Ano 09 – vol. 02 – n. 17/2021
O carnaval como manifestação cultural virou adjetivo há muito. De alegria ou de baderna tornar as coisas carnavalescas virou sinônimo de alegria, como também sinônimo de esbórnia, sobretudo política.
Dizer que um político fez um carnaval com algo se traduz em populismo ou rapinagem, enquanto nós, os contribuintes, literalmente dançamos.
Claro, seus chatos! Sempre tem as exceções!
O que importa, entretanto, é que é carnaval. Diferente, esquisito, mas é carnaval e, aqui no Maranhão, este ano parece que temos blocos que passarão pelos circuitos das redes sociais, daí por que é festivo registrar.
Há anos eu saio no bloco dos lençóis santistas. Aquele dos que ficam na cama entre os lençóis, fantasiados com o controle remoto da TV e cujo circuito se restringe à cozinha, com parada na geladeira, passando pelo banheiro e retornando ao cenário de partida: a cama, ou à cadeira preguiçosa, indispensáveis carros alegóricos.
Mas este ano meu bloco tem concorrentes. Ao menos é o que noticiam as redes sociais.
Passarão pela avenida do samba:
Associados da Cloroquina, Acadêmicos da Ciência relativa, Os Antivacinas da COVID-19, Reunidos do Bozo, Amigos do Poste, Associados dos Sítio, Amigos da Anta, Tresloucados da Esquerda, Empedernidos da Direita, Qualhiras da Jesus, Os Terraplanistas do Espaço, Os Promitentes Candidatos do Amanhã, Mamãe eu quero mamar nas tetas das verbas públicas, De Algemas no Motel, Eu disse que não disse, Amigos das notas de apoio, As letras dos jabás, Mamãe eu sou jornalista, eu juro, Os Mal Amados sem ritmo…ufa! São muitos muitos mesmo.
Mas acho que nenhum bloco fará mais alarido silencioso (pois experimente assistir a entrevista hermenêutica de uma sentença para compreender a contradição) do que o Bloco do Cala a Boca.
Lembrei de uma leitura que fiz num desses livros mais contemporâneos sobre a vida de D. Pedro I. Por alguma decisão por ele tomada seus auxiliares teriam tentado demovê-lo, pela repercussão que poderia causar perante Coro Portuguesa ao que teria respondido o Imperador:
“De ruídos só reconheço o alarido do meu povo, o tilintar das moedas e o gemido das mulheres”.
Pelo sim, pelo não, o fato ou factoide traz à baila a proibição de música ao vivo em ambientes públicos, sob a alegação de aglomeração em tempos de pandemia.
Não se pode negar que as pessoas não respeitem nem as filas em caixas, seja onde for, porque o maranhense (ou quem aqui vive) parece ter vocação a papagaio de pirata: adora se debruçar no ombro de quem está a sua frente na fila de espera. Mas, “um instante, maestro!”. Proporcionalidade, moderação, bom senso e juízo não fazem mal algum.
A casa é um asilo inviolável, prevê a Constituição da República e é necessário que a exceção à regras seja conduzida de modo rigorosamente constitucional.
Juiz não cria pena (gostem ou não suas excelências supremas, embora haja precedente de tipificação penal por aproximação tópica) mas isto ocorreu em um carnaval fora de época.
Ainda estou estupefato com o que ouvi, com o que li e com o que assisti. Talvez por isso a tendência tenha sido sair do meu bloco, ligar o som, abrir a cerveja, cantar músicas antigas e dizer, na aglomeração com minhas emoções e inquietações: Viva o carnaval, mesmo com o cenário da pandemia, porque não se faz alegria por decreto ou por sentença, mas também não se deixa desfilar o bloco do cala a boca. Viva o bloco da liberdade. Venha e desfile com o enredo democracia e saúde e que faça passar para o segundo grupo o bloco dos mal amados.
“Cala a boca já morreu”, como já afirmou uma Ministra.