes.

Esse princípio veio-me novamente à memória quando o país foi surpreendido por notícias que relatam um encontro ocorrido no exterior. À mesa, segundo amplamente divulgado pela imprensa, teriam estado ministros do Supremo Tribunal Federal, o Diretor-Geral da Polícia Federal, o Procurador-Geral da República e um banqueiro atualmente preso e investigado por um amplo conjunto de crimes que, somados, poderiam significar décadas de prisão.

Independentemente de versões ou justificativas que venham a ser apresentadas, a simples existência de um encontro dessa natureza provoca perplexidade. Não se trata de mera formalidade social. Quando autoridades que exercem funções centrais no sistema de justiça se reúnem, ainda mais em ambiente privado e com alguém diretamente envolvido em investigações ou processos relevantes, surge inevitavelmente uma questão de ordem institucional: o decoro.

Recordo então um episódio de minha juventude. Meu pai foi juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão e integrou aquela Corte por diversas reconduções, sempre com reputação ilibada. Certa ocasião recebeu publicamente um convite para jantar na residência do então governador João Castelo, que possuía processo em julgamento no tribunal.

Dentro do carro, curioso, perguntei-lhe se iria ao encontro. A resposta foi imediata:

— Meu filho, como eu poderia olhar para minha família e para as pessoas em geral se eu fosse jantar na casa de quem acabei de julgar? Não seria ético, não seria moral e não haveria decoro da minha parte.

Nunca esqueci aquela frase. E ela retorna agora com força diante das notícias que ocupam o debate público.

O ponto central não é a sociabilidade entre autoridades. O problema é outro: a preservação da confiança institucional. A República exige que aqueles investidos em funções públicas mantenham uma distância prudente de interesses que possam comprometer sua imparcialidade. Não se trata apenas de evitar irregularidades concretas; trata-se de impedir qualquer aparência de promiscuidade entre poder público e interesses privados.

A tradição republicana sempre colocou a moralidade pública como um de seus pilares fundamentais. A separação de poderes, por sua vez, não é apenas uma arquitetura jurídica desenhada nos textos constitucionais. Ela depende de comportamentos que expressem compostura, autocontenção e respeito às fronteiras institucionais.

Quando essas fronteiras se tornam difusas, o risco não é apenas jurídico — é civilizatório.

A história política brasileira é repleta de exemplos em que homens e instituições se confundiram. Como se ainda sobrevivesse entre nós um resquício de mentalidade absolutista, certas figuras parecem acreditar que o cargo público lhes confere uma espécie de imunidade moral. Assim surgem os novos “coronéis das leis”: autoridades que, envoltas em gravatas de seda e relógios de luxo, agem como se estivessem acima das instituições que deveriam servir.

Nesse ambiente, ganha força um paradoxo curioso. Enquanto se multiplica o discurso em defesa do controle das redes sociais sob o argumento da proteção da democracia, cresce também a suspeita de que aquilo que se pretende controlar não é o excesso de informação, mas o excesso de transparência. O problema passa a ser não o fato em si, mas o fato de que o público tenha acesso a ele.

Contudo, em regimes republicanos, a luz pública é um elemento essencial de controle. O segredo e a opacidade são sempre perigosos quando envolvem o exercício do poder.

Diante de episódios como o que veio a público, a única resposta compatível com a ordem constitucional é a investigação rigorosa e transparente. Não se trata de condenar previamente ninguém, mas de reconhecer que a gravidade institucional do fato exige esclarecimento completo.

O silêncio ou o esquecimento não são alternativas aceitáveis. A confiança nas instituições depende da disposição real de examinar condutas e responsabilidades, sobretudo quando envolvem autoridades que exercem funções essenciais na defesa da lei.

Talvez ainda venham à tona novos elementos. A própria imprensa já relata que apenas parte do conteúdo apreendido nos aparelhos do banqueiro foi analisada, enquanto dezenas de outros dispositivos ainda aguardam investigação. O tempo, como sempre, é um aliado da verdade.

O que não pode ocorrer é a naturalização da promiscuidade entre poder e interesse privado. A República não sobrevive sem limites éticos claros.

Talvez, quando tudo isso for devidamente esclarecido, o país possa enfim celebrar uma vitória institucional. Não com uísques raros e charutos importados. Bastaria algo muito mais simples.

Um copo d’água.

Água suficiente para matar a sede de moralidade pública — e, quem sabe, dissolver de vez a promiscuidade “on the rocks”.

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