Ano 13 – vol. 11 – n. 1018/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17751615
A semana encerra com a dolosa notícia da perda do professor José Afonso da Silva. É uma perda imensurável.
Falo da perda humana. Para os familiares e amigos. Para mim o consolo – como admirador e introdutor de sua obra no Curso de Direito da UFMA – está em que sua glória já está eternizada no Panteon a poucos reservado.
Sou daqueles que se (a mim) impõe coerência entre vida e obra. Por isso, e em razão disso, é que o mestre se destaca, potencializando-se em criatura e personagem.
Como fui sucessor da disciplina Direito Constitucional – por convite pessoal, faço questão de lembrar – do professor catedrático José Ricardo Aroso Mendes, tive que me cercar de livros que estivessem ao alcance dos estudantes e disponíveis na biblioteca. Foi quando surgiu meu contato com o hoje clássico CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO.
O livro é, sem sombra de dúvidas , com a exceção da hermenêutica de que não se ocupou o autor nessa obras, uma das melhores produções sobre Direito Constitucional no Brasil pelo conteúdo, pela capacidade expositiva, pela bibliografia reunida e – arrisco afirmar – pelas abordagens literárias. Sim, de literatura também entendia o professor José Afonso da Silva. Basta ter acesso a uma das obras sobre o tema: DO ROMANCE DE PRIMEIRA PESSOA.
Sua obra emblemática APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS foi sua tese de Livre Docência, em cuja banca esteve um dos meus professores mais atenciosos comigo: Lourival Vilanova, de quem tive a oportunidade de escutar tratar-se de um trabalho de vigor científico soberbo e grande contribuição ao estudo do Direito.
O mestre Vilanova estava certo, tanto que o Supremo Tribunal Federal adota como guia em seus entendimentos sobre o assunto a tese do mestre José Afonso, capitaneado por votos do min. Celso de Mello.
Mas o professor José Afonso da Silva não esqueceu de por em livro sua história acadêmica. E é aí onde vamos nos deparar com um verdadeiro diário de sua vida acadêmica inserto no livro A FACULDADE E MEU ITINERÁRIO CONSTITUCIONAL.
A obra mais recente do mestre José Afonso estou lendo e tenho indicado a todos que tenham curiosidade sobe o tema. Cuida-se do livro recém editado: O CONSTITUCIONALISMO BRASILEIRO – EVOLUÇÃO DOUTRINÁRIA.
Trata-se de um apanhado geral do mais significativo contributo ao constitucionalismo que inicia por Frei Caneca chegando a Danilo Sarmento. Completa? Claro que não. Com a inquietude do mestre certamente o seus 100 anos não seriam empecilho a que ainda persistisse na pesquisa para aumentar sua obra com novos valores, de outros lugares.
Perdoem os que possam discordar, mas de todas as obras escritas em homenagem ao professor José Afonso da Silva, de todas as fontes nele inspiradas e de todas as obras por ele escritas, para mim, como estudioso – e estudante – da matéria e professor há 40 anos na UFMA, a obra mais vigorosa de José Afonso da Silva é TEORIA DO CONHECIMENTO CONSTITUCIONAL. Nela o conhecimento constitucional é depurado com rigor científico bem mais aprofundado, embora, estranhamente, não a tenha visto presente em cursos de pós-graduação em Direito no Brasil. Dela já me servi em vários trabalhos que escrevi e com ela trabalhei quando ensinava em cursos de pós-graduação. Renovo a indicação vigorosamente.
Mas é chegado o momento de partir. Disse-o o Criador. Estrelas foram feitas para estar nos céus. Mas era necessário que José Afonso da Silva deixasse a luz na terra e se preocupasse tanto com o constitucionalismo brasileiro, posto se encontrar na opacidade de manuais de vocação militante, extensão extenuante, preço aviltante e exemplos deslustrados pelos escritores que negam as suas próprias ideias ao se porem sobre a Constituição da República.
Poucos sabem – e comporta revelar – que pessoalmente conheci o professor José Afonso da Silva em Vitória do Espírito Santo em uma conferência da OAB – época de um outro perfil que não o de hoje. Eu era conselheiro federal. Ele expositor. Apresentei-me dizendo ser aprendiz de professor de Direito Constitucional. Pediu-me um cartão e prometeu-me que remeteria sua obra atualizada.
Devo confessar que duvidei que isso ocorresse, mas fui surpreendido ao receber a obra autografada carinhosamente. Hoje o livro repousa na biblioteca de um dos meus filhos, que espero preserve com zelo, carinho e distinção.
Posteriormente, como procurador do estado, fui designado para acompanhar os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Foi meu segundo encontro com o mestre e renovada alegria. No mais, nosso diálogo foi pelos livros.
Com o passar dos anos tive conhecimento de seus embates acadêmicos com o também insigne mestre Manoel Gonçalves Ferreira Filho. Creio que o respeito tenha sido mútuo, em que pese as insinuações e estocadas sutis jamais respondidas, tanto que “Maneco”, como conhecido em São Paulo, é um dos autores relacionados pelo mestre José Afonso da Silva nessa derradeira obra. Também por isso indico as obras de ambos, para que os estudantes possam estabelecer o diálogo acadêmico entre os oponentes.
O Brasil, em tempos tenebrosos para o constitucionalismo, entorpecido pela negligenciada democracia, hoje vilipendiada por quem deveria guardar sua Norma Fundamental, perde um dos seus expoentes mais valorosos para o Direito. Isto só pode ser remediado se – e somente se – os autores que brotam com seus enigmas constitucionais recuperarem o mínimo de bom senso para compreender que entre o DITO e o NÃO DITO constitucional é rigor a exigência de respeito, pela boa fé do intérprete, em acato a um povo que já viu na força da baioneta a ferida que hoje é produzida pela intensidade da caneta, derramando a tinta mais intensa do anticonstitucionalismo.
José Afonso da Silva subiu como a estrela que ocupa seu lugar no universo. Que bom seria se suas lições e exemplos de retidão e coerência pudessem ser reaplicadas, realinhando-se os princípios – e preceitos, digo eu – como vetores epistemológicos como o próprio mestre propunha.
Que siga em paz o professor José Afonso da Silva como o belo exemplo de acadêmico e de ser humano. Que sua herança nos seja favorável a tempos menos opacos, menos nebulosos de almas e homens.