Ano 12 – vol. 03 – n. 15/2024
https://doi.org/10.5281/zenodo.10934176
A política é uma verdadeira arte. A sua concepção histórica, se observada com fidelidade, traduz o lado bom da humanidade. É através dela que se pode imaginar uma sociedade civilizada efetivamente em construção. Mas a política é apenas um meio no qual transitam os homens e mulheres com propósitos, virtuosos ou desvirtuados, afinal, são os homens e mulheres, com virtudes e vícios, que escolhem o exercício da política representativa.
Às vezes, ao contemplar as redes sociais e meios de comunicação em geral, tenho a sensação de que o Brasil ainda não alcançou certos patamares mínimos de compreensão de regras básicas, que nasceram para substituir as agruras dos séculos que antecedem o constitucionalismo. Sim, porque a luta foi árdua para que se alcançasse avanços.
Não há um dia que não se veja pelos meios de comunicação um fato – por mais trivial que seja – que não vire um falatório com estardalhaço. Tudo porque a obsessão da imprensa em geral é de que o ex-presidente seja preso. Esse é o maior fetiche desde o ano passado.
Hoje mesmo assisti a um vídeo em que um certo jornalista, que insiste em não amadurecer, com os dentes trincados, anunciava que conversou com ministros do STF que lhe teriam informado que o devido processo legal será seguido até que, ao final, o ex-presidente seja preso.
Bom, então aquela gravação procede? É o que parece, pela informação enfática do jornalista.
Eu não sei onde este país vai parar. Constituição ele só tem a formal, porque a real é outra, preenchida pelo desequilíbrio das interpretações que passaram a ser feitas, não por instrumentos hermenêuticos próprios, mas por cada entrevista – que mais transparecem prejulgamentos – de autoridades que não se poupam de, midiaticamente, sobre (quase) tudo opinar.
Pois bem, a política como arte ou é abraçada com compromissos institucionais ou ela não passa de uma via que, ao invés do parlamento, usa as práticas mais incipientes de mandonismo vulgar e deletério, o mesmo que a civilização pretendeu substituir com normas cujo cumprimento não pode ser condicionado a castas artificialmente construídas.
Nossa biografia institucional está enodoada por uma instabilidade jurídica, que conta com a cumplicidade de órgãos da sociedade civil, que deveriam estar denunciando os impropérios, mas que quedam a conveniências circunstanciais.
Por onde andam aqueles homens e mulheres que juraram cumprir a Constituição? Por onde andam aqueles homens e mulheres que enfaticamente falavam em democracia e liberdade? Acaso nesses profissionais que deixaram suas vestes éticas e morais e passaram a se constituir em porta-vozes de vilipêndios legais?
Nosso país mergulha no ostracismo civilizatório. Tornou-se um pária perante a comunidade internacional por opção equivocada: caminha contra a própria civilização, ao abraçar doutrinas e teorias que remetem a barbáries que maculam a própria história humana.
Cúmplices são todos aqueles que se calam. O protesto não necessita da banalidade do insulto, normalmente feito pelos que acusam terceiros do que são capazes. Mas, coautores são todos aqueles que, constituídos, quedam inertes sem observar que o Brasil é maior do que eles. Sua importância para o mundo global só não é percebida pelos próprios homens e mulheres que fragmentam a ordem institucional, com o silencio cúmplice ou com a prevaricação funcional.