O SÁBIO, O ESTULTO E O ESPERTO

Ano 14 – vol. 06 – n. 76/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20718864

Há uma antiga máxima segundo a qual todo homem, antes de morrer, deveria plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Não sei ao certo quem a formulou primeiro, mas ela atravessou gerações como uma síntese simbólica da passagem humana pelo mundo: deixar raízes, deixar descendência e deixar ideias.

A esta altura da vida, já realizei as três tarefas.

Talvez por isso tenha passado a refletir mais demoradamente sobre a última delas. Afinal, plantar uma árvore exige cuidado permanente. Ter um filho impõe responsabilidades que não cessam com a maioridade. Escrever um livro, porém, parece ter se tornado a atividade mais simples de todas, especialmente em tempos nos quais opiniões são produzidas em série e convicções podem ser trocadas com a velocidade de uma postagem em rede social.

O papel em branco é um território passivo. Nele cabem teorias magníficas, princípios elevados, discursos eloquentes e até virtudes inexistentes. O papel não protesta. Não contradiz. Não exige coerência. Apenas recebe.

Mas a vida exige.

Talvez resida aí a diferença entre o autor e a obra. Ou melhor, entre o verdadeiro autor e o mero fabricante de textos.

Escrever um livro não confere autoridade moral automática a ninguém. Tampouco transforma qualquer pessoa em oráculo infalível. O título de escritor, professor, jurista ou intelectual não constitui salvo-conduto contra a crítica nem imunidade contra a própria incoerência.

Ao contrário.

O livro deveria funcionar como uma espécie de confissão pública. Um espelho no qual o autor deposita suas crenças mais profundas, suas convicções mais sólidas e sua compreensão de mundo. Cada página escrita representa, em alguma medida, um compromisso assumido diante dos leitores e da própria consciência.

Quem escreve não apenas informa. Compromete-se.

Por essa razão, nada é mais desconcertante do que observar autores que defendem em seus livros exatamente o oposto daquilo que praticam na vida pública. A distância entre o texto e a conduta raramente decorre de evolução intelectual legítima. Na maioria das vezes, nasce da conveniência.

E a conveniência costuma ser o nome elegante do oportunismo.

Particularmente no campo do Direito Constitucional, essa contradição se torna ainda mais grave. Não faltam obras repletas de referências eruditas, conceitos sofisticados e construções teóricas admiravelmente elaboradas. Algumas chegam a alcançar genuína excelência acadêmica.

O problema surge quando seus próprios autores passam a relativizar os princípios que escreveram tão cuidadosamente.

Defendem a liberdade, desde que não seja a liberdade do adversário.

Defendem a legalidade, desde que a ilegalidade beneficie suas preferências ideológicas.

Defendem a separação dos Poderes, desde que a concentração de poder favoreça suas causas.

Defendem a democracia, desde que o resultado democrático corresponda aos seus desejos.

Quando isso acontece, a teoria deixa de ser ciência para se transformar em instrumento de ocasião.

O livro converte-se em mero adereço.

A Constituição transforma-se em pretexto.

E o jurista passa a desempenhar um papel menos nobre: o de legitimador intelectual das conveniências do momento.

Como professor de Direito Constitucional, sempre acreditei que uma das missões centrais do ensino jurídico é contribuir para a formação de um sentimento constitucional. Não apenas o conhecimento técnico da Constituição, mas a convicção íntima de que suas regras e princípios devem valer para todos, inclusive para aqueles de quem discordamos.

Tal sentimento, entretanto, dificilmente floresce em uma sociedade onde os próprios guardiões do discurso constitucional frequentemente abandonam suas teses quando elas deixam de lhes ser úteis.

Nenhuma nação amadurece quando transforma princípios em ferramentas descartáveis.

Nenhuma democracia prospera quando suas instituições passam a ser interpretadas segundo conveniências momentâneas.

Nenhuma Constituição sobrevive quando seus defensores ocasionais se tornam seus primeiros violadores.

Nos últimos anos assistimos a situações que, em qualquer ambiente minimamente comprometido com a coerência intelectual, deveriam causar perplexidade. Alguns dos mesmos que outrora defendiam limites rigorosos ao poder passaram a celebrar sua expansão. Outros que denunciavam abusos passaram a justificá-los. Há ainda aqueles que trocaram a reflexão jurídica pela militância travestida de ciência.

A toga não substitui argumentos.

O cargo não substitui princípios.

E a notoriedade não substitui coerência.

Ao final, resta uma distinção simples.

