O INVISÍVEL CONVENIENTE

Ano 13 – vol. 11 – n. 106/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17713999

A história sinaliza que quando o país parece caminhar para um ponto de inflexão moral. Uma denúncia robusta, um escândalo envolvendo figuras centrais do governo, uma revelação que deveria — em condições normais de temperatura e democracia — abrir investigações sérias, provocar responsabilizações, causar indignação coletiva. Mas só parece.

Eis que, como num passe de mágica, surge o fato novo. Um acontecimento de ocasião, fabricado ou convenientemente ampliado, capaz de sequestrar a pauta, redefinir prioridades e reorganizar a atenção de um povo já exausto.

Esse fenômeno tem nome: o Invisível Conveniente. Esse local tem nome: o Brasil.

O fenômeno consiste em fazer desaparecer o que importa e fazer aparecer o que interessa ao poder. É o truque político mais antigo da humanidade, mas que, nas democracias frágeis, assume uma sofisticação quase teatral.

Governos cercados por denúncias, investigações ou crises estruturais aprenderam a lição de que a opinião pública não tolera o vácuo. Onde houver silêncio, cresce a dúvida. Onde houver dúvida, nasce a desconfiança. Por isso, antes que o desconforto floresça, eles tratam de oferecer ao povo um espetáculo — de preferência um que gere emoção, conflito, indignação ou comoção.

É o momento em que uma declaração despropositada vira prioridade nacional. É quando uma operação policial de baixa relevância se transforma em manchete. É quando uma agenda lateral, irrelevante ou improvisada, passa a dominar os noticiários.

Enquanto isso, o essencial escorre pelo ralo da memória coletiva.

A imprensa, que deveria ser o vigia atenta na defesa do interesse público, torna-se frequentemente o principal vetor de distração. Seja por alinhamento ideológico, dependência financeira, conveniência política ou pura incapacidade analítica, ela ajuda a deslocar o foco do que ameaça o poder para o que alimenta o entretenimento fantasiado de jornalismo.

O resultado? Bom, é um noticiário onde a versão vale mais do que o fato, o comentário vale mais do que a apuração, o espetáculo vale mais do que o esclarecimento.

A mídia não apenas falha: ela trai o próprio sentido de sua existência.

O Invisível Conveniente não é um ato isolado. Ele funciona em série.

Primeiro surge uma denúncia grave. Logo depois, um fato conveniente ocupa o palco. A crise anterior perde força, vira nota de rodapé, desmancha no ar.

É quando aparece uma nova denúncia. Em seguida, outro factoide. Mais uma simulação, outra versão, uma narrativa reciclada.

Assim se estabelece o ciclo: o país não avança, apenas gira. Gira na roda da mentira, girando em torno de si mesmo, sempre longe da verdade.

As consequências? Bom, a mais grave delas: a derrocada silenciosa da credibilidade

O que talvez nossos governantes não percebam (ou não queiram perceber) é que o mundo observa. E quando observa, registra. E quando registra, cobra.

Nenhuma nação se mantém sólida quando passa a ser reconhecida internacionalmente por manipular narrativas, esconder, irregularidades, simular normalidade, produzir crises como cortina de fumaça.

A confiança é o maior patrimônio de um país. E confiança, uma vez perdida, não se recupera em uma geração. O mundo esquece lentamente; o mercado, nunca; a história, jamais. A fatura é que recai sobre os inocentes

Os governantes que criam o Invisível Conveniente passam. A entourage que os cerca se dissolve. Os cúmplices disputam cargos e migalhas. A mídia muda de lado quando lhe convém.

Mas quem herda o prejuízo são os que nada fizeram: as crianças que nascerão desacreditadas, os jovens que estudarão com diplomas desvalorizados, os profissionais que carregarão o estigma da instabilidade, os pesquisadores que não serão levados a sério, as instituições que tentarão reconstruir o que foi destruído.

Não há projeto de futuro onde a mentira é método. Não há prosperidade onde a dissimulação é instrumento. Não há nação onde se cultiva o hábito de esconder a verdade. Constrói-se uma quadrilha. Jamais uma nação.

O Invisível Conveniente funciona enquanto há massa de manobra, manipulação possível e complacência institucional. Mas o destino de quem organiza a ação criminosa — porque sim, manipular o povo é uma forma sofisticada de crime — é sempre o mesmo: o colapso.

Uma quadrilha pode durar anos, às vezes décadas, mas não pode legar futuro. Não pode formar geração. Não pode fundar identidade. Não pode construir um país.

