Ano 10 – vol. 12 – n. 83/2022
Hoje, ao buscar alguns livros que me pudessem responder a inquietações vivas, me deparei com a obra “Brasil: Nunca mais”. Um detalhado relato de acontecimentos dos porões da repressão. Ao seu lado, na mesma prateleira, e com relatos sobre a mesma época, me deparei com o livro “A verdade sufocada”. Duas visões opostas sobre um mesmo período da história.
Há muitos outros livros, claro, porque sempre procurei não ser leitor que buscasse apenas uma versão. Desconfiar é preciso, porque a batalha cultural já nos fez mergulhar no oceano de “bestialização da humanidade” com contribuição estupenda dada pelo Brasil.
Lembro que na época da repressão, por ter comprado um livro que ainda hoje possuo – História de Guerrilhas no Araguaia – fui seguido até minha casa pelo indefectível Fusca branco que conduzia um agente do serviço de informação. Hoje é autoridade de destaque, cujo nome preservo. Do mesmo modo preservo o nome de um dos personagens do livro que foi preso pelo regime militar e voltou a ser no regime civil. Naquela época (muitos acusam), por “dedurar” seus camaradas. Desta feita, por corrupção, o que, com a maturidade de hoje, concluo se tratar de deformidade de caráter, não do regime político. É um dos que mais alardeiam intervir em tudo: das forças armadas à igreja.
Como dizia meu pai, “há pessoas que apodrecem sem conseguir amadurecer”.
Assim era a vida e seus contrastes naquela época.
O que imaginei ter ficado para trás vejo renascer nesses últimos dias, com o vigor de quem se sente acima de tudo, inclusive das normas que vieram para substituir exatamente o entulho que foi denominado de autoritário.
Constatei, infelizmente, que o autoritarismo de hoje não está na farda, mas nos ternos e togas que trajam os homens.
Em prateleira oposta aos livros sobre o período do regime civil-militar (sim, engana-se quem acha que os civis não colaboraram e participaram ativamente para a instauração de um regime excepcional) estão dezenas de livros que tratam de temáticas judiciais, amplamente cuidando de ativismo judicial e político, ao que chamo de criativismo judicial, toda vez que me deparo com as circunstâncias que extrapolem a razoabilidade e o bom senso.
Pois não é que as coisas pioraram? E não foi pela baioneta, mas pelas canetas.
Reclamar e desconfiar viraram sinônimos de posturas “antidemocráticas”. Reclamações e protestos viraram “discurso de ódio”, como se um sistema que formalmente se diz republicano não admitisse cobranças.
É fato que nossa república é tão caricata quanto seus agentes políticos. Basta ver a vergonha que nos tem feito passar o parlamento, um emaranhado de contradições que silencia quando deveria falar, emudece quando deveria reagir.
Na realidade o Brasil continua sendo um território de senhores feudais que se põem acima das leis como uma casta que (em sabedoria popular) faz como água e azeite: se une, mas não se mistura. No caso, nem se une, porque a autoridade passou a lançar ameaças quando se vê na berlinda, não escondendo que prefere ser temida do que ser respeitada.
Somos reféns do medo, porque as liberdades civis estão indisfarçavelmente suspensas por decisões que se inspiram em subjetivismos desmedidos, uma espécie de versão de “ordálias pós-positivas”, germinadas por uma linguagem de ressignificados que fez do Direito o avesso.
Quando o clamor não encontra abrigo na observância institucional já não há mais estado de direito, senão, aflição e temor.
A mim restaram os princípios e conceitos recebidos da família, da igreja e da escola. E enquanto não for proibido pensar haverei de lembrar que a discordância é o oxigênio da evolução humana, embora haja quem disso se esquive, porque a sedução autoritária não disfarça a sede de vingança.