O sábio é aquele que procura viver conforme aquilo que ensina.

O estulto é aquele que sequer percebe suas próprias contradições.

O esperto é aquele que as percebe perfeitamente, mas acredita que ninguém mais as percebe.

A história, contudo, costuma ser implacável.

Os livros permanecem.

As páginas envelhecem.

As árvores crescem.

Os filhos observam.

E chega sempre o momento em que cada autor é confrontado não pelo que escreveu, mas pela distância entre o que escreveu e aquilo que viveu.

É nesse instante que se descobre quem produziu uma obra e quem apenas produziu papel.

A SAUDADE DE UMA CAMISA

Ano 14 – vol. 06 – n. 75/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20689985


Há muitos anos li uma frase que jamais esqueci: saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou.

Ontem senti saudade.

Senti muita saudade.

Não se trata daquela nostalgia ingênua que deseja viver eternamente no passado, como quem lança âncora ao mar para impedir o movimento das águas. O passado não existe para aprisionar o presente. Existe para servir de parâmetro. É nele que encontramos os elementos que nos permitem avaliar se houve progresso, regressão ou simples estagnação.

E foi exatamente isso que ocorreu ao assistir à Seleção Brasileira diante do Marrocos.

Antes que alguém interprete equivocadamente estas linhas, faço questão de esclarecer: não há aqui qualquer desrespeito ao adversário. O futebol marroquino evoluiu, tornou-se competitivo, organizado e disciplinado. Sua campanha recente em competições internacionais demonstrou isso de maneira inequívoca. O problema não foi o Marrocos.

O problema foi o Brasil.

Ou, mais precisamente, aquilo que o Brasil deixou de ser.

Aprendi ao longo da vida que uma das formas mais inteligentes de aprender consiste em observar os erros dos outros. Nem sempre, porém, essa lição é assimilada. Há ocasiões em que a insistência nos próprios equívocos parece uma escolha consciente.

O que se viu em campo foi um conjunto de jogadores incapazes de executar com eficiência tarefas simples. Não falo de esquemas revolucionários nem de fórmulas mágicas. Refiro-me ao básico: movimentação, objetividade, ocupação de espaços, intensidade, comprometimento coletivo e conclusão das jogadas.

O técnico da Seleção possui currículo suficiente para dispensar apresentações. Trata-se de um profissional vitorioso, respeitado e experiente. Todavia, até os melhores treinadores encontram limites. Nenhuma estratégia é capaz de compensar indefinidamente a ausência de talento, de comprometimento ou de compreensão do jogo por parte daqueles encarregados de executá-la.

O futebol continua sendo uma atividade coletiva. A genialidade do treinador termina exatamente onde começa a responsabilidade dos jogadores.

E é justamente aí que mora a minha saudade.

Saudade de um tempo em que vestir a camisa da Seleção representava algo maior do que contratos publicitários, penteados cuidadosamente produzidos ou aparições em redes sociais.

Saudade de uma época em que a convocação era recebida quase como uma condecoração nacional.

Saudade de um tempo em que o talento aparecia naturalmente, sem necessidade de campanhas de marketing para convencer o torcedor de sua existência.

Havia erros? Claro que havia.

Havia desentendimentos? Sem dúvida.

Mas havia também algo que parece cada vez mais raro: fome de vitória.

Aqueles jogadores podiam falhar, mas jamais permitiam que alguém duvidasse de sua disposição para vencer.

O futebol brasileiro construiu sua identidade mundial sobre fundamentos simples: criatividade, técnica, improvisação, alegria e objetividade. Era uma combinação quase artística. O espetáculo terminava e permanecia a sensação de que se havia assistido a algo especial.

Hoje, infelizmente, essa sensação tornou-se exceção.

O que se observa frequentemente é uma equipe formada por atletas extraordinariamente valorizados economicamente, mas que raramente conseguem transformar esse valor financeiro em superioridade técnica dentro das quatro linhas.

Talvez existam razões estruturais para isso. Talvez o futebol tenha sido capturado por interesses econômicos gigantescos que transformaram o espetáculo em produto e o jogador em ativo financeiro. Talvez as categorias de base estejam produzindo celebridades antes de formar atletas completos.

Talvez.

Mas o torcedor não assiste ao jogo para analisar planilhas.

O torcedor quer ver futebol.

Quer ver entrega.

Quer ver paixão.

Quer ver objetividade.

Quer ver uma equipe capaz de fazer a bola obedecer ao propósito para o qual foi criada: chegar ao gol.

Ontem, porém, vi pouco disso.

