Ano 11 – vol. 12 – n. 80/2023
Hoje o tempo amanheceu diferente. Para mim, pelo menos, amanheceu.
É certo que a ditadura dos anos 1970 era militar. Havia disciplina e repressão. Cinquenta anos depois a ditadura mudou de mãos. Com repressão, mas sem disciplina. Sem fuzis, mas com canetas (da BIC à Montblanc) elas apontam contra nós todos, com o discurso de que só nos querem fazer o bem. Esse sentimento bem conhecemos e, embora a releitura, com a reescrita frenética tentem, jamais conseguirão enterrar os mais de cem milhões de mortos, sempre, porque queriam nosso bem.
O que, então, seria tão importante para ser considerado diferente já que existe uma caricatura de país em direção ao abismo? Bom eu lhes disse no começo. Foi para mim que o tempo amanheceu diferente.
Veio à mente minha mãe pondo-me a beijar o crucifixo que usava como uma promessa de que observaria todos os valores. Vi meu pai sem demonstrar emoções, mas emocionado e preocupado, embora determinado a fazer de mim um homem capaz de compreender, com outro povo, coisas novas; aprender o idioma e desbravar o mundo.
Cinquenta anos depois eu, na solidão de minha sala, deixo passar o filme de minha partida para os Estados Unidos, para a então pequena cidade de San Marcos, Texas.
Ali aprendi muito. Guardo conhecimentos e lembranças que deram base à minha formação pessoal e intelectual. Por isso minha firme e forte cobrança sobre princípios e valores que não podem ser objeto ou causa de transação. Valores são símbolos absolutos. Ou se os tem ou não se passa de um covarde, negligente e oportunista.
Agora, sentado diante da tela alva de editor de textos, com o filho da máquina de escrever (o notebook), na companhia de músicas que me tocam o coração, estas lembranças aguçam uma imensa saudade. Imerso nela eu me ponho a tentar avaliar o que meus pais sentiram ao me deixarem partir, para mais de um ano depois, ter o conforto de receber de volta um outro filho que aos 17 anos partiu para compreender que a saudade da partida é um ingrediente indispensável para avaliarmos o grau de importância das pessoas em nossas vidas.
De certo que, cinquenta anos depois (hoje aos 67) eu não mudei o mundo, como a rebeldia instigava o que, de certo modo, estimulou minha ida. Mas não fiquei parado, indiferente aos acontecimentos.
Amanheci com este relicário e imerso em lembranças, com saudade dos meus pais, que me deram o maior dos presentes que um filho pode ter: apostaram de que eu seria capaz.
Obrigado por tanto. Obrigado por tudo. Sou mais do que um encontro biológico. Eu sou a prova de que o amor não tem limites. E vocês, lá do céu, sabem o porquê.
Aos leitores que dão prestígio a este espaço o que mais poderia dizer? Bom, se o nó na garganta não permitir, se a insensatez bloquear ou se a timidez tornar difícil, apenas confessem em oração aos seus pais: obrigado eternamente; aos filhos, sussurrem em seus ouvidos: eu confio em você porque viestes ao mundo para cumprir a promessa divina; e nunca esqueçam de dizer que os amam porque eles também um dia viverão saudades como a que hoje vivo e saberão dizer aos seus netos o que consigo aprenderam.
Um ano de plenas realizações e muitas bençãos.