Por isso, se há algo a aprender é simples: um governo que precisa esconder a realidade para sobreviver já morreu — só não foi informado.

DESCOMPROMISSO E PROMISCUIDADE

Ano 13 – vol. 09 – n. 87/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17184534

O Brasil foi dormir (ou não) sob o pesadelo (para alguns) da aplicação da Lei Magnstiky. Parece que os Estados Unidos cumpriram o que haviam prometido, pois tem know-how quando o assunto é política. Ninguém pode afirmar que foi surpreendido.

Mas não falo hoje da Lei Magnstiky porque ignoro seu inteiro teor. Demanda um estudo mais aprofundado sobre o tema. Mas fico estupefato com o que vi e li de “especialistas” confundindo alhos com bugalhos, traídos pela militância posta à frente de qualquer análise lúcida. Assim caminha este cambaleante país.

A imprensa, outrora celebrada como “cão de guarda da democracia”, hoje mais parece vira-lata sarnento, de coleira dourada, abanando o rabo para quem serve a ração mais cara. O papel de informar foi jogado às traças, substituído por narrativas montadas em gabinetes perfumados, embaladas com ares de seriedade, mas que no fundo não passam de merchandising político.

As universidades, por sua vez, deformadas por uma ideologia que já nasceu mofada nos porões da Escola de Frankfurt, fabricam militantes de laboratório. São gerações treinadas para repetir mantras partidários como papagaios de paletó, acreditando piamente que carregar bandeiras em protestos equivale a construir o futuro. Que futuro? O da servidão intelectual e da mediocridade institucionalizada?

Enquanto isso, os monopólios de comunicação, controlados por famílias que se perpetuam no poder como dinastias tropicais, vendem a verdade em parcelas de vinte segundos — tão descartável quanto prazer comprado em esquina escura. O jornalismo virou fast-food moral: engorda o ego de quem se serve, mas mata de inanição a consciência coletiva.

Executivo, Judiciário, Legislativo e Imprensa parecem agora “quadrigêmeos siameses”, dividindo o mesmo sangue viciado. Não se sabe onde termina um e começa o outro: lembram as relações promíscuas nos ambientes mais penumbrosos de luxo, vendendo ilusões a uma clientela que ainda insiste em acreditar que há decência na vitrine. Entre sussurros e risadas abafadas, ignoram denúncias que transbordam nas redes independentes — preferem fingir que não viram, que não ouviram. A cumplicidade é tão óbvia que chega a ser quase pornográfica.

A história, porém, não oferece anestesia. Quando o tempo cobrar a conta, os canalhas que vilipendiam a verdade serão lembrados não como jornalistas, ministros ou deputados, mas como cúmplices de uma orgia de corrupção. A prisão de inocentes, motivação de um projeto político, é a mancha que nem séculos de revisionismo vão apagar.

E, se a indignação popular não for suficiente para romper o pacto de silêncio, talvez reste ao mundo civilizado olhar para este país com a mesma severidade com que se condenam regimes autoritários. Porque há um limite para a promiscuidade: quando deixa de ser escândalo interno e passa a ser ameaça à dignidade humana.

ENTRE ÍDOLOS E MOSCAS VAREJEIRAS

Ano 13 – vol. 09 – n. 86/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17170897

Confesso que sou mais um daqueles que participou de encontros com o violão e, junto aos amigos inocentes, também cantava Chico, Caetano e Gil como verdadeiros exemplares de resistência a um regime que tínhamos como opressor.

Na época, a dificuldade de informação era enorme. Só posteriormente, com o aparecimento de revistas que nos chegavam às mãos, era possível ler o que era permitido. E, quando existiam jornais que mereciam crédito, muitas vezes nos deparávamos com receitas de bolo ocupando os espaços censurados.

Não tínhamos a exata dimensão do que ocorria. Mas quando esses então heróis se homiziaram na Europa, fugidos da ditadura, passamos a embalar a ideia de que algo poderia ser feito. Só não sabíamos como. Eu mesmo, ainda muito jovem, fui acolhido pelo Rotary Club, que me concedeu a chance de sair do país e estudar no exterior. Um prêmio e, ao mesmo tempo, um salvo-conduto para quem sempre fora irrequieto. Meus pais foram sábios.

Foi no Texas onde tive o primeiro e único contato com brasileiros exilados. Participei de encontros em que, ironicamente, a música mais “moderna” que pediram que eu tocasse foi Roberto Carlos: Como é grande o meu amor por você.

