Ano 12 – Vol. 05 – N. 30/2024
https://doi.org/10.5281/zenodo.13350508
Quando se trata de querer inibir (para não falar censurar) a liberdade das pessoas há uma plêiade que se entrega, com servilidade, à tarefa. Mas calma. Toda prudência é necessária.
É visível, para quem não se deixa seduzir por impressões verborrágicas, que o que pretendem não é punir a mentira que, hoje, pela Noviligua, recebeu a denominação de Fakenews.
Eu pergunto ao leitor. Aquele velho rádio a válvulas do seu avô continua a funcionar? Ou ele foi substituído (o rádio) por um com circuito integrado? E aquele computador XT, que substituiu as máquinas de datilografia IBM com esferas e fitas? E o IBM 3120, que ocupava toda uma grande sala refrigerada, para fazer operações matemáticas que as calculadoras de bolso da Casio passaram a realizar?
Assim é o mundo no compasso do avanço tecnológico. Hoje é a inteligência artificial que está ditando essa marcha e não se tem a mínima ideia do risco que podemos correr, mas ela avança.
Agora pergunto. Por que avança a tecnologia ela não será usada indevidamente? E se houver uma lei proibindo esse avanço será exequível?
Ora, pois, como dizem os lusitanos. Não se trata simplesmente de regular excessos, mentiras ou destemperos que transformará a sociedade em equilibrada e pacífica. São os exemplos, estes sim, que conduzem os homens.
Antes, nas ondas oscilantes do rádio a válvula, as notícias chegavam nos moldes determinados pela emissora. Quem poderia desmentir? E o que havia sido plantado no imaginário? Os mesmos ouvintes eram alcançados pelas parcas retificações?
Seja pela televisão, ou pela via da internet, a prática é a mesma, dependendo de quem esteja nos bastidores da administração. Então, o que há de novo para que essa gente pretenda, a todo custo, querer regulamentar (ou regular) as redes sociais? Eu faço cá minhas ilações.
As redes sociais (a internet) dão presença a indivíduos que interagem reagindo a tudo do que discordem. É uma espécie de democracia instantânea, que vai além da democracia direta, aquela prevista pela Constituição, a cada quatro anos lembrada.
Mas há, também, o discurso da tal Fakenews. Bom, é inevitável que haja, porque hoje é apenas produto da Novilíngua.
Fakenews sempre houve e sempre haverá. A diferença é que, hoje, ideologicamente, ganhou novo significado, com tradução que nada tem a ver com a expressão original.
Nessa sanha de controle Fakenews passou a significar tudo aquilo de que discorde a autoridade, transformando-se numa “democracia relativa” o que é peculiar ao regime dos estados democráticos: o direito à crítica.
Claro que entre criticar e insultar há diferenças. Mas também é claro que regular e impor limites à liberdade de manifestação, contra texto expresso da Constituição, outra coisa não é senão autoritarismo e descompromisso com o juramento constitucional. Por isso, que sejam abertos os códigos, retirados o mofo e a poeira, aplicadas as leis vigentes, porque nelas há limites, sem nódoas.
Não é cortando o dedo que se fará curar a verruga. É no exemplo que reside os parâmetros civilizatórios, e a liberdade não é tese que se erija conforme subterfúgios – ela é avessa a calabouços, porque é direito natural do homem.
O Brasil, seguramente, é um dos países onde mais leis existem no mundo. Nesse particular o Brasil tem até o marco civil da internet – Lei n. 12.965/2014. Logo, não é na ausência de leis que está a insuficiência para alcançar a pacificação social. Todos sabem disso.
Essa gente só não quer é ser desmentida imediatamente. Sim, essa gente também mente e quer apenas ter a hegemonia do discurso, pretendendo não ser questionada, por isso mesmo se aparelhando: “Tem que prender essa gente!”. Lembram?
Não é a ausência de leis que está revelando ao mundo o maior escândalo de impunidade no Brasil. É o próprio aplicador das leis que está fazendo isso ao não as aplicar, com contornos vocabulares surreais, agora comparados ao Kama Sutra, sob o olhar de indiferença e omissão dos que representam democraticamente o povo.
Também não é a ausência de Constituição que tem feito submergir a segurança jurídica e a credibilidade institucional e política do país. Os intérpretes se encarregam disso.
Basta dizer que a semana que passou foi repleta de práticas que a história havia depositado nos quadrantes do século XVI. Apenados, com confissão e provas documentais e testemunhais, às escâncaras, foram declarados impunes, após anularem-se confissões. Vejam só! Condenados tiveram penas extintas, como se guardassem consigo algum trunfo que só alguns poucos conhecem. Mas há coisa pior.
Há os que, com processo ainda em curso, já tem na tornozeleira uma forma de restrição ao direito de ir e vir. Há os que estão presos sem denúncia há mais de cem dias.
Compreenderam por que desejam tanto censurar (foi inevitável falar) as redes sociais? Ainda não?
Não bastasse a extensão ultramarina de jurisdição que está escancarada sobre estrangeiros e nacionais residentes no exterior, nossa justiça virtual houve por bem criar a responsabilidade Wi-Fi.
Alguns, vendo-se injusta e ilegalmente condenados, resolveram fugir do Brasil. Por isso, sem mais razões e motivações, foi determinada, de ofício, a prisão de terceiro que ainda não possui condenação definitiva. É ou não um retrocesso penal?
Enquanto isso, na liga da justiça, nem Batman, nem Superman e sequer o Homem de Ferro, se insurgem para reclamar sobre o que está ocorrendo. Logo terão seus gibis censurados.
Na verdade, caro leitor, ninguém deseja combater Fakenews. O que eles temem mesmo é que saibamos da verdade. E a isto se dá o nome de censura, nada além.