Vi uma equipe sem identidade clara.

Vi uma equipe sem objetividade.

Vi uma equipe sem a capacidade de transformar posse de bola em perigo real.

Vi uma equipe que, em muitos momentos, parecia mais preocupada em exibir movimentos do que em produzir resultados.

E foi então que a saudade apareceu.

Saudade do tempo em que aguardávamos o apito final apenas para descobrir por quantos gols venceríamos.

Saudade do tempo em que a confiança era consequência natural do talento.

Saudade do tempo em que estratégia, técnica, objetividade e determinação caminhavam juntas.

Não senti saudade de um jogador específico.

Não senti saudade de um treinador específico.

Senti saudade de uma identidade.

Daquela identidade que transformou uma seleção de futebol em patrimônio cultural de um país inteiro.

Talvez ela volte.

O futebol é pródigo em ciclos e surpresas.

Mas, enquanto não retorna, resta ao torcedor conviver com uma sensação amarga: a de que a camisa mais respeitada da história do futebol mundial continua presente, mas já não encontra com a mesma frequência homens capazes de honrá-la.

Queira eu estar errado.

Mas os gramados costumam ser menos generosos que os contos de fadas.

OBTUÁRIO CONSTITUCIONAL (Canto Fúnebre da República)

Ano 14 – vol. 05 – n. 64/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20205993

Aqui jaz.

Não uma mulher.
Não apenas um texto.
Não simples folhas encadernadas
entre promessas solenes
e brasões dourados.

Aqui jaz a Constituição.

Balzaquena ainda,
não pelo tempo,
mas pelo desgaste precoce
daquilo que nasceu
para durar mais que os homens.

Mataram-na lentamente.

Não houve punhal único.
Nem tiro de misericórdia.
Nem campas abertas sob tempestades.

Morreu de sucessivos abusos.

De interpretações febris.
De silenciosas covardias.
De acomodações servis.
De prudências sem honra.

Os que deveriam guardá-la
negociaram suas muralhas.

E os que juraram defendê-la
descobriram ser mais confortável
dormir ao lado dos algozes.

A causa mortis?

Violação continuada.

Penetraram-lhe as cláusulas,
rasgaram-lhe os sentidos,
retorceram-lhe as palavras
até que significassem
o contrário de si mesmas.

Cento e trinta e cinco vezes.

Talvez mais.

Quem conta os golpes
quando o cadáver já perdeu o rosto?

Fizeram-no sem pudor,
com a naturalidade obscena
dos que aprenderam
que o poder sem limites
produz a embriaguez dos deuses falsos.

Fornicaram com a impunidade.

E, entre uma violação e outra,
ergueram discursos solenes,
pronunciaram palavras nobres,
invocaram democracia,
justiça,
estabilidade,
civilidade.

Como sacerdotes bêbados
celebrando liturgias
sobre o altar de um incêndio.

Transformaram-se
em rufiões da história.

Mercadores da hermenêutica.

Cafetões da legalidade aparente.

Vendendo interpretações
como prostitutas vendem afetos:
por conveniência,
por ocasião,
por preço.

E o povo?

Ah, o povo…

Primeiro assustou-se.
Depois acostumou-se.
Por fim, aplaudiu.

Assistiu à violação coletiva
como plateia fatigada
num bordel decadente,

onde a dignidade humana
já não constrange
porque foi convertida
em entretenimento político.

Então vieram os cúmplices.

Os indiferentes.
Os beneficiários.
Os prudentes profissionais do silêncio.

Os que diziam:

“Não é bem assim.”
“Há complexidades.”
“As instituições estão funcionando.”

Enquanto o cadáver esfriava.

Já não há identidade.

Já não existe validade.

O que ontem era limite
hoje tornou-se licença.

O que ontem era garantia
hoje converteu-se em ornamento.

E a Constituição,
antes coluna da República,
reduziu-se a pano ensanguentado,
arrastado pelos corredores do poder
como trapo inútil
após a festa dos vencedores.

Negou-se a existir
porque lhe arrancaram o sentido.

E agora jaz.

Desfigurada.

Abandonada
pelos próprios coveiros
que, fingindo homenagens,
empurram terra sobre o corpo
com as mãos ainda sujas.

Não haverá missa.

Não haverá culto.

Não haverá terreiro.

Nenhum sino dobrará
pela morte da ordem constitucional.

Porque os vivos
temem reconhecer o cadáver.

Mas um dia,
quando o cortejo desleal
bater à porta dos indiferentes,

não haverá mais juízes suficientes,
nem discursos suficientes,
nem teorias suficientes
para conter o odor da decomposição.