Ali, de certa forma, comecei a compreender a razão de pessoas comuns se encontrarem há pelo menos dez anos nos Estados Unidos. Elas falavam em anistia. Um tema distante para mim, mas que parecia necessário para que meus ídolos pudessem retornar ao Brasil e nos brindar com produções musicais cantadas sem o risco da transgressão de entoar Vandré.

O tempo passou. Retornei ao Brasil e, já acadêmico de Direito, passei a defender a anistia ampla, geral e irrestrita em favor dos meus ídolos e de tantos outros.

“Anistia Já! Diretas Já! Constituinte Já!” — a agenda era urgente. Tropeços e percalços à parte, ela significava mudanças, propósitos sinceros e democráticos.

Hoje, ao me deparar com a chamada de Caetano, Chico, Gil e Djavan para apresentações no Rio de Janeiro em ato contra a Anistia, senti o impacto de ouvir Belchior cantando: Como nossos pais.

É… “as aparências não enganam”. O “vil metal” financia o circo de horrores dos que hoje celebram as lágrimas alheias. Descubro que talvez nunca tenham tido compaixão pelos que pensam diferente — apenas disfarçaram atrás de discursos.

Se vivêssemos uma democracia plena, sequer estaríamos falando em anistia. Não há crime a ser anistiado. Há, em alguns casos, delitos de menor potencial ofensivo que devem, sim, ser punidos, principalmente quando importaram em dano ao patrimônio histórico e cultural. Mas o restante é invenção de um Poder que conseguiu tumultuar o Brasil a ponto de gerar insegurança generalizada. Eles usam preto, mas não se confundem.

O leitor deve ter claro: nada apaga o que já foi escrito pela história. Nem a cumplicidade da imprensa, nem a coonestação das instituições civis, nem a omissão das instituições militares que deveriam reagir em defesa da Constituição.

Aqueles que hoje ressuscitam como assombrações e se põem em grupo a sugerir flexibilizações de penas absurdas e desproporcionais sabem que ao Congresso não cabe dosimetria de pena. Ao Congresso cabe apenas a competência de conceder anistia — e ela, como defendi outrora, deve ser ampla, geral e irrestrita.

Fique atento o leitor contra esse discurso ensaiado sobre inconstitucionalidade.

Não há inconstitucionalidade em anistiar porque quem prevê é a Constituição. Ela é do povo, não é do STF. Portanto, falar em inconstitucionalidade do que está constitucionalmente previsto é apenas elucubrar sobre o que foi escrito pela Assembleia Nacional Constituinte. Tudo não passa de opinião gestada por ministros que não reconhecem os erros cometidos. Caso contrário, a Lei n. 6.683/1979 deve ser revogada e todos os que dela se beneficiaram devem ser processados, devolvendo as indenizações vultosas recebidas.

Hoje, ao ver meus antigos ídolos convocando pessoas para prestigiar um ato contra a Anistia, tenho a sensação de que envelheci, mas não virei velhaco. Continuo fiel ao mesmo ideal, agora esclarecido.

Eles, não. Descubro que tudo não passou de mentira. Jamais defenderam a liberdade ou a democracia — apenas o conforto para si próprios.

E assim é que ídolos se transformam em moscas varejeiras. E o habitat dessas moscas traduz com perfeição o que eles se tornaram.

NADA DECLARAR OU TUDO A ESCONDER

Ano 13 – vol. 09 – n. 84/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17144654

Li hoje pela manhã que o Ministro da Justiça elegeu como fator determinante para o assassinato de um delegado de polícia aposentado no estado de São Paulo a proliferação de armas para colecionadores e desportistas no governo anterior.

Eu tenho para mim que o sr. Bolsonaro deve ser uma espécie de fetiche, um travesseiro, uma desculpa dada por aquelas crianças que fomos todos e que, ao quebrarmos um jarro da mãe com um chute mal calculado na bola, nos defendíamos dizendo: foi o vento! Pois é mais ou menos assim que a tudo que importe em incompetência, desmando, escândalo ou roubo esse governo que foi levado por mãos estranhas ao poder se comporta.

Eu, particularmente, considero um insulto a minha inteligência uma fala dessa natureza e conteúdo, fazendo-me compreender que nos anos de chumbo tinha razão o Ministro da Justiça Armando Falcão ao responder sempre quando era indagado pela imprensa (quando ela merecia confiança) em situações quase sempre incômodas: “Nada a declarar”. Mais tarde a sua biografia teve o título de Tudo a declarar. Bem que poderia ter sido complementada por Nada a esconder!

