Ano 14 – vol. 02 – n. 15/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.18649210
Há carnavais e há carnavais. O que se anuncia nas ruas, com batuques e fantasias improvisadas, é apenas a parte visível da festa. O outro — mais silencioso e mais caro — acontece longe da multidão que o financia. O carnaval é deles; a conta, invariavelmente, é nossa.
Somos os tributados da agonia. Enquanto a arrecadação cresce e os serviços públicos se comprimem, há camarotes onde o confete não é de papel, mas de cifras. Vinhos raros, uísques concentrados, champagnes selecionadas. O luxo não se mistura à massa. Ele observa de cima. Não há suor nem aperto. Há ar-condicionado, brindes calculados e discursos coreografados.
Não se trata aqui de moralismo contra a festa popular. O Carnaval é expressão cultural legítima. É arte, é música, é crítica social quando quer ser. O problema é outro: enquanto o povo se embriaga com quatro dias de euforia, o bloco dos sujos desfila o ano inteiro. E seus integrantes não usam fantasia. Vestem gravatas, togas, fardas, mandatos.
O baile não é o último da República imperial, mas pode ser prenúncio de cinzas institucionais. O cenário mistura requinte e promiscuidade política. Negócios travestidos de política pública. Verbas que escorrem como serpentinas invisíveis. Programas sociais convertidos em moeda eleitoral permanente. O assistencialismo que deveria ser ponte vira âncora. O que seria instrumento de emancipação torna-se mecanismo de dependência conveniente.
Enquanto isso, a multidão se acotovela nas ruas. Bandos, bandas, bandidos — tudo se confunde. Há alegria genuína, há excessos previsíveis, há sujeira literal e simbólica. Dejetos espalhados pelo asfalto como metáfora involuntária de uma degradação mais profunda. A vida pública também é desafiada, mas não por foliões anônimos. É desafiada por aqueles que sambam sobre o orçamento e dançam sobre a responsabilidade fiscal.
O povo canta. O bloco oficial conta. Conta votos, conta repasses, conta o quanto pode prolongar o espetáculo da dependência. A lógica é antiga: entretenha-se a massa, organize-se o poder. A fórmula latina ecoa com desconfortável atualidade — panis et circenses. Pão distribuído sob cálculo político; circo transmitido em alta definição.
Não há aqui condenação à cultura. O Carnaval não é o inimigo. O inimigo é a naturalização do desvio. É a indiferença diante do requinte financiado por quem mal equilibra as próprias contas. É a resignação que transforma o cidadão em espectador permanente de um espetáculo que o onera.
O bloco dos sujos não está necessariamente na rua. Está nas estruturas que confundem público e privado, necessidade e conveniência, assistência e submissão. E, enquanto as serpentinas caem, o desfile continua — não na avenida, mas nos corredores do poder.
Talvez o maior problema não seja a festa. Seja a quarta-feira que nunca chega para certos foliões. Porque, para eles, não há cinzas. Apenas novos enredos, novas fantasias retóricas e a certeza de que, no próximo ano, a bateria continuará tocando — paga, como sempre, pelos mesmos.