E então ouvirão:

“Aqui jaz.

Ela está morta.

Morreu de bacanal jurídico.

E ninguém poderá alegar
que não viu o funeral.”

ETERNO E PERPÉTUO

Ano 14 – vol. 05 – n. 61/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20110961

Sintomas e sentimentos neste dia.

Que mistura esses sentimentos em mim!

Me abraça, me abafa, me acalenta, me faz sorriria e chorar, sem dissipar as misturas, conquanto delas depuradas todas as amarguras.

Nesse misto de alegria e saudade continua a vibrante memória de nos vermos todos reunidos ao teu redor para celebrar o que imaginávamos então ser eterno.

Só hoje – e não precisamente nesta data – percebo que entre eterno e perpétuo há um continente de significados e “significâncias”, permitindo-me em tumultuado cenário, destemperado da razão, com paladar ácido de paixões banais e baratas, compreender que por mais que seja eterno enquanto dure, como proclamou o poeta, perpétuo é esse sentimento que só invade as mães.

Não são pessoas que gestam. São mulheres que concebem e parem dando ao mundo a prova do milagre.

Se do natural duvidam os que contra ela se lançam é porque até na natureza deformidades há.

Não culpem a mãe. Há escolhas.

Assim, que seja eterna a lembrança, mas perpétuo o significado natural irretocável e imodificável de que só do útero se pode falar, inda que dele não nasça o fruto que bem pode vir do coração.

Mãe, és eterna mas também perpétua em mim porque carrego significados que foram teus, são meus, serão dos meus filhos e daí para adiante.

Que a eternidade te proteja, MÃE, para perpetuidade da própria existência do SER.

ENTRE LINÓTIPOS E MEMÓRIAS: CEM ANOS DE O IMPARCIAL

Ano 14 – vol. 05 – n. 57/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19951201

Hoje é um dia especial de lembranças em minha vida — e ele começa na Rua Afonso Pena.

Ali, menino de calças curtas, meu pai me levava em alguns sábados. Foi ali que ganhei minhas primeiras “barrinhas de chumbo com letrinhas”, que eu transformava em carimbos improvisados, como se já ensaiasse, sem saber, o ofício da palavra impressa.

Foi ali que perturbei seu Gojoba e onde aprendi que o linótipo não era apenas uma máquina: era uma imposição mágica sobre o papel, feita de ferro, ruído e encantamento.

Ali também frequentei exposições de arte do professor e pintor — na verdade, bem mais do que isso — Newton Pavão, meu avô materno.

E ali conheci pessoas que, entre cafés e cigarros, discutiam política local e nacional com a naturalidade de quem respirava o mundo. Enquanto isso, eu me sentava diante das máquinas para brincar de jornalista. Talvez venha daí essa inclinação para a escrita: um mundo infantil cercado de gente grande.

Durante trinta e dois anos, ali esteve meu pai — José Vera-Cruz Santana —, editorialista elegante e fiel à linha editorial do condomínio Diários Associados.

Foram muitas as histórias que vi e vivi. Mas guardo, com especial nitidez, a advertência feita por ele a um jovem iniciante, ao comentar um texto:

“Quando quiser ter opinião própria sobre um fato desses, monte o seu próprio jornal. Este jornal tem linha editorial. Nunca esqueça disso.”

A lição ficou.

Anos depois, também escrevi para o mesmo jornal. Publicar não era simples, mas, ao enviar meus textos, repetia comigo mesmo o ensinamento:

“Veja se não vai de encontro à linha editorial.”

Hoje, confesso, já não sei qual seja essa linha. A imprensa brasileira, em muitos casos, transmutou-se em militância, onde fatos são moldados como versões — e versões, por vezes, pretendem se impor como fatos.

Talvez por isso, ao criar meu blog A Pena do Pavão, sob o lema A Opinião como Direito, há 14 anos em circulação, poucos tenham sido os textos remetidos aos jornais de São Luís.

Mas nesta data — carregada de significados pessoais — não poderia deixar de prestar minha homenagem ao Jornal O Imparcial, em seu centenário.

Foi ali que memórias foram forjadas. Foi ali que me alimentei — de comida e de palavra. E foi ali que tive, em meu pai — sem a modéstia que o maranhense costuma invocar — um verdadeiro exemplar de jornalista, daqueles que traduzem, com dignidade, o papel de um jornal.

Parabéns por continuar existindo.

Que os fatos sejam a causa da verdade — e não apenas a versão dela.