Pois é, só duas razões me levam a relembrar e a ter como paradigma aquela época. A primeira é uma razão de ordem histórica. Fatos são fatos e eles existiram. A segunda é bem mais pragmática e reside na circunstância de que lembrar algo ruim só mesmo diante de algo catastrófico. E outro não pode ser o adjetivo encontrado para traduzir este desgoverno sem rumo e sem prumo que está no poder.

Essa gente está há mais de vinte anos no poder e resolve creditar todas as mazelas do país ao sr. Bolsonaro, uma pessoa sobre a qual eu sempre digo: foi apenas um cara que estava no lugar certo diante de tantos incertos e ocupou um espaço nublado por mesmices do teatro das tesourar e que agradou aos que queriam ouvir um discurso diferente. Nada além disso, porque o que há de bom no governo passado só se tornou extraordinário para alguns porque os demais faziam (e pelo visto continuam fazendo) o que não deveria ser feito.

Ora, Ministro. Então quer dizer que a liberação de armas a colecionadores e a desportistas matou o delegado? Então se não existissem colecionadores de armas e desportistas o crime organizado teria sido extinto? 

Mas como – pergunto eu – se ele (o crime organizado) alimenta (ou alimentou) a formação de uma organização criminosa de que o partido político que está no governo se orgulha em ter contribuído para sua criação? Lembra do Foro de São Paulo, Ministro?

Na realidade todos vocês que desgovernam este país sabem. Todos nós que pagamos impostos elevados sabemos. Quem matou aquele delegado foram os terroristas. Sim, eles são o crime organizado vitimizado pelo início das atividades delinquentes quando roubam um celular “pra tomar uma cervejinha”.

Se o atual governo desejasse combater o crime organizado, sr. Ministro, teria imediatamente reconhecido que o PCC não passa de uma organização terrorista que transformou este estado em um narcoestado.

Mas não esqueçamos. Um narcoestado não pode invocar soberania como motivo de banimento de interferência de nações estrangeiras em seus negócios porque os crimes são transnacionais, são verdadeiros crimes contra a humanidade, sem fronteiras, sem nacionalidade.

E ainda há quem advogue para esse tipo de gente.

Bom, eu lembrei do Armando Falcão: “Nada a declarar”.

O acontecimento provavelmente foi um ato terrorista porque praticado nos moldes das execuções típicas. Mas há uma certeza: não foram tiros de colecionadores ou desportistas. E é por isso que eu lembrei da sugestão que fiz para a biografia do ex-ministro: Nada a esconder.

A REPÚBLICA DE TRAGO E TRAPAÇA

Ano 13 – vol. 08 – n. 73/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17008718

A República de Trago e Trapaça – 
(Uma ironia política em tempos de impunidade)

Conto:

Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto. Fofoca não; talvez coincidência; talvez autoidentificação por autores identificáveis, conquanto o propósito encerre mais um convite à reflexão do que uma crítica a um zangão – ou seria no plural?

Pelo sim, pelo não, minha amiga oculta, IAMARA confidenciou, diante de minhas elucubrações solitárias, o que dizer. Pois dito está. Se mal dito não sei, mas que foi assim foi.

I. O ENCONTRO

Era uma cidade miúda, mas inflada de pompa, cercada por montanhas de papelada, promessas e canalhices. Seus habitantes, cansados de votar e ver sempre os mesmos rostos enrugados de poder e vaselina, viviam entre a descrença e a ressaca.

Foi numa esquina mofada do centro histórico — ironicamente chamada “Praça da Liberdade” — que se encontraram os dois sujeitos desta estória – ou seria história?

O primeiro era Alcides, um ex-contador que perdeu o emprego por desvio de verba, mas que jurava inocência enquanto bebia suas verdades em doses de cachaça. Chamavam-no Alcides Trago. Vivendo de restos e de discursos inflamados contra “o sistema”, suas palavras ecoavam como o trovão de um bêbado lúcido.

O segundo era Silvério, um homem de fala mansa, olhar fixo e sorriso que jamais se movia com os olhos. Psicólogo aposentado por motivos que os vizinhos preferiam não comentar, era mais conhecido como Dr. Silvério Manso, embora o que menos tivesse fosse mansidão. Silvério acreditava em controle total, ordem por eliminação, e dizia que a democracia era uma “doença infantil do pensamento civil”.

No banco da praça, entre um gole de álcool e outro de insanidade, nasceu o pacto:

— A cidade está podre, Alcides. A justiça virou garçom de toga, servindo sentenças conforme o freguês.
— E os políticos? Se vendem por cachaça ruim, imagine por emenda parlamentar!
— Tomaremos o poder. Você fala, eu penso. Você agita, eu planejo.
— Revolução?
— Não. Restauração.

II. A CONSPIRAÇÃO

Alcides subiu em carro de som, começou a gritar palavras de ordem entre uma piada e outra. O povo, carente de líderes — e farto de políticos que prometiam o céu e entregavam esgoto — começou a ouvir.

Silvério escrevia manifestos como tratados clínicos: “A política é um transtorno de personalidade coletiva.” E assinava com pseudônimos como “Povo Revoltado” ou “Cidadania Armada”.

Logo, os dois estavam à frente de um movimento popular esquisito: “Restabeleça-se!”, que mesclava ideias de sanatório com libertação popular. Enquanto Alcides gritava “fora tudo!”, Silvério organizava listas de exclusão — nomes a serem removidos da vida pública, da vida privada, da vida.

III. OS CONIVENTES, OS COVARDES E OS TOGADOS

Os políticos locais, acostumados com escândalos, acharam graça:

— Um bêbado e um lunático? Deixa pra lá. Enquanto isso, aprovamos o reajuste dos nossos auxílios-moradia.

Os militares, que há décadas desfilavam mais em paradas do que em operações, preferiram não se meter. Há meios-fios que precisam de pintura. Um general reformado disse:

— A ordem deve ser preservada, mas quem somos nós para contrariar a vontade do povo? (e voltou para seu sítio com pensão integral).

Já os magistrados, incomodados com os protestos em frente aos fóruns, reagiram. Emitiram decretos que proibiam aglomerações e determinaram prisões preventivas de líderes populares, fora de processos, “por risco à ordem pública e ao sossego das instituições”.

Alcides foi preso e libertado em 48 horas. Silvério desapareceu por três dias, reaparecendo mais calmo, como se tivesse matado um gato — ou dois — no caminho.

IV. O AUGE DO DELÍRIO

A cidade parou. O prefeito renunciou, o vice fugiu. Alcides e Silvério assumiram informalmente o comando da cidade. Criaram o “Comitê de Restabelecimento Moral”, que funcionava no bar da esquina, entre latas de cerveja e um quadro de Rousseau pendurado ao lado de uma roleta de bingo.

De lá, baixavam decretos:

— Fica abolido o uso de terno em sessões públicas.
— Magistrados só julgarão após jurarem sob álcool que são imparciais.
— Vereadores perderão seus salários se faltarem três sessões seguidas.
— Licitações passarão a ser feitas em praça pública, com voto popular e cerveja liberada.

Por semanas, a cidade experimentou um surto de euforia. Até que vieram os delírios.

Silvério queria criar um “Tribunal Sanitário de Ética”, em que pessoas seriam julgadas por “má intenção presumida”. Alcides, mais exaltado, começou a defender que os corruptos deviam ser obrigados a beber com ele até confessarem — ou morrerem de cirrose.

V. O EPÍLOGO

A imprensa nacional chegou tarde, como sempre. Quando cobriram a estória (ou seria história?)), só encontraram ruínas. Alcides havia sido internado após tentar discursar nu na Câmara Municipal. Silvério foi contido ao tentar envenenar o poço da prefeitura para “purificar a cidade”.

O movimento “Restabeleça-se!” foi extinto por falta de quórum e excesso de desvario.

Na porta da nova prefeitura, um cartaz foi pregado com letras maiúsculas, simples, diretas:

“Toda sociedade é regida por regras. Quando não são cumpridas, o poder muda de mãos. Mas nunca para as mãos certas. Que cada um cumpra o que contratou: o político, a lei; o juiz, a justiça; o povo, a vigilância.”

E assim terminou o curto reinado do bêbado e do psicopata — não como heróis, não como vilões, mas como sintomas de uma república intoxicada por sua própria impunidade.

FIM

E o povo, enfim, aprendeu que nada muda se apenas se ri do absurdo. É preciso também não o aceitar.

PS: Se alguém se sentiu identificado neste exercício literário não foi intenção do autor, mas pode contribuir mandando seu relato para ser incluído na estória. Ou seria história?